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Roupas que brilharam no palco do Municipal vão sair do armário em desfiles

Roupas que brilharam

John Falstaff é um velho cavaleiro inglês, gordo e beberrão, mas com pouco dinheiro para sustentar sua enorme gula. Personagem central da ópera cômica “Falstaff”, de Giuseppe Verdi, ele se veste de forma extravagante – na montagem brasileira, encenada no Theatro Municipal de São Paulo há seis anos, usava um pesado casaco de mangas longas feito de peles, pelúcia e couro em tons de cinza e marrom.
Desenhado pelo premiado figurinista Fábio Namatame, depois das oito récitas apresentadas no palco paulistano o traje foi parar num depósito no Canindé, bairro da região central de São Paulo onde fica o acervo de figurinos das óperas do Municipal. E de lá nunca mais saiu, assim como milhares de outras peças de vestuário de espetáculos líricos.
O figurino agora pode ser visto pela primeira vez fora do palco num um desfile-performance que ocorre em carne e osso no Centro Cultural São Paulo, o CCSP, nos dois dias deste fim de semana, parte da Virada Cultural virtual, com transmissão ao vivo pelas redes sociais da instituição. Cerca de 50 modelos vão desfilar 90 looks pinçados do acervo de 18 mil peças de vestuário de óperas e de balés encenados no Municipal.
A ideia da performance “Do Palco Às Ruas” é mostrar ao público uma parte desse patrimônio da moda brasileira visto pouquíssimas vezes, afirma Erika Palomino, diretora do CCSP. É “olhar de forma contemporânea para os acervos, mostrando [os trajes de cena] com pegada de moda e do que está acontecendo hoje, com o recorte político de corpos negros, indígenas e trans para ver e vestir esses figurinos”, ela diz. Entre os modelos, há também uma imigrante de Angola.
O desfile será em formato aberto, ou seja, não haverá passarela e os camarins de maquiagem e de troca de roupa, instalados no centro do CCSP, poderão ser vistos pelo público. Os modelos vão passear por toda a área da instituição.
Uma das principais responsáveis pelo que será visto é a antropóloga Vivi Junqueira, que ajudou a catalogar centenas de peças do acervo do Municipal, dando continuidade a um trabalho começado em 2006 pelos professores Fausto Viana e Elizabeth Azevedo, da Universidade de São Paulo. A partir de sua pesquisa, Junqueira elaborou um catálogo digital – que será distribuído ao público – com a história dessas roupas e descrições das condições em que se encontram hoje.
A seleção das peças têm a ver com o valor histórico dos espetáculos, ela diz. Uma calça de juta e tecido rústico desenvolvida para “Z: Uma festa para Zumbi”, encenado em 1995, é importante porque o espetáculo fez circular o nome do Balé da Cidade de São Paulo entre plateias da Europa e tornou a companhia mais conhecida fora do Brasil.
Tudo o que será desfilado foi confeccionado nos últimos 20 anos, compondo um panorama do figurino e da costura brasileira contemporânea, com nomes como Fernando Anhê, João Pimenta, Geraldo Lima Júnior, Colomba Leddi e Gabrielle Frauendorf.
Por motivo de conservação, peças feitas antes do ano 2000 não podem ser vestidas, mas uma seleção delas será mostrada numa exposição marcada para o ano que vem, também no CCSP. Os itens mais antigos do acervo datam de 1948, seguidos pelas roupas do Balé do Quarto Centenário, encenado em 1954, um dos marcos da arte coreográfica do país.
Nos 15 meses que se dedicou ao projeto, Junqueira relata ter enfrentado dificuldades burocráticas para acessar os acervos – além do galpão no Canindé, onde ficam os figurinos de óperas, o nono andar do prédio da Praça das Artes armazena as roupas dos balés. Os obstáculos foram causados, segundo ela, pela crise decorrente do processo de desligamento do Instituto Odeon da administração do Theatro Municipal, que se arrasou ao longo deste ano até ser concluído em outubro. Procurado, o Odeon não quis comentar.
“Essa talvez para mim é a maior questão”, diz Junqueira, sobre os entraves. Ela lembra que o acervo público fica sob a guarda de uma estrutura também pública e que tanto o Municipal quanto o CCSP respondem à Secretaria Municipal de Cultura, o que deixa mais restrito o acesso às peças.
Havia ainda o receio de que Bruno Covas não ganhasse a eleição municipal e de que o projeto deixasse de ser prioridade para a gestão seguinte, ela acrescenta.
Segundo Junqueira, a grande motivação em tirar as roupas das araras, limpar e mostrar as peças num espaço público é dar aos jovens a possibilidade de sonhar com a moda como uma carreira, ela conta. Essas peças “só foram vistas no Municipal, mas quem consegue ter R$ 200 para pagar uma ópera? Não é para todo mundo. Por mais que tenha melhorado o acesso, ele ainda é pequeno.”
O acervo de figurinos de produções líricas e de dança do Theatro Municipal de São Paulo conta com 18 mil peças de vestuário, formando cerca de 5.000 trajes completos.
Como é o acervo O acervo de figurinos de produções líricas e de dança do Theatro Municipal de São Paulo conta com 18 mil peças de vestuário, formando cerca de 5.000 trajes completos Algumas das peças mais antigas foram usadas na encenação do Balé do Quarto Centenário, montado em 1954, um marco nas artes cenográficas do país; a roupa mais antiga é de 1948 Alguns dos trajes do acervo foram desenhados por artistas plásticos, como Di Cavalcanti e Lasar Segall, e pelo paisagista Burle Marx Há peças de estilistas e figurinistas importantes no acervo, como Heitor dos Prazeres, Tomas Santa Rosa, Dener Pamplona de Abreu, Rosa Magalhães e Helio Eichbauer Um dos vestidos selecionados para a exposição no CCSP foi usado por Áurea Ferreira, a primeira bailarina negra do Balé da Cidade de São Paulo, no espetáculo ‘Deserto dos Anjos’