Reminiscncias – Jornal Fato

  • por

Falando da minha infncia e do fato de s usufruirmos de energia eltrica quando viemos para a cidade, meu neto questionou: – Como os alimentos eram conservados? Os alimentos no eram conservados, simplesmente nossa me ia na horta e voltava trazendo o que seria preparado na refeio. Fora da casa havia um depsito que era chamado de tulha, onde ficavam guardados os sacos dos mantimentos produzidos na roa, feijo, milho, mandioca, batata, e muitos cachos de bananas pendurados. No stio se plantava e colhia caf, para consumo e venda, feijo que era trocado por arroz; havia muita criao, galinhas, patos, perus e ovos. Tambm se produzia mel e farinhas de mandioca e araruta. O trigo no sei como chegava em nossa casa, talvez fosse comprado nas vendas, que ofereciam seus produtos dentro de sacos e eram acondicionados em embornais.  O dinheiro que entrava era escasso e resultado do leite que era enviado ao laticnio.

Minha me produzia queijos, torrava e moa o caf, fazia o macarro e a broa; po era produto raro, passava um padeiro quinzenalmente, e eu ganhava uns pes doces em forma de bichinhos, que por pena de comer escondia na gaveta de roupas e os encontrava rodos. A polenta substitua o po e era consumida em todas as refeies, alis cozida todos os dias e durante horas no fogo lenha. Nossa casa ficava longe do povoado e o isolamento era total, quando chegava algum vendedor de tecidos, padeiro ou livreiro, era motivo de algazarra. As roupas eram costuradas por minha me, nem sei como ela tinha tempo para tantos afazeres, j que no havia nem gua encanada, esta vinha de uma cacimba longe da casa. A carne mais consumida era de porco, estes criados no stio e alimentados com bananas verdes e inhame cozidos num tacho enorme, e eu, s vezes, partilhava da comida deles.  A carne do porco era frita e guardada em latas e dentro da prpria banha e com ela se faziam as frituras. Produzia-se tambem linguias, chourios e codiguins no dia da matana. Carne de boi s quando alguma vaca descuidada caa num mata-burro e tinha que ser sacrificada.

Como no havia eletricidade, as notcias chegavam atravs do rdio pilha e tnhamos uma radiola tocada por manivela. noite acendia-se lamparinas e lampies, cujo combustvel era o querosene com cheiro fortssimo. E quem se atrevia a ler ou fazer algum bordado ou costura amanhecia sempre com os clios e franjas chamuscados. Na verdade, tenho saudade do stio dos meus pais, deles, das rvores frutferas que eram inmeras, mas sem saudosismo.

 

Marilene De Batista Depes