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Será o áudio a nova fronteira da comunicação de moda? – Revista Marie Claire

Será o áudio a nova fronteira da comunicação de moda? (Foto: Colagem: Mari Simonetti)

Para uma jornalista criada no impresso como eu, falar no rádio é bem mais fácil do que falar para uma câmera. Não preciso me preocupar com os gestos, a postura, a cara, a maquiagem, o cabelo, nada! Livre dessa carga mental, as ideias fluem melhor – o que é irônico, já que a moda está intimamente ligada à imagem e eu trabalho com isso há muitos anos.

Acontece que, para o bem e para o mal, moda também diz respeito a ideias. Ela está totalmente vulnerável ao contexto social e envolve centenas de questões da contemporaneidade, movimentando uma indústria plural e gigantesca que emprega só no Brasil 1,5 milhão de pessoas diretamente e 8 milhões indiretamente, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria Têxtil.

Isso posto, outro dia participei de um debate no Clubhouse, essa nova rede social que recebeu uma injeção de US$ 12 milhões em maio de 2020 e, desde então, vem sendo apontada como a nova sensação do Vale do Silício. Confesso que esse aplicativo despertou sentimentos contraditórios – por um lado, senti uma enorme preguiça de me inteirar sobre mais uma mídia social, por outro, fiquei louca para ser convidada a participar e entender o que estava rolando. O aplicativo ainda está em fase beta e você só acessa se for convidado por algum contato seu que já esteja por lá. Então, é aquela história do FOMO (fear of ­missing out), e essa aura de exclusividade mexe com a gente.

Enfim, descolei o convite e o aplicativo que me pareceu excitante, com dezenas de arenas de debates rolando caoticamente em salas que reúnem 100, 200, 500, mil pessoas (as salas comportam até 5 mil ouvintes simultaneamente). Você chega e é recebido com uma página inicial bem simples, que lista as discussões que estão acontecendo naquele momento e também alguns chats agendados entre as pessoas que fazem parte de seu catálogo de endereços. Fiquei instantaneamente tocada porque enxerguei essa dinâmica como uma oportunidade de aprofundamento em assuntos que me interessam. Isso acho maravilhoso!

Parei para ouvir uma conversa organizada pelo editor de moda Franco Pellegrino com Carla Raimondi e as influenciadoras Consuelo Blocker e Pamela Ferrari. A jornalista Lilian Pacce estava ali também e fomos convidadas, eu e ela, a participar do debate. Aceitamos e em um clique saímos da plateia e fomos parar no “palco”. De repente, entra na sala a consultora Costanza Pascolato, com quem tenho tido o prazer de dialogar sobre questões da moda e da vida graças a outro trabalho que fazemos juntas, e a conversa rendeu bastante. Costanza tomou a palavra e deu show!

Falou-se de tudo ali. O debate inicial era sobre a influência na moda e a conversa seguiu para o posicionamento das marcas de luxo nesse cenário. Então, caímos no espetacular lançamento da nova marca de Alber Elbaz, a AZ Factory. Destaquei que o estado de espírito do vídeo de lançamento foi alegre e contagiante por apresentar um elenco multirracial, com mulheres de todas as idades e diferentes tipos de corpo, em roupas com numeração que vai do PPP ao GGG. Carla Raimondi ponderou que a moda de Alber Elbaz é funcional e divertida, misturando legging, tênis e vestidos com modelagens arquitetônicas, cores positivas e tecidos high-tech.

Costanza ressaltou que roupa é uma questão de forma e proporção, e o fato de Alber Elbaz ter trabalhado na Yves Saint Laurent quando jovem e de vir desenvolvendo coleções de alta-costura desde então fez toda a diferença em sua expertise porque tirou sua visão do campo industrial do prêt-à-porter, abrindo possibilidades mais refinadas de modelagens.

Por fim, Lilian lembrou que o estilista é uma figura adorável, que há cinco anos saiu meio brigado da Lanvin (depois de ter ficado 14 anos à frente da marca) e que todos na indústria ansiavam por sua volta. Finalizou falando sobre o formato do lançamento em um vídeo narrado por ele com direito a momentos de emoção e mensagens de colegas como Marc Jacobs, Pierpaolo Piccioli, Anna Wintour e Gabriela Hearst. “Não parecia um desfile, parecia um show do Netflix.”

A conversa enveredou para a saída da Bottega Veneta das mídias sociais, um movimento altamente intrigante para esse mercado que vem explorando a comunicação em massa por meio do Instagram. Na bolsa de especulações, falou-se de dezenas de motivos para essa atitude quase anárquica da Bottega. A teoria mais aceita é a de que a marca de bolsas muito chiques e caras – que viraram hit nas últimas temporadas e vêm sendo copiadas aos montes – deseja manter sua imagem de exclusividade. Costanza complementou contando que estudos feitos pelas grifes de luxo detectaram que o número de likes de um produto não significa melhores vendas. Ou seja, comercialmente, para peças ultrassofisticadas, com o preço nas alturas, a exposição nas redes não turbina o faturamento. Disso eu não sabia.

No mesmo dia, o CEO do grupo Kering, François-Henri Pinault, falou pela primeira vez sobre o assunto ao portal WWD. Segundo ele, a nova estratégia não é desaparecer das redes sociais, mas sim usá-las de forma diferente. A Bottega agora está investindo no discurso vindo de influencers e fãs, em vez de ficar falando sobre ela mesma.

E, por falar em conversa, esse nosso papo durou nada menos do que três horas. Eu, que já tinha sido fisgada pelos podcasts, acho que me rendi. Em podcasts, temos a volta da novela de rádio, da notícia quentinha analisada com espontaneidade em entrevistas e conversas que posteriormente podem ser editadas, eliminando falas pouco articuladas ou bobas e deixando só o que interessa, fazendo com que o locutor pareça mais pertinente e inteligente. No Clubhouse, a arena de debates flui ao vivo, no calor da emoção, e não pode ser gravada.

Será que essa é uma segunda onda das redes sociais, uma espécie de redenção? Agora, finalmente, além de se exibir e de inventar personas partindo de fotos calculadamente postadas no Instagram, a gente vai poder ouvir as vozes da moda? Tomara que sim!