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Volta do comércio ainda não se traduz em demanda para confecção – Negócios

A cor branca das máscaras que até duas semanas atrás preenchia o ambiente ocupado por uma facção de costureiras no bairro Bom Jardim – e já apresentada em outras reportagens do Diário do Nordeste – perdeu espaço para o colorido das peças de moda feminina. Apesar de a descrição ser um indicativo de que a situação está sendo normalizada após a quarentena imposta pelo Coronavírus, o clima é de preocupação, já que a reabertura do comércio, no último dia 8, ainda não refletiu consideravelmente na demanda. O que era esperado pelas profissionais há duas semanas não se concretizou.

Dois dias antes da reabertura de shoppings e lojas de roupas no Estado, Clemilda Sales, que lidera a facção de moda feminina, tinha um cronograma detalhado e sólido para as semanas que se seguiriam após o início da segunda fase do Plano de Retomada Responsável das Atividades Econômicas e Comportamentais no Ceará: uma parte das oito costureiras trabalharia na fabricação de máscaras, como já vinha ocorrendo, com a ajuda dos maridos – responsáveis por dobrar e empacotar as peças -, enquanto as outras profissionais ficariam terminando o estoque demandado por uma das lojas antes da pandemia. Uma outra parte ficaria ainda trabalhando em outras peças, também de moda feminina, mas solicitadas por uma outra marca já na pandemia.

O plano de retomada do Governo do Ceará avançou, mas o cronograma de Clemilda mudou de direção e as expectativas deram lugar ao sentimento de cautela. “A empresa para a qual a gente fornece mais disse que só deve voltar a cortar as peças e enviar para a gente em julho, já que ainda estão com bastante estoque em loja. As vendas de máscaras caíram bastante, então não veio nenhum corte e nós não fabricamos nenhuma ao longo da semana”, diz.

Quando a produção de máscaras – comprovadamente fundamentais no combate ao coronavírus – estava a todo o vapor, no início desta série de reportagens, 600 peças eram feitas diariamente. Com a baixa, os maridos das costureiras, que conseguiam ter uma fonte de renda ajudando as esposas, deixaram a função. Alguns tinham a atividade como uma renda extra. Outros haviam sido demitidos com a paralisação da economia e tinham nas máscaras a única fonte de dinheiro.

“Com as pessoas voltando a trabalhar eu imaginei que a demanda por máscaras cresceria, já que as pessoas têm que sair de máscara. Infelizmente foi o contrário. Uma queda muito grande, não porque as pessoas estão deixando de usar, mas porque tem muita gente fabricando”, explica Clemilda.

Baixa no expediente

Além dos maridos, a dona da facção de costureiras explica que a baixa demanda a levou a reduzir o número de profissionais em atividade. Uma delas, que produzia de casa, está desde a última sexta com a máquina parada. “São cinco costureiras ‘retistas’ trabalhando direto e duas ‘overloquistas’. Agora temos só uma ‘retista’ porque estamos com a demanda um pouco menor. Também estamos sem uma ‘overloquista'”, diz, lembrando que as que ficam sem peças são as que normalmente “possuem uma outra fonte de renda ou cujo companheiro trabalha”. “As que têm como se manter”, ressalta.

As costureiras sempre foram acostumadas ao ritmo frenético de uma perfeita engrenagem. “Quando nós juntamos todas as costureiras, são produzidas umas quinhentas peças na semana tranquilamente. Dependendo do modelo, a gente entrega mais do que isso”, diz. Clemilda detalha que uma das marcas manda pelo menos 300 peças por vez. “O menor corte é para 300 peças, mas tem referência para 800 e até mil peças”, pontua a costureira.

Ao passo que a demanda por máscaras sumiu e que uma das lojas de moda feminina avisou que só mandará novos cortes para costura no mês que vem, a outra marca, que começou a enviar peças para costura na pandemia após uma boa experiência com vendas online, é a boia salva-vidas no momento. “Semana passada eu fiz 230 peças dessa loja. Esta semana já recebi mais 340 e na próxima semana eu quero entregar 500 peças. Já conversei com a dona e ela disse que dá certo. Ela vai mandar e a gente vai entregar no fim da semana que vem”, diz.

Apesar dos percalços e da preocupação, a costureira segue esperançosa. Dotada de uma fé inabalável, acredita que, após o mês de junho, a situação deve melhorar e os estoques nas lojas devem ser vendidos. “A expectativa era que esta semana estariam todos aqui, com as máscaras e as peças de moda feminina. A gente está torcendo que melhore. Mesmo com tudo isso, agradeço a Deus por não termos parado por completo, como você tem visto nas últimas três semanas. Agradeço a Deus todos os dias por isso”.

Melhora

Apesar da angústia expressada pelas profissionais na confecção acompanhada pela reportagem, de modo geral, o setor têxtil observou que, apesar do número reduzido de funcionários, o faturamento das empresas foi o dobro do que estava sendo apresentado nas fases anteriores da pandemia, quando as indústrias e as lojas estavam de portas fechadas. De acordo com o presidente do SindConfecções, Elano Guilherme, até o início da transição, os estabelecimentos que decidiram adotar as vendas online faturavam em média 15% do que era percebido antes da crise. Durante a primeira fase do plano de retomada gradual, o percentual é de aproximadamente 30%.

 



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