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Segundo disco da multi-instrumentista Letícia Coelho chega às plataformas digitais – Almanaque

A multi-instrumentista, cantora, compositora, pesquisadora e professora Letícia Coelho lança nesta quinta-feira (11) seu segundo disco, “No Passo da Rabeca”. O “disco-trajetória”, como é definido pela própria artista, traz 14 faixas que evidenciam as múltiplas possibilidades da rabeca na música contemporânea, reverenciando suas raízes ancestrais da cultura afro-ameríndia. 

“No Passo da Rabeca” parte de uma pesquisa realizada pela Leticia Coelho junto ao seu aprendizado sobre o instrumento. As influências adquiridas nesse processo são provenientes de mestres, mestras e artistas com quem a artista cruzou em suas andanças Brasil afora. “Gravar um disco de rabeca era algo que eu devia ao mundo. Tive a sorte e o privilégio de aprender esse instrumento e ter em meu caminho encontros incríveis que ampliaram o conceito acerca da música brasileira. Gosto de chamar de Cavalo Marinho a música que se toca sentada num banco, e no terreiro de Candomblé com música brasileira. Já passou da hora de assumirmos nosso fundamento e reconhecermos essa sonoridade como uma música atual, moderna e revolucionária”, afirma a artista.

Para ela, o rótulo de “tradição”, de “cultura popular”, reduz o conhecimento e os saberes. “Como diz Lélia Gonzales, [o rótulo] coloca essa música chamada de popular como menor em relação a outra cultura, que é a vigente”, completa.

Letícia afirma ainda que o disco dá à rabeca o mérito que ela merece em sua trajetória artística, evocando a herança dos festejos populares, do baião, das congadas, cocos, cheganças e giras de Candomblé. “A rabeca me levou e eu a levei para esses mundos que estão aí, acontecendo, mas não são visibilizados. Junto a ela, no disco, estão os tambores, os cantos e as vocalidades; estão trajetórias e teorias da música brasileira afro-ameríndia”.

Rabeca como persussão

“No Passo da Rabeca” soa para a multi-instrumentista como um convite para entrar numa caminhada sonora afrocentrada. “A rabeca também é usada como percussão, como contrabaixo, com notas pedais que lembram timbres de clarones. Já a voz, que geralmente é a protagonista nas canções, tem presença como um instrumento musical, melódico e de textura no disco junto aos sopros”, explica.

Para traçar essa narrativa, o álbum conta com participações que incluem rabequeiros da tradição popular, como Mestre Luiz Paixão, referência global na história do instrumento, e nomes da atualidade, como Luiz Fiammenghi. Os convidados incluem também artistas da voz – como Dandara Manoela, Luana Flores e Renna Coxta – e de outros dotes, como a performer Fabiana Vinagre, o percussionista Leonardo Oliveira e a multi-instrumentista Camila Menezes, que gravou viola caipira em “Chegada”.

Na “banda-base”, apenas Letícia (rabeca, vozes e percussões) e o multi-instrumentista cabo-verdiano Jeff Nefferkturu, que gravou violões, cavaquinho, clarinete, flauta e contrabaixo. “Com a presença de Jeff Nefferkturu, brincamos também com esse trânsito rítmico-poético diaspórico entre Brasil e África. O disco traz uma ‘alquimização’ de trajetos por meio da rabeca, como se a cada música um novo caminho fosse traçado, valorizando encontros, trajetórias e riqueza teórica e sonora”, reflete Letíca Coelho. 

Ela explica que “No Passo da Rabeca” apresenta diferenças em relação a seu antecessor, “Brota” (2018), principalmente ao trazer uma proposta bem crua e plural. “Esse disco tem mais ‘poeira’, tanto do trajeto que emerge no som quanto das sonoridades múltiplas, pois foi captado em diversos estúdios, home studios e gravadores. Também quis trazer uma parte percussiva minha que não entrou em ‘Brota’ com tanta evidência, por ser um disco mais pop. Mas acho que os dois álbuns propõem abertura de brechas sonoras. ‘Brota’ com seus arranjos que provocam, trazem a impermanência e a crítica às estruturas, e ‘No Passo da Rabeca’ nos chama a olhar para o fundamento”.

Música de terreiro

A herança da ancestralidade afro-ameríndia é vista na forte presença dos atabaques que evidenciam a influência percussiva da música de terreiro, como em “Baião de Oyá”, single de estreia, lançado no mês passado. “Acho que os tambores todos usados no disco guardam sua importância. Eles me formaram enquanto musicista e enquanto pessoa também, porque o aprendizado ali se dá por camadas de saberes que vão muito além do ritmo”, diz Letícia, ressaltando a importância de assumir e reverberar a ancestralidade religiosa de matriz africana.

A artista salienta que é preciso valorizar as características do Candomblé. “O que é nomeado existe. Precisamos dizer os nomes que tanto foram proibidos, nas línguas que foram tão proibidas, contar as histórias que não podiam ser contadas. Nossas mitologias tão ricas de seres que se transformam de serpente a arco-íris precisam ser contadas e cantadas. Deviam estar em todos os lugares: nos livros infantis, no cinema. Imagine um filme de super-herói com Oxóssi como protagonista? Com Iansã e seu poder de mover os ares?”. 

Por meio da rabeca, então, a artista costura a ancestralidade do culto aos orixás à inventividade da música brasileira atual, mostrando como o instrumento é aberto a perspectivas criativas. “Enquanto o violino te exige um corpo, uma postura, um cotovelo, a rabeca se encaixa onde o tocador e a tocadora decidem posicioná-la”, diz Letícia, que realizou live streamings com rabequeiros e rabequeiras, como ações de pré-lançamento do álbum, durante todo o mês de outubro.

“A única coisa que a rabeca diz é: ‘o que você quer de mim?’ Eu levei a sério essa pergunta e experimentei tocá-la em diversos lugares, com diversas pessoas, dos barcos da Amazônia a gravações de trilhas sonoras. ‘No Passo da Rabeca’ trouxe a possibilidade de me arriscar seguindo os encontros e as descobertas que acontecem na relação com esse instrumento tão generoso. Por meio da trajetória de seus fonogramas, é um álbum que se mostra mais que um produto musical fechado, mas uma rotatória de possíveis caminhos-pessoas”.

Fonte www.hojeemdia.com.br

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