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Risco de faltar algodão para vacinar contra Covid-19 é baixo, mas preço preocupa – Revista Globo Rural

(Foto: Globo Rural)

Cada dia mais próxima, a aprovação de uma vacina contra a Covid-19 no Brasil tem sido motivo de uma ansiedade e expectativa. Sem um plano de vacinação efetivamente definido, contudo, profissionais de saúde têm alertado para o risco da falta de insumos médicos para a imunização nacional, como seringas, refrigeração e algodão.

Considerado o quarto maior produtor mundial da commodity, o Brasil deve colher 2,7 milhões de toneladas de algodão em pluma em 2021, volume 9% menor que o registrado neste ano, segundo previsão da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

A menor produção, contudo, não deve causar problemas no fornecimento de insumos médicos, obtidos a partir de um subproduto da indústria têxtil, o strip de penteadeira, segundo o presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), Fernando Pimentel.

“Não tem a menor perspectiva de faltar algodão hidrófilo em uma campanha de vacinação maciça do Brasil. Como a matéria-prima para a produção do algodão hidrófilo é um subproduto e as fábricas estão rodando a plena capacidade, não vai faltar”, assegura o representante da indústria ao lembrar do período mais crítico da pandemia, quando o setor chegou a ficar mais de três meses parado.

“No início da retomada, o algodão estava muito demandado porque o strip de penteadeira esta sendo usado para a própria produção têxtil. Agora isso mais ou menos equilibrou, o subproduto voltou a encontrar sua normalidade no mercado e, inclusive, caiu de preço, porque chegou a custar o preço do algodão em pluma”, conta Pimentel. 

Ele estima que cerca de 15% do algodão processado pela indústria têxtil se torne matéria-prima para o algodão hidrófilo e outros insumos médicos, com uma produção de 2,5 mil toneladas mensais voltadas basicamente ao mercado interno.

Do lado dos profissionais de saúde, a maior preocupação é com uma possível repetição do que ocorreu nos primeiros meses da pandemia, quando equipamentos de proteção individual (EPIs) desapareceram do mercado.

“Aparentemente não teremos problemas relacionados a algodão, gase e outros materiais que usam algodão como base, mas não há como garantir isso. Se faltar lá fora ou se houver uma corrida para aquisição desses materiais fora do país, a gente corre o risco de ter os nossos produtos utilizados por países que iniciaram a vacina antes da gente”, teme Viviane Camargo, coordenadora da Câmara Técnica de Atenção à Saúde do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen).

Segundo ela, é fundamental que o país tenha um plano de vacinação para que as redes pública e privada possam organizar o planejamento de compra e estoque de insumos. “Nosso problema hoje é não saber o quanto vai ser necessário, o quanto se tem atualmente em estoque, qual é a vacina – e tudo isso interfere no planejamento”, destaca Vanessa. 

O presidente da Abit concorda. No primeiro semestre, o setor intensificou a produção de máscaras e outros equipamentos de proteção confeccionados em algodão para fazer frente à escassez no mercado, fazendo do Brasil um exportador desses produtos em cerca de três meses.

“Vamos ver como é que as estruturas públicas e privadas vão organizar seu planejamento. Deveriam já estar fazendo suas análises de tudo que vão precisar para um programa de vacinação em massa e já começar a fazer a programação de encomendas e entregas”, alerta Pimentel, ao destacar que o algodão é uma commodity que varia conforme os preços internacionais.

“Se tiver amanhã cinco pacotes de algodão no mercado e alguém querendo comprar 20, pode ser que suba o preço para consumidor final. Mas hoje não tem essa expectativa”, avalia o empresário.

De acordo com o gerente de consultoria agro do Itaú BBA, Guilherme Bellotti, as perspectivas para 2021 são de sustentação dos preços do algodão em pluma na bolsa de Nova York em meio a um aumento da demanda mundial de cerca de 13% e déficit na oferta.

“Apesar de tudo, não há grande preocupação do ponto de vista de disponibilidade. O risco fica mais sob a ótica de produção, caso tenhamos problemas de qualidade da pluma, seja  com a safra dos EUA afetada por tempestades ou com a produção aqui no Brasil. Mas estamos diante de um mercado razoavelmente equilibrado”, explica Bellotti.