Sergio Pererê lança seu terceiro álbum em 2020

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O sereno “Canções de Bolso” terá show de lançamento neste sábado, com transmissão pelo YouTube

Desde o princípio, Sérgio Pererê sabia que, para o novo disco que tinha em mente, gostaria de ter, a seu lado, a presença do produtor, arranjador e músico Rogério Delayon. Um outro viés que já de pronto tratou de seguir foi o de deixar que o novo feixe de canções o conduzisse para um lugar que ele chama de “sereno”, “com letras falando de coisas despretensiosas”. “Músicas que soassem no meu coração – e no das pessoas também”, explica. Parte desse processo composicional – que ele chama de “exercício” -,  Pererê começou a praticar ano passado, com toda a calma coerente ao espírito do projeto. E quando se deu conta, já havia nada menos que 30 faixas compostas.  “Mas, no meio do caminho, fui percebendo que várias dessas composições conversavam entre si, e, claro, um disco não é só um conjunto de canções agrupadas, precisa existir ali um diálogo (entre as faixas). E tinha, de assuntos e sonoridades”. De um crivo, nasceu, pois, o álbum “Canções de Bolso”,  que ele apresenta a seu público neste sábado, em uma live no YouTube. Atendendo ao desejo de Pererêna fase embrionária, Delayon responde por arranjos e direção artística. 

 

“No processo, usei muitos instrumentos africanos, somados à sonoridade das cordas, que são a especialidade do Delayon. No curso de toda essa história, veio a ideia de chamar o disco de ‘Canções de Bolso”, por ser inspirado nas coisas que, ao mesmo tempo em que são simples, são também impactantes”, diz ele, que pensou cada faixa como uma espécie de carta. “O nome das músicas parte disso, fiquei imaginado que, para cada pessoa que escutasse uma canção, essa tivesse o aspecto de uma carta, tratando de temas como perdão, fé, memórias, heranças ancestrais. Bem, isso foi uma viagem interna minha mesmo, mas a ideia geral era que fosse um disco carinhoso, tanto para mim, que queria vivenciar isso, quanto para os outros, pois a ideia sempre foi partilhar (esse sentimento)”. 

 

Uma das faixas sobre a qual ele se detém é “Oração do Perdão”. “Para mim, uma faixa muito importante, pois tem esse caráter de ser ao mesmo tempo muito pessoal e com potencial de chegar às pessoas, para um lugar de diálogo. Até por isso, quis abrir o disco com ela. A segunda faixa, ‘Refazendo a Costura’, também é das mais importantes para mim”, avisa. Nesta, em particular, Pererê volta a uma tradição seguida por compositores de gerações anteriores à dele: a de fazer uma música e, daí a um tempo, outra como  resposta à primeira”. “Meio um desafio. Quis fzer isso como uma forma de revernciar essa corrente da música brasileira”.

 

No caso, “Refazendo a Costura” dialoga com “Costura da Vida”, composta anos atrás. “Talvez essa música seja uma das mais importantes da minha carreira. Elame dá muito alegria, nos shows, as pessoas cantam junto. Aliás, até em outros países, como Moçambique, Angola e Portugal. Curioso é que as pessoas gostam muito dela, mas, no fundo, a letra fala de frustrações. O refrão, na verdade, é uma pergunta (‘E como é que eu vou fazer para desenrolar, para desenrolar’), que não é respondida. Tem um caráter afetivo pela coisa rítmica, mas revela uma frustração. E aí, tanto tempo depois, eu faço essa outra música, que começa igualzinho, dizendo ‘eu tentei, já tentei demais, tentei/hoje crio, invento e faço/meu caminho, minha lei’. É uma retomada da música anterior, mas eu tendo passado por várias situações, compreendido algumas questões, descontruído outras. Aqui, o refrão já é um afirmação: ‘Desenrolei o novelo que a vida me deu, e hoje quem faz a trama sou eu’. Volto à trama da costura, da vida, mas falando da organização do próprio destino”,elucida.

 

Pererê diz que inclusive já tem tido tido muitos (e bons) feedbacks da música.”Mais uma vez, é uma composição de cunho pessoal, um mantra que eu mesmo quero entoar o tempo todo para conseguir ocupar o lugar de gestor do meu próprio caminho. Acredito muito nisso, mesmo porque,  a  palavra é muito poderosa, ela tem a força de mover”, afiança.

 

No geral, Pererê diz que todo o processo de gravação foi “muito bonito”. “Gastava muito tempo dialogando para descobrir as texturas das músicas, e a gente (ele e Delayon) ia conversando, trocando ideias, discutindo. Algumas coisas eu chegava no estúdio e gravava semi ao vivo e já ficava valendo, porque, na verdade, são músicas simples, que não me exigem demais como cantor. São orgânicas. E também porque já estavam muito familiares para mim”. Na apresentação, no YouTube, ele diz que, junto a Delayon, vai tentar mostrar alguns instrumentos que estiveram presentes no estúdio. “E vai ser uma ocasião de falar um pouco do sentimento que permeou a construção do trabalho. Um convite para que as pessoas se apropriem de cada canção dele. Um momento afetivo tanto para público quanto para nós, uma celebração e um brinde feito junto às pessoas que estão recebendo as músicas”, detalha. 

 

No quesito participações, Pererê comemora o fato de ter podido contar com muita gente de seu apreço, Caso de Daniel Guedes, percussionista que trabalha com ele já há muitos anos. Ou de Mayí, com quem divide a faixa “Meu Jardim”, que, aliás, ganhou clipe. “Ela, conheço desde a infância, chegou a ser minha aluna no Tambolelê. A vi se tornando artista, e hoje integra o grupo Fenda, de um trabalho muito potente. No clipe, é ela a grande estrela, eu nem apareço, na verdade”. O disco conta, ainda, com a presença de Play. “Ele é um cantor maravilhoso, faz uma faixa comigo, ‘Why’, que também é uma faixa importante no contexto do trabalho. Bem, a verdade é que tenho um carinho por cada uma das faixas. Mas essa participação do Play trouxe um brilho à música. Admiro-o muito, há muitos anos. Enfim, as participações são muito afetivas”.

 

Outro aspecto ressaltado pelo artista tem a ver com uma característica que pauta muito de seus trabalhos. “Quem conhece o Pererê pelo viés afro, não vai encontrar muito isso aqui, não. Mas, por outro lado, de certa forma também é um recado. Porque quando a gente pensa em africanidade, geralmente vem à mente a sonoridade dos tambores. Mas tem tanta coisa além disso… E a gente não se dá conta! Nesse disco, gravei muitos instrumentos africanos que não são de percussão”. Outro ponto a frisar é que, na faixa que encerra o trabalho, ‘Na Tamboli’, a letra foi composta em lingala, uma língua presente no Congo. “Quis mostrar que o canto africano não necessariamente está ligados a ritos. A letra fala da procura e do encontro”.

 

Por último, mas não menos importante. Pererê lembra que o disco tem um espírito muito mineiro. “Inclusive, não quis esconder o mineirês no meu canto. Qualquer pessoa que for escutar vai perceber que se trata de um mineiro cantando. Percebi que o Brasil absorve sotaques de várias regiões, como quando há um carioca cantando com o seu sotaque. Mas nós, mineiros, quando a gente canta, tenta consertar (o acento), ao menos quando não há a pretensão de ser regional. Porém, achei importante manter, aqui. Afinal, o nosso sotaque é gostoso, tem toda uma musicalidade nele”, frisa.

 

Ouça “Canções de Bolso”: