TROCA-TROCA | O TEMPO

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‘Do nada, vejo gente fazendo propaganda da sua geladeira, do seu ar-condicionado, de um sofá que não usa mais. Transforma a garagem em um brechó de mil e uma ofertas.’

Mineiro não resiste a uma compra e venda. Seu espírito tropeiro veio com um encarte de classificados. 

 

Ele põe tudo o que tem à disposição, mesmo o que usa com frequência, se pressente um bom negócio. 

 

Especula por hobby, imagina por curiosidade, sonda na esportiva. Sua maior diversão é recuperar, depois de um tempo, o que gastou na compra. 

 

É filiado à turma do tentar não custa nada. 

 

Se um vizinho aparece dizendo que um amigo procura um carro usado de sete lugares, que a família aumentou com a chegada de gêmeos, o mineiro responde que vai prospectar candidatos, mas, se ele quiser, pode ficar com o seu veículo de cinco lugares. 

 

Em nenhum momento antes, ele pensava em passar adiante o seu automóvel. Não era uma perspectiva, inclusive depende dele para se deslocar ao serviço. É surgir um interessado que ele já monta um balcão na hora. Não desperdiça a loteria de um comprador. Baixa o aplicativo do Mercado Livre em sua lábia. 

 

Já vi muito disso pelas bandas de BH e interior. É impressionante a transformação de uma conversa desinteressada em troca-troca. 

 

Do nada, vejo gente fazendo propaganda da sua geladeira, do seu ar-condicionado, de um sofá que não usa mais. Transforma a garagem em um brechó de mil e uma ofertas. 

 

“Uai, se souber de alguém…”

 

Está sempre com o olhar atento e o ouvido alerta. Não tem campo ruim, local inadequado, contextos inoportunos. Não se furta de comentar barbadas em festas de aniversário de criança, batizados, casamentos. É receptivo a lances em praças, estádios, cinemas, bancos, supermercados. 

 

A prosa à toa conserva esse dom prodigioso de replicar anúncios. Confia no boca-a-boca, na circulação dos desejos, nas dicas dos afetos. Repassa, ao maior número de pessoas, os apelos e solicitações de familiares e amigos. Forma uma rede informal de varejo. 

 

Às vezes, calha de ajudar alguém se ajudando, desfazendo-se de algo que não se mostrava prioritário e sobrava em sua vida. 

 

O simples aperto de mão sacramenta o acordo. 

 

Em Minas, o cumprimento ainda goza da força de juramento, tem valor de cheque na conta. Palavras são levadas a sério – o único bem inegociável, lavrado na honra. 

 

Dependendo do valor oferecido, sai até da sua casa na hora, apesar da reforma e da decoração recentes. Não se preocupa com o transtorno. 

 

É um desapego sob a condicional do investimento, de aproveitar uma oportunidade única e irrepetível. Abre a exceção para renovar a regra do cuidado. 

 

Ele gosta muito do seu patrimônio, como mencionei na coluna anterior, a ponto de comemorar os aniversários dos objetos, mas é ainda mais fascinado pela chance de melhorar de condição e montar uma poupança. 

 

Mineiro é precavido sem necessidade, costura o seu pé-de-meia a cada novo caminho que surge. Ele se orgulha de manter uma reserva para os dias difíceis. Não se deixa levar pela estreiteza mental do presente. 

 

Acredita que o acaso não é de graça, que aquela transação inesperada é, na verdade, uma encomenda do destino.