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Vagas não combinam com quem procura emprego – 18/06/2021 – Seminários Folha

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De todos os paradoxos brasileiros, um chama especial atenção: o desemprego cresce ao mesmo tempo que a indústria reclama de falta de mão de obra. O problema é que falta formação em áreas específicas, enquanto em outras pode até sobrar gente com diploma.

Um estudo da Confederação Nacional da Indústria publicado em 2020 mostrou que no ano anterior metade das indústrias extrativas e de transformação patinavam com falta de trabalhadores qualificados. Naquela época, a taxa de desocupação no país girava em torno de 12%.

Nove em cada dez indústrias brasileiras declaram que faltam operadores e técnicos no mercado. O principal gargalo é a formação. Estamos falando aqui de segmentos como plásticos e borracha, alimentos, bebidas, farmacêutica, têxtil, extração de petróleo.

A carência de profissionais técnicos em setores centrais do processo produtivo, dizem os industriais, atinge a produtividade e a qualidade do que é fabricado. Afeta diretamente a competitividade da indústria brasileira: derrapamos por falta de gente, mesmo com mão de obra excedente no país.

Dentre os que estudam e chegam ao nível superior, há outro descompasso: muitos se formam e não conseguem atuar na sua área. O melhor exemplo é o curso de direito.

Líder nacional em matrículas do ensino superior, a formação em direito é oferecida por todo canto do Brasil. Há mais de 1.200 cursos na área.

Universidades credenciadas pelo Ministério da Educação têm autonomia para abrir novos cursos de direito a qualquer momento. Já as faculdades precisam de autorização do governo para começar empreitadas acadêmicas que, muitas vezes, não dialogam com as necessidades do país e do mercado.

Ao que parece, a abertura de cursos também não olha para o sucesso das graduações vigentes. Dados do último RUF (Ranking Universitário Folha), de 2019, mostram que oito em cada dez instituições de ensino brasileiras que oferecem direito têm menos de 25% de seus alunos aprovados no exame da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil).

O problema, claro, não é um excesso de egressos do ensino superior de maneira geral. Ao contrário: o país está longe de atingir as metas do PNE (Plano Nacional de Educação), especificamente no setor terciário.

A lei do PNE, em vigor desde 2014, tem o objetivo de planejar o futuro do ensino por uma década para oferecer educação de qualidade à toda população.

Uma das finalidades do plano é a garantir que 33% dos jovens de 18 a 24 anos estejam matriculados no ensino superior até 2024. No ano passado, estávamos perto de 24%, taxa que deve cair com o impacto da epidemia de Covid-19.

Para se ter uma ideia, países desenvolvidos da Europa e da América do Norte têm, em média, mais da metade da sua população jovem matriculada no ensino superior. Então, claro, o Brasil ainda tem muito para crescer no ensino universitário.

Já no ensino profissionalizante temos de crescer ainda mais. O mesmo PNE tem como meta alcançar 5,2 milhões de matriculados na educação profissional de ensino médio até 2024, o perfil de formação que a indústria procura e não encontra. A proposta é que metade das vagas seja ofertada pela rede pública.

Uma das estratégias definidas pelo plano para ampliar as matrículas no ensino profissionalizante é a estruturação de um sistema nacional de informação profissional, que articule melhor a oferta de formação e os dados do mercado de trabalho.

Ampliar vagas na formação profissionalizante ou superior, no entanto, pressupõe que uma etapa anterior tenha sido bem cumprida: a educação fundamental.

A questão é que se falhamos, por exemplo, no ensino de ciências nessa etapa, como vamos atrair os jovens para um curso profissionalizante em química? Apenas para citar um exemplo, os últimos dados do Censo da Educação Básica do Inep-MEC mostram que menos de 10% das escolas públicas regulares de ensino fundamental têm laboratório de ciências.

Não há dúvida de que setor produtivo, gestores públicos e instituições de ensino precisam sentar juntos para redesenhar o sistema profissionalizante do país. O que não podemos fazer é culpar quem se formou e não consegue emprego ou deixar a indústria sem conseguir contratar. O ‘‘match’’ entre formação e vagas deve ser bem planejado.