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So Paulo Fashion Week tem recorde de negros e indgenas e destaca novas brasilidades

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Divulgao

Depois de uma mudana radical sobre o que se entende por moda brasileira na prtica, a So Paulo Fashion Week inicia nesta quarta-feira sua 51 edio tentando mostrar essa evoluo. Se a edio passada direcionou os holofotes para a equidade racial na passarela, com a obrigao de que metade dos modelos que desfilam para as marcas sejam negros, afrodescendentes, indgenas ou asiticos, o retrato do pas que ser visto agora est tambm na escalao das marcas.


Das 43 apresentaes virtuais programadas para acontecer at o fim da semana, 34% so de grifes com donos no brancos, trazendo um retrato mais realista da diversidade de cores e ideias da produo brasileira de roupas.

O nmero s foi possvel de ser atingido com a entrada de designers vindos do evento autoral de moda Casa de
Criadores, entre eles, o piauiense Weider Silveiro e o pernambucano Walrio Arajo, o retorno do estilista Wilson Ranieri semana de moda e, principalmente, estreia do Projeto Sankofa, que levar oito marcas de criadores no brancos plataforma paulistana de desfiles.

Idealizado pelo coletivo Pretos na Moda, cofundado pela modelo Natasha Soares e o mesmo que iluminou a discusso sobre a proporcionalidade racial na indstria fashion, em parceria com a startup de inovao social Vetor Afro-Indgena na Moda, ou Vamo, cocriada pelo estilista Rafael Silvrio, o projeto o primeiro gestado fora do escopo dos organizadores da SPFW a ter espao na programao.

Alm da marca homnima de Silvrio, as etiquetas Ateli Mo de Me, Meninos Rei, Mile Lab, Santa Resistncia, Naya Violeta, Az Marias e TA Studios vo apresentar os filmes de moda que, mais do que roupas, devem reverenciar as origens afro-indgenas do pas.

O pulo do gato da iniciativa no se resume exposio das roupas nas prximas trs temporadas, mas tambm s mentorias que os estilistas recebem de advogados, psiclogos e estilistas do evento. Um deles Isaac Silva, que v como “uma evoluo natural e urgente” do calendrio da moda a insero de profissionais que, como ele, tiveram de batalhar por representatividade num mercado competitivo como o da costura.

“Saber que tem algum por voc, que voc pode ligar para tirar dvidas, muito importante para quem est comeando”, afirma o estilista.

Essa edio, alis, representa para Silva a consolidao de sua trajetria na moda. Primeiro estilista brasileiro convidado a criar uma coleo para a marca de chinelos Havaianas, ele encerrar o penltimo dia de apresentaes mostrando roupas que so extenses dos pares criados nessa parceria indita, que unem tanto as razes indgenas da moda nacional quanto as de origem africana.

Ele criou suas prprias estampas grficas, em parceria com a designer Neon Cunha, para fundar o que chama de “grafismos brasileiros”, que tem como ideia fundir o padro de repeties das capulanas, lenos de algodo usados na cabea, e elementos essencialmente nacionais, como a semente olho de boi.

As roupas tm modelagem descolada do corpo para se adaptar a diferentes silhuetas e dar mobilidade a quem veste, “porque, nesse momento de mundo, ningum quer mais se preocupar em se adaptar prpria roupa”, diz o designer, que deu o nome de Ax Boca da Mata srie com mais de 20 looks.

O filme ambientado em cenrio de mata fechada, um lugar que, Silva explica, sagrado tanto para os indgenas quanto para os povos da frica, ou seja, “para ns, brasileiros”.

Foi pensando no Brasil e em como o estilo nacional absorveu padres internacionais da costura que Weider Silveiro levar sua apresentao referncias s silhuetas helnicas. Em vez do ideal branco, loiro e europeu, as modelos no brancas vestem pedaos de alfaiataria desconstruda, camisaria vitoriana e plissados que remetem ao olhar eurocntrico, aqui, revisto pelo olhar de um deste que visto como um dos maiores designers afro-brasileiros do pas.

O esprito ativista que diversas vezes permeou o trabalho de Silveiro, segundo ele, agora est por trs das roupas, “no processo”. Os profissionais que o ajudaram na execuo so marginalizados pela indstria, como pessoas trans, negros e da periferia. “So elas que me inspiram, do incio finalizao do trabalho. um design que no parece afro-brasileiro, mas “, afirma.

uma coleo essencialmente urbana, chamada Citt, ou cidade, em italiano, que mostra silhuetas simples, a exemplo de saias longas e justas fceis de usar, bem ao estilo dos anos 1990. ” tudo pensado no produto final, porque o meu momento como estilista, de tornar a roupa feminina digervel e contempornea. Um menino, que queira, tambm poder usar.”

Esse tipo de abertura roupa no binria est expressa tambm no rompante de diversidade que a So Paulo Fashion Week assumir. Sustentabilidade, empreendedorismo feminino e insero social faro parte de toda a programao, que incluir palestras pagas e aes pensadas em conjunto com pensadores que devem se desdobrar em instalaes artsticas marcadas para ocorrer em novembro.

O estilista Luiz Cludio, da marca Apartamento 03, por exemplo, far um encontro com a escritora e colunista deste jornal, Djamila Ribeiro, e o diretor criativo da Osklen, Oskar Metsavaht, com o neurocientista Sidarta Ribeiro. Sero quatro encontros criativos, idealizados em parceria com o organizador Marcello Dantas.

“Todas as bases do que estamos vivendo hoje esto em renegociao. Queremos falar sobre raa, identidade, gnero, ou seja, tudo o que nos afeta, e levar isso para a moda, que sintetiza as mudanas de comportamento.
Queremos causar essa frico de pensamentos”, afirma Dantas.

A grande diferena em relao ao passado do evento que a programao se estender ao longo dos meses e culmina em novembro, com o resultado prtico dessas discusses, dando corpo ao que a organizao chama de Festival SPFW+. Aes presenciais no esto descartadas, a depender da evoluo da pandemia da Covid-19 no pas.

” a primeira edio dos novos 25 anos da So Paulo Fashion Week. Queremos criar um sistema de conversas contnuas, de conectar as semanas do primeiro e segundo semestre para criar pontes. No uma verso s para agora”, afirma o idealizador da SPFW, Paulo Borges. ” um momento de regenerar.”

Pedro Diniz – Folhapress