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São Paulo Fashion Week explora lado humano e tátil das coleções de grife – 05/11/2020 – Ilustrada

Um dos pontos fortes deste calendário da 50ª São Paulo Fashion Week é a possibilidade de, por meio das apresentações em formato audiovisual, mostrar os processos de confecção que, numa passarela convencional, ficariam à sombra da casca de glamour.

Nomes como Alexandre Herchcovitch, A. Niemeyer e Gustavo Silvestre mostraram em imagens, nesta quinta-feira (5), as minúcias dos processos para chegar às peças ricamente trabalhadas em bordados, tecidos e tesoura afiada.

As estilistas Renata Alhadeff e Fernanda Niemeyer, da grife A. Niemeyer, optaram pela simplicidade em uma apresentação minimalista como é sua moda, dirigida pelo fotógrafo Hick Duarte, mas carregada do detalhismo que só a câmera pode registrar.

Há muito trabalho manual aplicado nos bustos compostos de cordas e nas construções das blusas com linhas diagonais aparentes, espécies de ondas que, unidas aos tons terrosos e ao branco alvejado, traduzem a sensação de calmaria proposta pela dupla.

Intitulada Origem, a coleção mistura peças antigas e novas para reformular o sentido de descartabilidade das roupas, uma máxima da produção em série da moda deste século.

As mãos que tecem também serviram de mote para o “documentário-desfile” de Laura Artigas e Danilo Sorrino que mostra o processo de confecção das roupas do Projeto Ponto Firme, do estilista Gustavo Silvestre.

Ele largou as passarelas para se dedicar ao ensino de crochê para presos da penitenciária Desembargador Adriano Marrey e, por meio da confecção de moda, deu ofício, redução de pena e um futuro para esses homens.

O resultado são roupas texturizadas, cuja matéria-prima não se resume apenas ao crochê, mas a tecidos leves, transparências e bordados que, unidos pelos pontos desenvolvidos com precisão, formam looks de festa característicos da moda de Silvestre.

A moda em si, essa de tendências, não é o ponto firmado por Silvestre, e tampouco por Alexandre Herchcovitch, que também apresentou um documentário nesta São Paulo Fashion Week.

No caso do estilista paulistano, a história era ele mesmo, que completa 50 anos em 2021 e, como se quisesse unir forças às comemorações destes 25 anos de SPFW, antecipou a festança.

Por meio do vídeo com fotos e trechos de desfiles, Herchcovitch explica à audiência parte de seu vasto legado imagético. Apesar de ser uma das cabeças do movimento clubber dos anos 1990 na moda, usou a oportunidade para resgatar traços escondidos de sua moda.

Ele, que nunca gostou de explicar suas ideias para deixar que as pessoas lhe julgassem, apontou no filme de Marilyn Monroe a Boy George, alguns dos ícones pop que lhes serviram de inspiração.

A parte de fora que reproduz a parte de dentro das peças, a discussão sobre gêneros surgida em seu trabalho antes mesmo de ela ter ganhado a indústria de massa e as próprias lembranças de quando sua mãe o ajudava a costurar passaram rápido demais pela tela para ilustrar décadas de moda.

Outro veterano das temporadas, Amir Slama também decidiu mostrar de perto o porquê de ser um dos maiores nomes da moda praia nacional. O desfile de sungas, saídas de banho, bermudas e maiôs foi filmado à beira da piscina, num cenário que representa sua história no “beachwear” paulistano.

Enquanto o Rio sempre teve a praia, São Paulo tem a piscina como motor de suas roupas menores, e Slama, nessa espécie de rixa fashion iniciada nos 1980, teve papel decisivo quando fundou a Rosa Chá nos 1990.

Agora ele se volta à essência de suas roupas, limpando a imagem carregada de adereços das temporadas anteriores, para mostrar a boa forma em uma execução de moda simples e eficiente.

Assim como na gastronomia se reconhece um chef pela capacidade de ele fazer básicos perfeitos, na costura também se nivela um designer pela sua destreza em conseguir agradar sem ruídos.

Seja pelas peças bem estampadas, que aqui levam sóis e cores do crepúsculo, seja pelas proporções minúsculas ou estrategicamente cortadas para delinear os corpos na medida, a marca homônima de Slama se mostra atenta para qualquer um.

Neste segundo dia de aperitivos, ainda curtos para dimensionar os temas que levantou, a SPFW expôs o lado humano, tátil e perfeccionista de quem está por trás dela.