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Quem é Greca, o único eleito três vezes para a prefeitura de Curitiba

Reeleito para mais um mandato na prefeitura de Curitiba neste domingo (15), Rafael Valdomiro Greca de Macedo, o Rafael Greca, 64 anos, alcança algo inédito: é o único a se eleger três vezes para o Executivo da capital paranaense. O arquiteto Jaime Lerner, que também tem três gestões em Curitiba, foi eleito pelo voto direto apenas uma vez – foram duas passagens pela administração local na condição de biônico, antes de se eleger governador do Paraná.

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Greca apareceu na política respaldado por Lerner – “Ainda estudante, fui trabalhar, a convite do então prefeito de Curitiba Jaime Lerner, na Casa Romário Martins, um dos embriões da Fundação Cultural de Curitiba”. O primeiro mandato eletivo foi de vereador, na disputa de 1982. Em seguida, foi deputado estadual. Estreou no comando da prefeitura de Curitiba já no início da década de 90, também com uma vitória de primeiro turno. “Aquele era o tempo do Lixo que não é Lixo, da reciclagem pioneira, do orgulho pela Capital Ecológica, da chegada dos biarticulados vermelhos”, defende Greca, sobre aquela gestão.

Depois da passagem pela prefeitura de Curitiba, se elegeu deputado federal com expressiva votação, na disputa de 1998. Quando estava na Câmara dos Deputados, foi chamado pela gestão FHC para a cadeira de ministro do Esporte e Turismo do Brasil. Deixou a pasta no ano de 2000 na esteira de uma investigação sobre a “máfia dos bingos” (em 2012, a Justiça Federal entendeu que não havia provas de participação dele no escândalo) e poucos dias após o fiasco da construção milionária de uma réplica da Nau Capitânia, a embarcação que trouxe Pedro Álvares Cabral ao Brasil. “Ela não era projeto meu. Começou em 1996, quando eu ainda era prefeito de Curitiba. Em 1998, foi batida a sua quilha, ou seja, o barco já existia, e foi arrematado e concluído para os 500 anos do Brasil”, justificou Greca em um vídeo exibido na campanha anterior, de 2016, sobre o mal digerido episódio.

A trajetória de Greca e Lerner esteve atrelada até o final
de 2002, quando o arquiteto deixou o governo do Paraná e aos poucos foi se
afastando da política. Mas a “herança” do que se convencionou chamar de
“lernismo” acabou nas mãos de Carlos Alberto Richa, o Beto Richa (PSDB). E
Greca, aos poucos, foi se afastando do grupo. Entrou no MDB em 2003, quando a
principal figura da legenda, Roberto Requião, assumia o governo do Paraná. Só
deixou o MDB em 2015, na tentativa de retornar à prefeitura de Curitiba, o que
efetivamente aconteceu nas urnas de 2016.

As sucessivas derrotas, entre o fim da “era Lerner” até 2016

No período entre o fim da “era Lerner” até as atuais vitórias, nas eleições de 2016 e 2020, Greca sofreu seguidas derrotas nas urnas. Em 2006, não conseguiu se reeleger para a Assembleia Legislativa. Em 2010, também não obteve número de votos suficientes para conquistar uma cadeira de deputado estadual. Em 2012, ficou em quarto lugar na corrida à prefeitura de Curitiba. Em 2014, não conseguiu uma vaga na Câmara dos Deputados. Na política, chegou a ser considerado carta fora do baralho.

Mas, ao longo do período de fracasso nas urnas, aliados o mantiveram em cargos públicos. Após a derrota no pleito de 2006, Greca ganhou do então governador do Paraná, Roberto Requião, o comando da Companhia de Habitação do Paraná (Cohapar). Ficou à frente da Cohapar até o final da gestão de Requião, em 2010. Na sequência, se manteve ligado a Requião, eleito senador naquele ano: entre 2011 e 2015, Greca ocupou um cargo comissionado ligado ao gabinete do senador do MDB.

Assim, no início de 2017, quando tomou posse na cadeira de
prefeito da capital, Greca completava dez anos sem mandato eletivo.

O peso do Palácio Iguaçu, de Beto
Richa a Ratinho Junior

Na disputa de 2016 à prefeitura de Curitiba, Greca já estava fora do MDB e filiado a uma legenda nanica, o PMN, mas acabou apoiado pelo PSDB do então governador do Paraná, Beto Richa – seu vice era um tucano, Eduardo Pimentel, neto do ex-governador do Paraná Paulo Pimentel, agora também reeleito na chapa encabeçada por Greca. E, assim como em 2016, a disputa de 2020 na capital também foi marcada pela influência do Palácio Iguaçu, agora nas mãos de Carlos Massa Ratinho Junior (PSD). Greca conseguiu o apoio que pode ter sido o maior empurrão para sua vitória já no primeiro turno, o do governador Ratinho Junior, que convenceu Ney Leprevost (PSD) a sair do jogo eleitoral.

Em 2016, Leprevost chegou a disputar o segundo turno contra Greca e, por isso, era tratado até às vésperas das convenções como o principal obstáculo para uma reeleição. Mas Leprevost encontrou resistência dentro do próprio PSD e lideranças da legenda tomaram a frente para fazer uma costura com Greca – aqui já filiado ao DEM (ex-PFL, seu partido de outrora, entre 1997 e 2003), e não mais ao PMN. Na prática, a união entre Greca e Ratinho Junior teria ocorrido ainda no começo de 2020, quando Eduardo Pimentel saiu do PSDB para se filiar ao PSD, em abril. Mas, publicamente, Leprevost insistiu na pré-candidatura até dias antes da convenção do PSD, se retirando somente em setembro. Ao justificar a desistência aos eleitores, culpou as dificuldades de uma campanha em meio a pandemia do novo coronavírus.

Daqui dois anos, quando Ratinho Junior tentar a reeleição ao Palácio Iguaçu, ele deve contar com o prefeito de Curitiba na campanha eleitoral. “Amor com amor se paga”, já disse Greca.

“Sou pouco político, sou um
engenheiro urbanista”

Embora tenha exercido mandatos eletivos e ocupado cargos comissionados desde o início da década de 80, Greca se coloca como um “engenheiro urbanista”. “Esta é uma conversa entre políticos. Eu sou pouco político, tanto que eu delego isso. Eu sou um engenheiro urbanista, entusiasmado com a ideia de continuar a servir Curitiba”, respondeu ele em setembro último, quando foi questionado sobre a aliança que se desenhava entre DEM e PSD.

Formado em engenharia civil pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Greca passou no concurso público para o Ippuc, o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba, em 1982, quando Jaime Lerner exercia o seu segundo mandato biônico na prefeitura de Curitiba. Mas, naquele mesmo ano, de 1982, Greca disputou e ganhou uma cadeira na Câmara de Vereadores. Em 1º de janeiro de 2016, no mesmo ano em que disputou e ganhou as eleições para a prefeitura de Curitiba, Greca conseguiu a aposentadoria pelo Ippuc.

Mas Greca tem outras coisas no currículo, incluindo um assento na Academia Paranaense de Letras. Ele é autor de dezenas de livros sobre a história de lugares e personagens de Curitiba, onde nasceu. “Em 1975, lancei meu primeiro livro, Cada um cai do bonde como pode, apaixonado relato sobre os tipos populares famosos em Curitiba. Mais tarde os recordaria no meu livro da vida toda, Curitiba Luz dos Pinhais, publicado em 2016”, resume ele. O livro de 560 páginas “traz muita coisa de memória oral das pessoas que aqui viveram”, explicou ele, no ano do lançamento.

“Dom Rafael, o Venturoso”

A retórica peculiar de Greca, somada
ao choro fácil e às cantorias (o hino de Curitiba a capela surge com alguma
frequência entre uma fala e outra), também já o coloca como um personagem marcante
da cidade. E a retórica peculiar não é usada apenas quando ele discorre sobre a
história de algum bairro, ou de algum monumento, ou quando faz declarações de
amor à sua parceira, Margarita Sansone – “No primeiro encontro, na Galeria de
Arte Acaiaca, junto ao Relógio das Flores, no Alto de São Francisco, seu colo
estava ornamentado por borboletas azuis. Foi o alhumbramento que persiste até
hoje”. O jeito único de se expressar também serve quando ele quer responder a
críticas de adversários na política.

“Curitiba é uma referência no
sistema de saúde. Quem fala mal é abutre de pandemia, é coisa ruim, é entidade
maligna que cavalga com os cavaleiros do apocalipse”, disparou ele em recente
entrevista, ao aproveitar para rebater críticas que recebeu sobre a condução
das medidas de enfrentamento ao novo coronavírus. Greca costuma reagir com
fúria quando é contrariado, uma característica que, na avaliação de opositores,
revela uma postura autoritária.

Outra crítica que se faz a Greca, mais explorada pelos concorrentes ao longo da campanha eleitoral, seria a suposta prioridade à chamada “zeladoria” da cidade, em detrimento de outras questões. “Não adianta o prefeito cuidar da cidade e não cuidar das pessoas”, disse Fernando Francischini (PSL) em vídeo de campanha. Conteúdo parecido já estava na boca de Ney Leprevost, quando ele ainda não tinha anunciado desistência: “Teria gastado menos, ao longo deste ano, em paisagismo e embelezamento da cidade, e mais em saúde pública. Nós vamos manter a cidade limpa, bem cuidada, os canteiros com a grama bem cortadinha, as ruas sem buracos. Mas a minha principal obra como prefeito de Curitiba vai ser cuidar do ser humano”, afirmara Leprevost, durante entrevista.

Greca rejeita a visão dos adversários sobre sua gestão, cita obras mais nevrálgicas em andamento, mas não esconde o entusiasmo pela “zeladoria”. “Se ganharmos a eleição no domingo, na segunda-feira ou na terça-feira eu vou convocar o Natal. Chegaram já 6 mil mudas de flores do Espírito Santo nos hortos municipais. Vamos começar a colocar as árvores e animar a cidade”, anunciou em vídeo já na reta final desta campanha.

Greca costuma repetir que, para ele, ser prefeito de Curitiba é “um estado de graça”. “Eu sou dom Rafael, o Venturoso. Sou muito feliz de ser prefeito. Tenho alegria de servir Curitiba e os curitibanos, para desespero dos meus invejosos”, disse ele, ainda no final de 2018. Foi Jaime Lerner quem primeiro o chamou assim, de “dom Rafael, o Venturoso” – contou o jornalista Ricardo Kotscho, em 1995, ao fazer um breve perfil do político. A referência seria a dom Manuel, rei de Portugal por décadas.

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