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Versinhos ecoam poesia de estandartes bordados

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Os “Versinhos do Bem-Querer” ecoam a poesia dos estandartes bordados por bordadeiras que fazem parte de outro projeto “Bordadeiras do Curtume”, também criado, organizado e mantido pela Associação Jenipapense de Assistência (Ajenai). O projeto teve como base a observação e escuta de Viviane Fortes, uma das coordenadoras da entidade, que, conhecedora da beleza dos pontos das mulheres do quilombo, convenceu-as a investirem nesse talento como forma de ajudarem a manter a cultura e as tradicionais de seus antepassados.

Segundo Mariana Berutto, coordenadora de comunicação da comunidade, atualmente, a instituição está participando de vários editais para levantar recursos que garantam a manutenção dos projetos desenvolvidos pela Ajenai. As bordadeiras decidiram produzir apenas estandartes porque, este objeto ornamental, é um dos símbolos culturais do Vale do Jequitinhonha. 

Com a Covid-19, as vendas presenciais foram inviabilizadas. Deste modo, parte das bordadeiras dedicou-se a vender os “Versinhos do Bem Querer”. Parte dos R$ 115 mil arrecadados nestes primeiros sete meses foram utilizados para a manutenção da lojinha, pagamento das taxas dos sistemas de pagamento PAyPal e PagSeguro, para cobrir o custo do frete, oferecido gratuitamente aos clientes, da compra dos materiais e do pagamento das consultorias para a montagem das coleções. 

“Cada estandarte é vendido por cerca de R$ 350. As bordadeiras ganham 45% líquido por peça vendida. O restante é reinvestido no projeto e no treinamento de 25 aprendizes que estão integrando-se ao projeto. Mas graças a Deus é um projeto autossusustentável”, afirmou Mariana

Participante do projeto, Maria do Carmo Guimarães, de 39 anos , conhecida como Carmem, bordava o ponto de cruz, o ponto cheio e o ponto de cipó usados para enfeitar caminhos de mesa, panos de cozinha e algumas roupas.

Ela trabalhava na lavoura com o marido e os filhos, mas em diversas ocasiões o plantio não resultava em nada. “Nunca faltou o que comer, mas como aconteceu neste ano, perdemos o milho usado para fazer fubá, canjiquinha e outros tipos de alimento”, afirmou.

Incentivadas pela Ajenai, Carmem, juntamente com outras 21 bordadeiras, reuniram-se para aprimorar o traçado e melhorar as vendas. Durante os encontros, as bordadeiras cantam, contam casos e desabafam entre si, deixando a tristeza de lado.

“Com a pandemia, foi criado o Versinhos do Bem-Querer, passamos a vender mais pela internet. Continuamos. Já cheguei a ganhar R$ R$ 500. Este dinheiro ajuda muito aqui. Mas os valores que recebemos depende do número de peças que vendemos”, explicou.

Festas da região – Mas o projeto deslanchou mesmo quando o filho de Carmem, Diogo Guimarães, de 21 anos, passou a desenhar as cenas que retratam personagens e festas da região, como os integrantes de uma banda, mulheres rezando e galinhas criadas pelas famílias. “Um dia, ele mostrou o desenho. Achei bonito, mostrei para as meninas e tivemos essa ideia de retratar o nosso cotidiano”, afirmou.

Embora todas as mulheres da comunidade, formada por cerca de 95 famílias, trabalhem como lavradoras, elas são as únicas do lugar que conseguem identificar as árvores com cascas que produzem as tinturas para colorir com “americano cru” os tecidos usados para os bordados. 

Ambas aprenderam os segredos das cores com suas antepassadas. Elas retiram pedaços da casca de árvores como a “Aroeira, o Angico-Vermelho, o Tingui, o Jenipapo e o Anli”, entre outras. Nêga explicou que a escolha da lua correta é um dos trunfos para conseguir o tom desejado.

“As luas fracas, como a minguante e a cheia, produzem tinturas mais suaves. As cores das cascas cortadas das árvores durante as fases fortes (nova e cheia) são muito mais vivas. Porém, a cicatrização da árvore acontece mais rapidamente durante as fracas”, explicou Marli.

Design têxtil, Ana Vaz é formada em comunicação, mas foi como autodidata que descobriu sua paixão por agulhas de crochê, tricô, bordados e outras artes. Convidada pelas coordenadoras do projeto, desde 2016 ela presta consultoria para o “Mulheres do Jequitinhonha”.

A contribuição de Diogo, conforme Ana, imprimiu um tom autoral no nicho de cultura criativa desenvolvido pela comunidade.

“Cada uma tem o seu próprio risco; a sua maneira de interpretar, com o próprio bordado, os desenhos. A coleção é feita a partir da harmonia de tons criados pelas tinturas vegetais. A escolha dos desenhos e das linhas compõem as peças”, disse Ana.

Consultora de vários projetos em Minas baseados em design têxtil, ela defende a tese de que essas iniciativas fortalecem não somente a identidade individual, mas as coletivas.

Como as mulheres dos Jequitinhonha também sabem identificar diferentes tipos de terra para tingir, a próxima coleção deverá ser feita com pigmentos retirados da terra branca, amarela, vermelha e cor de ferrugem.

“Elas bordam nos estandartes as suas vivências, seus afetos, suas memórias e seus saberes. As peças trazem muito mais que as cenas bordadas em ponto cheio. São repletas de afeto”, afirmou Ana. 

Os estandartes bordados pelas “Mulheres do Jequitinhonha” podem ser comprados na loja on-line do projeto.

Tataraneta de Joaquim Teodoro da Costa, fundador do “Quilombo do Curtume”, Marli de Jesus Costa, de 41 anos, faz questão de preservar as tradições e a cultura local. Ela conta ter orgulho do antepassado por não concordar com a escravidão. Ele recebeu homens e mulheres pretos em suas terras para que construíssem suas casas, cultivassem plantações e vendessem mercadorias, sustentando seus familiares. 

Além de mãe de três filhos, Marli é tintureira, bordadeira, agricultora, dona de casa, violeira, quitandeira e parteira, outra arte aprendida com uma tia a quem ela tratava como avó. “Ao todo, fiz seis partos. O último que fiz foi o de uma cunhada e demorou muito. Ela sofreu bastante. Mas essa minha sobrinha nasceu bonita e com muita saúde. Além de tia, sou o que o povo chama aqui de ´mãe de umbigo´”, contou.

Ela aprendeu com o marido, João Welton de Souza, de 49 anos, a tocar violão. A sabedoria transmitida por seus antepassados deu-lhe, ainda, outro dom. “Eu conheço as ervas. Sei o que usar para tratar dor de cabeça, de estômago, problema de fígado e outros, como reumatismo. Quando alguém está doente, é só pedir e a gente faz o chá e leva para a pessoa”, explicou. 

Desde que começou a integrar os projetos da associação, Marli disse que ela e suas colegas estão se sentindo mais fortalecidas, sabidas e independentes. Para as mulheres que vivem sem vontade de sair de casa, tristonhas, ela dá um conselho: “não adianta deixar a luz acesa embaixo da mesa. Nós mulheres temos que nos valorizar. Temos que mostrar nossa sabedoria para o mundo”.

É possível acompanhar os projetos também nas redes sociais pelos perfis @rodadeversos e @mulheresdojequitinhonha.