Terceira idade ganha espaço nas redes e tem até ‘influencers’ digitais

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Elas não têm corpos sarados, não frequentam festas badaladas, nem colecionam amigos famosos. Mesmo assim, estão bombando nas redes sociais. Influenciadoras digitais, ou “influencers”, com milhares de seguidores, elas são mulheres que já chegaram à terceira idade e resolveram compartilhar seus estilos e experiências online.

As motivações são diversas: influência da família, busca por maior autoestima e até por acidente ou brincadeira, mesmo. Algumas já colhem frutos. Reconhecimento de seus “seguinetos” e “seguimores” – todas usam nomes carinhosos para seus seguidores -, presentes de marcas, contratos publicitários e até desfile de moda.

Dirce Ferreira, mais conhecida como “dona Dirce”, 73 anos, conta que até três anos atrás não tinha nem familiaridade com a Internet. Ela diz que tudo começou quando fechou sua loja em Uberlândia (MG), e se mudou para a casa da filha.

Segundo ela, ficou com mais tempo livre. “Como gosto de orquídeas, eu comecei a comprar, ganhar e a entrar nas redes sociais para saber coisas sobre orquídeas. Aí descobri que o Google é um cara muito inteligente, sabe tudo. Tudo que eu quero saber vou atrás do Google – tem a bíblia, história, filmes… então comecei a mexer mais e mais com isso”.

As redes sociais vieram depois, há cerca de um ano e meio. Dona Dirce diz que tudo começou com uma brincadeira e a sugestão da neta, Izabela, para que ela recriasse a foto de outra neta, que é bailarina e trabalha em um circo no exterior. “Era uma foto dela seminua, e a gente refez igualzinha”, conta, aos risos. “Quando a Izabela perguntou ‘posso colocar na internet,’ eu pensei ‘mas é uma velha pelada… ninguém vai se preocupar com uma velha pelada’. Mas falei para colocar, e foi uma coisa incrível, todos gostaram. Depois disso, dancei funk, com shortinho e bluzinha. Não estou nem aí para o meu corpo, para as minhas rugas”, conta.

Dona Dirce, que é enfermeira aposentada e viúva, trabalha no salão de festas da família, além de fazer alguns trabalhos com costura. Apesar disso, também tem investido na carreira de influenciadora digital, tendo contratado duas pessoas para ajudá-la em seus posts e comprado equipamentos. Mas responder aos seus “seguinetos”, só dona Dirce. Segundo ela, são 200 a 300 conversas todos os dias.

Maria Sueli Gomes Rodrigues, 71, conhecida como Sueli Rodrigues, começou a “brincar” nas redes sociais após o incentivo de uma amiga. Ela encarou a proposta como um desafio. Tinha acabado de vencer um câncer no estômago e emagrecido dez quilos. “Eu estava mais magra, então comecei a comprar roupas, e minha amiga veio com essa ideia de fazer um blog. Eu falei ‘sou velha, tem tanta mulher gostosa, maravilhosa postando’, mas ela me convenceu.”

Sueli começou então a postar seus looks. A amiga fazia as fotos e postava, até que sua história foi publicada no perfil “Razões para Acreditar”, no Instagram. “Aí bombou”, resume ela.

Sueli, que é paraibana de João Pessoa, mas vive em Itu (SP), há 35 anos, viu seus “seguimores” saltarem de pouco mais de 200 para 5.000. Após um convite para participar do programa “Encontro” (Globo), esse número subiu para 20 mil. Depois vieram mais programas de TV, jornais e seguidores.

Apesar de ter começado a aventura nas redes mostrando seus looks, Sueli afirma que não se trata de moda. “Eu quero mostrar que depois dos 60, 70 anos você pode fazer o que quiser. Não é sobre andar pelada por aí, mas colocar para fora o que você sente, trazer alegria às pessoas”.

NO YOUTUBE

Mas não é só no Instagram que a terceira idade está pedindo passagem. O YouTube também tem canais feitos por pessoas com mais de 60 anos. Apesar de as plataformas não divulgarem dados específicos sobre contas ou ranking por número de seguidores, o YouTube lista alguns canais em crescimento, como o “As Avós da Razão”.

Nele, as amigas Gilda Bandeira de Mello, 78, Sônia Bonetti, 82, e Helena Wiechmann, 92, respondem perguntas de seguidores e debatem sobre os mais variados assuntos. Sem papas nas línguas, elas falam de política, sexualidade, feminismo, e garantem que a maior parte das dúvidas não vêm de idosos, mas de seguidores jovens.

“Eles perguntam tudo e nós respondemos tudo. Como era nosso tempo de moça, se já tivemos um relacionamento com pessoas do mesmo sexo, política, ditadura, racismo, feminismo na nossa época. É instigante, porque a gente não sabe tudo, então vamos procurar, como é, como foi, como não foi. É desafiante”, afirma Gilda. Segundo o trio, a ideia não é polemizar ou criticar ninguém, mas levar para a internet as “conversas de boteco” que elas já tinham regularmente.