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‘Surgimento da moda, no século 19, mudou o papel da mulher no Brasil do Segundo Reinado’, diz historiadora Joana Monteleone – Blog Ceará Máquinas



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Seu livro traz curiosidades bem interessantes, que ajudam a entender esse processo, muito ligado à Revolução Industrial. Um dado que me chamou a atenção é que, em 1861, existiam 3 mil fábricas de tecido na Inglaterra, que empregavam 600 mil operários. Com isso, entendemos o peso econômico exercido pelo tecido e pelas máquinas de costura, e como isso impactou o mundo na época. Outra curiosidade citada no livro é que logo no começo da máquina de costura, em 1830, um dos inventores, o francês  Barthelemy Thimonnierao patentear a invenção, foi duramente atacado por alfaiates e modistas, que costuravam a mão, pois achavam que o ganho de escala com a invenção seria o fim do seu trabalho. Com isso, incendiaram o galpão onde esse inventor, que também era alfaiate, trabalhava e Thimonnier acabou morrendo na miséria. Como foi, aqui no Brasil, essa reação inicial à máquina de costura e ao papel da mulher?

A gente teve no começo do século 19 vários movimentos de operários e trabalhadores que vão destruir algumas máquinas. Eles achavam que as máquinas os colocavam na situação de opressão econômica. Muitas máquinas foram destruídas em diferentes partes do mundo. Esse caso citado é de um inventor francês, um alfaiate, que fez um modelo da máquina que depois foi muito desenvolvido e modificado, era um protótipo bem inicial, mas que deixou indignada uma população de trabalhadores que tinha uma especialidade, os alfaiates. Porque, um, tinham que aprender uma coisa nova e, dois, substituir o cotidiano deles – afinal uma máquina conseguia costurar mais do que uma pessoa à mão. Quando estava desenvolvendo minha tese de doutorado não tinha visitado acervos físicos de moda. Eu pesquisei balanços de importação, jornais da época, li muita literatura que descrevia os vestidos (José de Alencar, por exemplo) – porque gosto muito dessa linha-fina de economia e sociedade, economia e cultura –, e os estudos de museologia de moda eram muito iniciais. No final do ano passado, com a redução da pandemia, visitei alguns acervos de moda no Rio. Entre eles o da Domitila de Castro, a Marquesa de Santos, amante de D. Pedro I. Pude ver roupas delicadamente costuradas à mão. Visitei outro acervo em que as roupas eram costuradas a máquina, no Museu Casa de Hera. É possível ver a diferença entre as roupas e a transformação da máquina de costura em fazer a vestimenta. Sobre a outra parte da pergunta, como as máquinas transformaram as mulheres: essa ideia de moda e transformação constante das roupas que se espalha pela Corte de D. Pedro II no século 19 de fato impacta o cotidiano das mulheres. Até meados do século 19 só era aceitável às mulheres visitarem parentes ou ir à missa, a vida delas era mesmo em torno da casa e da igreja. Com as transformações tecnológicas e de consumo no capitalismo, vemos as mulheres saindo de casa para tomar algo que era muito moderno na época, o sorvete –que eram feitos de forma manual, nas sorveteiras batidas com gelo químico. Por isso, elas tinham de ir para a sorveteria para degustar um sorvete. Também vemos as mulheres indo às modistas para fazer as roupas, passeando pelas ruas para usufruir dessa cidade ligada ao consumo – no Rio de Janeiro, era na Rua do Ouvidor. Nisso temos as vitrines das lojas que se transformam, as mercadorias que enchem as lojas de coisas novas. Ou seja, as mulheres passam a frequentar o espaço das cidades e, ao mesmo tempo, um tipo de trabalho feminino que é aceito de maneira mais natural pela sociedade, ligado à venda e consumo de produtos. Surgem vendedoras de chapéus, de luvas, de sapatos, as modistas que vão atender essas mulheres, que vão fazer esses vestidos, e profissões que passam a ser aceitas—por exemplo, jornalistas de moda e escritoras que podiam escrever sobre isso. Passamos a ter várias profissões de camada média ligadas à entrada no mundo do trabalho das mulheres. 

Como   estamos falando da história da moda no Brasil e no mundo, é natural as pessoas ficarem curiosas como se deu a evolução da vestimenta, em especial das mulheres, no século XIX. Gostaria que você montasse uma linha do tempo dos tipos de roupas, modelos e acessórios mais usados, e como o desenvolvimento da moda modificou os padrões de se vestir e de as mulheres se mostrarem elegantes e antenadas com as novidades.

É interessante que, conforme a Revolução Industrial se aprofunda, vemos transformações importantes nas roupas femininas. Se no começo do século 19 a gente tinha algo chamado moda império (foto 1), que são cinturas bem-marcadas embaixo do busto, as roupas em tecido leve, geralmente em branco, a ideia de se voltar a um período que remetesse à Grécia Antiga – mulheres de branco e cabelos com cachinhos, que lembrassem dessa época grega –, e também à época do romantismo, você tem tudo isso influenciando essas vestimentas. Na Europa era interessante, por causa do clima frio. Havia vestimentas no inverno que eram complicadas para as mulheres usarem: mantinhas, xales e meias. E tinha muita discussão se elas ficavam muito resfriadas por usarem pouca roupa — muitas vezes, essas roupas eram quase que transparentes (foto 2). Essas roupas foram se modificando ao longo do século 19. Primeiro aparecem mangas bufantes e compridas, e os vestidos passam a ter outras cores. Depois têm frufru nos barrados e rendas. Paulatinamente, as saias vão aumentando. Vale destacar que no século 19 temos uma separação brutal de gêneros. Enquanto as mulheres têm as saias repetidas vezes sendo aumentadas, até chegarem no tamanho máximo da crinolina, que é uma armação de ferro que deixava a saias no formato balão (foto 3), com vestido muito rendados e com bastante ornamentos, os homens se vestem cada vez mais sobriamente, como se fossem uma chaminé em preto: a cartola, o paletó preto, a camisa branca e a calça bem reta. Você tem o homem bem magrinho e reto, e as mulheres com saias bufantes que acentuam as características femininas –quadril, busto, essa “redondeza” feminina. E depois desse volume máximo das saias, representado pela crinolina –que foi uma tentativa de deixar a vestimenta feminina mais leve, porque para deixar as saias volumosas antes da crinolina era preciso ter sobressaias, o que deixava tudo muito pesado –, as saias vão diminuindo e se alongando na silhueta atrás da mulher (foto 4). O traseiro é ressaltado por almofadinhas e crinolinas que vão para trás. Portanto, a mulher do final do século 19, de frente eram esguias e, de lado, era perceptível a almofadinha. Essas foram as transformações básicas da silhueta feminina do século 19.

É interessante que, nesse período, o ato de se vestir, principalmente para as mulheres, era uma operação complexa, que necessitava de ajuda – o que reforça a importância que as pessoas davam para a vestimenta, a maneira como você se apresentava em público e a necessidade de mostrar os vestidos e tecidos novos que vinham da Europa.  Aqui no Brasil se seguia a moda europeia. Mas tinha algum nome que se destacava por criar algo diferente ou o que se fazia era cópia do que vinha de fora? Mesmo porque tinha a questão do clima daqui – o verão aqui é diferente do europeu.

Precisamos levar em conta que essas roupas usadas no século 19 eram muito ligadas à classe social – ou seja, pelas mulheres da elite. Elas precisavam e tinham ajuda aqui no Brasil de mulheres escravizadas, como mucamas, que ajudavam elas a se vestir, davam retoques finais. Muitas roupas precisavam ser costuradas no corpo da mulher para ela poder sair, principalmente as roupas de grandes eventos sociais, como de ir à ópera. Mas havia uma simplificação dessas roupas no cotidiano das mulheres do século 19 para as que ficavam em casa, como hoje. Muitas vezes, as mucamas acompanhavam as mulheres nas festas para dar retoques no local. Era comum cair um pedaço do vestido, quando elas dançavam demais. A roupa nesse período estava ligada à ideia de distinção social, de marcar a diferenciação entre as classes de forma acentuada. Ser uma mulher da Corte tinha de estar marcado pela maneira como se vestia: os tecidos, as mangas, as luvas, as botas, o recato, a virtude, tudo estava inserido nesse contexto. A gente tinha ateliês de moda que traziam roupas da Europa. E precisamos entender que, ao contrário de hoje – em que prezamos a criação de moda, a inovação e a mudança constante –, no século 19 havia uma ideia de pertencimento de classe. Ou seja, uma mulher da Corte brasileira tinha de se parecer com uma mulher da Corte francesa, espanhola ou inglesa ou da alta aristocracia desses países. Era uma moda mundial. Não se devia vestir diferente aqui no Brasil de uma condessa francesa, por exemplo – mesmo porque as relações de parentesco entre as nobrezas eram muito fortes. Essa ideia de criação, de democratização da moda – de usar o que valoriza a mulher individualmente, que é muito comum hoje –, simplesmente não existia. O que vigorava era o pertencimento de classe. Dificilmente existiam ateliês de moda, aqui e na Europa, que procurassem fazer algo muito inovador. O que existia eram “modinhas”. Existe uma história curiosa de uma moça conhecida da elite do Rio de Janeiro que encomendou um vestido ao famoso ateliê do Bernard Wallerstein, na Rua do Ouvidor. Uma das costureiras errou no vestido dela, colocando uma prega a mais que mostrava o pé. A moça fez sucesso no baile e todas as mulheres depois queriam essa prega a mais…Eram situações assim, pontuais.

Tudo isso aconteceu no reinado de D. Pedro II. Ele era considerado um imperador elegante? Como os brasileiros e as brasileiras eram vistos no exterior em relação à moda?

D. Pedro II era considerado, sim, um imperador elegante. Ele comprava suas roupas no alfaiate mais importante de Londres, Henry Poole. As roupas dele se adequavam ao que se esperava do imperador de um país importante, como era o Brasil. As mulheres de elite do Brasil, quando viajavam para Paris ou Londres, tinham o hábito de desembarcar e, logo na primeira semana, encomendar vestidos da temporada para as modistas conhecidas da época — precisamos lembrar que nessas viagens para o exterior, que eram longas, elas ficavam muito tempo fora. Elas também se enquadravam no padrão europeu.

Antes de terminar, vou repetir uma pergunta que sempre fazemos para os entrevistados da Agenda Bonifácio: a senhora acha que o Brasil é de fato um país independente?
Bom, somos independentes de Portugal, certo? De Portugal não somos dependentes…Mas acho que é complexo falar em país independente numa sociedade globalizada e neocolonial em que a gente vive. Então, como ser independente, nesse contexto? É independente na medida em que as relações de forças econômicas no mundo nos permitem. Quais são os países de fato que são independentes ou totalmente autossuficientes? Existe uma correlação de forças econômicas que permeia as relações entre os países, o que os torna muito interdependentes. E obviamente tem essa ideia do neocolonialismo, da exploração de países dependentes, que ainda é muito forte. E ainda estamos nisso: somos um país agroexportador, que vive disso. É complexo.

Fonte operamundi.uol.com.br

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