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Rua das noivas exibe nas vitrines nossos tempos sem desbunde durante a pandemia – 29/07/2021 – Passeios

É fascinante andar pela rua São Caetano, no centro de São Paulo. Entra-se nela pela Luz, em quadras recheadas de vestidos de noiva, avança-se por lojas cheias de máquinas de costura e abarrotadas de manequins, e tudo termina no barulho do Brás, em atacados de roupa íntima, jeans e malas e sacolas.

Embora tenha pouco mais de um quilômetro e pelo menos esses três diferentes centros de vendas, a rua se consagrou por seus primeiros 350 metros, onde se concentram um sem-fim de vitrines e portas com roupas, sapatos e acessórios para casamentos. Apenas na primeira quadra, são 24 lojas só de vestidos.

O lugar vive de festa, e festa é o que menos se tem feito nestes tempos de pandemia. Mas também de esperança, já que casamentos geralmente são programados com meses de antecedência. Ao contrário do que é observado em outros locais, porém, por ali não há placas de vende-se ou aluga-se e portões fechados.

Ainda que pouco movimentada, a rua está de portas abertas e não são raros os anúncios em busca de costureiras. Paisagem diferente se vê na avenida Rebouças, endereço nobre que tinha oferta de trajes de festas. Por ali, há lojas fechadas e ar de devastação.

O modelista Wagner Camargo, que trabalha na região há 33 anos, conta que as vendas vinham bem em fevereiro do ano passado, mas que, com as notícias do vírus em março e a ordem para o fechamento do comércio, o pânico foi geral.

O problema, diz ele, é que depois do primeiro fechamento, as noivas não apareceram mais —e a segunda ordem de baixar as portas, já em 2021, foi um baque muito grande para os comerciantes.

​Mara Almeida, que trabalha ali há 15 anos e atende numa loja de vestidos de noivas, madrinhas e debutantes, diz que chegou a ficar um mês sem abrir o caixa, ou seja, sem nenhuma venda. Para Esperança Ventura, há 45 anos na São Caetano e que vende acessórios como coroas, buquês e porta-alianças, a pandemia foi o pior momento da história do negócio de casamentos.

Só agora, neste mês de julho, é que o movimento de clientes vem melhorando na região, sobretudo com noivos que celebrarão bodas no ano que vem, apontam os lojistas.

Na calçada aguardando os clientes, Camargo diz que reformulou a vitrine, deixando em evidência modelos de vestidos mais simples e mais baratos, voltados para celebrações pequenas e casamentos em cartório. “As noivas estão gastando menos”, conta.

Pode-se alugar uma peça desenhada por ele por R$ 850 ou então comprá-la por R$ 1.500. Um vestido mais elaborado, com renda importada, pode custar R$ 7.500 a locação.

As vitrines da São Caetano dizem que vivemos tempos sem desbunde, de pés, quase descalços, no chão. Há placas de promoção por todo lado e anúncios de vestidos por R$ 500 a cada esquina. E, para nos despertar de fantasias, multiplicam-se expositores com máscaras faciais que combinam com as roupas das festas mais acanhadas.

O engenheiro civil Ricardo Henrique Clemente viu no cenário, porém, a oportunidade para celebrar uma união de 25 anos. Enquanto esperava a noiva experimentar vestidos, ele contou que sempre acharam que fazer festa de casamento era um gasto muito alto, mas que os descontos agora estão atrativos.

Eles vão se casar no fim de outubro, em um bufê contratado no começo de julho, com área ao ar livre. De tempos em tempos, o casal fazia cotações para saber quanto custaria a celebração e, por isso, Clemente consegue dizer que, agora, está economizando 40% frente a uma festa semelhante antes da pandemia.

Mas o reagendamento da celebração para o fim de 2022 e a indefinição ainda são as soluções mais comuns encontradas por pombinhos, segundo Nilton Santos, que aluga e vende trajes masculinos. Ele conta que tem clientes de antes da pandemia com a celebração em suspenso até hoje.

A designer de interiores Jacqueline Ribeiro não esmorece. Estava na São Caetano para a segunda prova do vestido.

Ela se casa em agosto, numa festa que está sendo planejada desde outubro de 2020.