Têxtil prepara-se para novo embate, sem a almofada das máscaras

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As máscaras sociais foram o balão de oxigénio que permitiu à indústria do vestuário manter os seus mais de 90 mil empregos, ao mesmo tempo que assegurava trabalho a montante, no têxtil, designadamente ao nível dos tecidos, malhas, tingimento e estamparia, Mas a procura é hoje bem menor e o mercado está, entretanto, inundado, seja pelos produtos descartáveis importados da China, seja pelas máscaras sociais que a indústria portuguesa desenvolveu. A solução passa pela aposta em novas gamas de produtos, numa altura em que novos confinamentos, mesmo que parciais, em vários países europeus, volta a colocar pressão sobre os fabricantes de vestuário. “Ninguém compra roupa para ficar fechado em casa”, lembra César Araújo, presidente da ANIVEC, a associação do vestuário.

Mário Jorge Machado, líder da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP), garante, após os primeiros sinais de recuperação no verão, o setor da moda está, novamente, a abrandar. A fundo. “Nota-se uma diminuição acentuada na entrada de encomendas e muitos clientes a pedir para adiar entregas ou mesmo a tentar cancelar encomendas”, garante. E, agora, já nem as máscaras vão suportar a indústria. “Como produto têxtil que é, tem uma durabilidade muito longa, o que é um bom sinal, porque não pesam no orçamento das famílias. Mas, para as empresas, adivinha-se uma situação muito, muito grave”, garante. E nem a obrigatoriedade de uso deste artigo na via pública ajudou. “Todos nós já temos máscaras, podemos comprar mais uma ou outra, mas não vai gerar uma procura significativa. Todos saíam de casa já com uma máscara no bolso, agora levam-na já colocada”, sublinha.

A provar o abrandar deste mercado, estão os dados das exportações: os artefactos têxteis confecionados, categoria em que encaixam as máscaras sociais, representou 141,1 milhões de euros nos primeiros oito meses do ano, mais 612% do que no período homólogo. Mas o boom maior nas vendas ao exterior aconteceu, sobretudo, em maio, com 55 milhões, e junho, com 33 milhões de euros. Em agosto caiu para 12,4 milhões.

Citeve reforçou meios

Desde abril, quando foram certificadas as primeiras máscaras sociais, o Citeve aprovou já mais de 2.600 modelos. E embora continuem a chegar, diariamente, novos pedidos, são em número substancialmente inferior. O que não é, necessariamente, mau. “Como em qualquer produto, há aqui uma oportunidade de melhoria e há empresas que fizeram um titânico de automação de processos para serem mais competitivos e fugirem à concorrência dos países de mão de obra mais barata, e há muita gente à procura de soluções mais complexas e mais desafiantes”, garante Braz Costa, diretor-geral do Citeve. O desenvolvimento de produtos de proteção à covid-19 gerou uma avalanche de tal ordem no centro que obrigou ao reforço de meios, humanos e materiais. E embora as empresas se continuem a queixar de de alguma demora na obtenção de respostas do laboratório, Braz Costa garante que, com a nova equipa, novos equipamentos e as melhorias de procedimentos introduzidas, o Citeve “não tem qualquer atraso”.

Adalberto investe em I&D

Um mês antes da pandemia chegar a Portugal, a Adalberto Estampados apresentou em Paris, na Premiére Vision, uma coleção 100% sustentável, usando apenas matérias.primas recicladas e orgânicas, e na qual se incluía o primeiro tecido embebido em CBD, um extrato da cannabis com efeitos calmantes, anti-stress e anti-oxidante, ou o tecidos com acabamento termo-regulador, que permite aquecer ou arrefecer a temperatura do corpo.

Uma área de negócios de aposta crescente, que ficou em stand-by com a covid, e que vai agora ser retomada. Susana Serrano, responsável da empresa, promete lançar, em breve, uma nova gama de produtos na área do wealthcare, muito focada nas áreas do desporto, do vestuário e dos têxteis-lar, mas com uma estratégia muito direcionada” para o segmento digital. Quanto às máscaras, e apesar da Adalberto ter certificado “a primeira máscara com capacidade de inativar o vírus que causa da covid-19”, Susana Serrano admite que as vendas “começam, agora a ser residuais”, e, por isso, a empresa está, agora, a retomar os desenvolvimentos que deixou em stand-by. A Adalberto conta fechar o ano com 30 milhões de euros de faturação, cinco a mais do que em 2019. “Foi um ano mau. Não a nível de faturação, claro, mas o que exigiu da indústria, em termos de resiliência, foi demasiado”, defende.