Quando os pets invadem o home office dos donos

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Eduardo, Ludmila com as filhas e os dois mascotes. Crédito: Divulgação

Quando o Espírito Santo entrou em quarentena, a rotina da jornalista Ludmila Nascimento, de seu marido Eduardo Rabello, das duas filhas Luísa, 10 anos, e Gabriela, 5 anos, e dos dois gatinhos Tom e Mel, 7 meses, mudou completamente.

Ludmila e o marido começaram a trabalhar em home office, Luísa iniciou as aulas remotas e Gabriela, claro, cheia de energia, só queria – e ainda quer – brincar. E no meio de tudo isso, estão, ainda, os gatinhos que, antes acostumados a ficarem em casa sozinhos na parte da tarde, precisaram se adaptar à presença dos donos 24 horas em casa.

“Os gatinhos no começo sentiram um pouco a nossa presença o dia todo. Antes eles aproveitavam à tarde, sozinhos, para tirar uns cochilos. Com a gente aqui, isso ficou mais difícil, mas aos poucos eles foram se adaptando à nova rotina, querendo participar de tudo”, conta Ludmila.

O Tom fica o tempo todo ao lado de Luísa quando ela está estudando em seu quarto. “Fica lá deitado, quietinho, dormindo ou só observando”.

Já a Mel gosta mesmo é de acompanhar Eduardo e Ludmila, que dividem o tempo no home office, enquanto um está trabalhando no computador, o outro faz as tarefas pelo celular. “Temos um cômodo destinado só para isso. É lá que ficam as caminhas, os potinhos de ração e água e a caixa de areia”.

De vez em quando, ressaltam, acontece umas cenas muito engraçadas. “Outro dia estava fazendo uma videoconferência e, de repente, a Mel começou a passar em cima do teclado, em frente à câmera, todo mundo viu e começou a rir. Eu a afastava, mas ela voltava. Isso quando não deixava só o rabo aparecendo para a equipe. Como a galera é da publicidade e a reunião, geralmente, já é mais descontraída, isso acabou sendo mais um momento relaxante”, lembra Eduardo. “E como muitos da equipe têm um pet em casa, um dia todos nós resolvemos mostrar os nossos ‘filhos de quatro patas’ na reunião virtual”, acrescentou.

Outro dia foi a vez de Ludmila. Ela estava em uma videoconferênciai e precisou levantar para buscar uns documentos, quando voltou a Mel estava esparramada na cadeira. “Não consigo sentar, falei para o meu chefe. Ele até riu”.

Na casa de Ludmila todos concordam que a presença de Tom e Mel deixa a quarentena e, consequentemente, o trabalho, o estudo remoto e as brincadeiras bem mais leves. “A gente fica menos estressado, porque cada movimento dos nossos gatinhos é um motivo de risada e de tirar uma foto. Já fizemos até o perfil deles no instagram. Adotá-los foi a melhor coisa que fiz, até o humor das minhas filhas melhorou. Elas, agora, acordam superdispostas”.

Os gatos Inácia e Antonino sempre aparecem quando o professor Ériton está fazendo videoconferências
Os gatos Inácia e Antonino sempre aparecem quando o professor Ériton está fazendo videoconferências. Crédito: Divulgação

“PAI EM TEMPO INTEGRAL”

Em Muqui, cidade do interior do Espírito Santo, o professor de Literatura e diretor de escola estadual, Ériton Bernardes Berçaco, também está em home office, embora ainda vá, eventualmente, ao colégio onde atua. No trabalho dentro de casa conta com a ajuda indispensável – como ele mesmo diz – de seus dois bichanos, Inácia e Antonino, ambos com dois anos. Além disso, tem três cadelas: Tieta, Luz e Malhada.

“Mas dentro de casa só ficam os gatos. Os outros ficam no quintal. Todos foram adotados, para mim é uma questão política”, afirma.

Em casa, ele passa o dia todo planejando as atividades não presenciais (não é ensino à distância) da escola. “Os gatinhos começaram a sentir a minha presença 24 horas dentro de casa. Antes, ficava o dia todo fora e sempre tive curiosidade para saber o que eles faziam. E como eles vivem soltos, de vez em quando davam umas escapadas pelo bairro. Os vizinhos me contavam que Antonino adorava ficar na casa de uma senhorinha que costura ou subindo em um ipê numa residência próxima”, ressalta. “Agora, eles já entenderam que estou aqui. E com a quarentena, por uma questão de segurança sanitária, eles não saem mais às ruas”.

Outro dia, Ériton estava em uma videoconferência, na biblioteca, e os dois gatinhos apareceram. “Fizeram de tudo para chamar a minha atenção. Eles sempre gostaram de pessoas (a casa faz parte do projeto cama e café, mas no momento o Solar do Lagarto está fechado). Acho que ouviram as vozes, por isso interferiram. O jeito foi tirar eles do recinto”, conta, rindo.

Ériton conta que nessa convivência direta com seus gatinhos está se sentindo como um “pai” que está tendo o direito, finalmente, de assumir a paternidade. “E isso é muito bom, deixa nossos dias mais gostosos, mais divertidos”, ressalta.

E como lá em Muqui faz mais frio, o trabalho não se resume só à mesa da biblioteca. “De vez em quando levo o laptop para a cama, e ficamos nós todos embaixo da coberta”, conclui.

Vânia: “Joaquim está sempre no meu colo, quietinho. Já Hannah fica deitada, ao lado, no chão”
Vânia: “Joaquim está sempre no meu colo, quietinho. Já Hannah fica deitada, ao lado, no chão” . Crédito: Divulgação

DIAS MAIS ALEGRES

Por falar em frio, em Domingos Martins, a diretora comercial e uma das proprietárias do Hotel Fazenda China Park, Vânia Banhos dos Santos, conta com a ajuda dos seus cachorros Joaquim, um ano e meio, e Hannah, quatro anos e meio, para fazer seu home office.

“Sem meus ‘filhos de quatro patas’ essa quarentena seria bem mais estressante. Eles deixam esse processo bem mais alegre, ganhamos mais energia. O Joaquim, por exemplo, onde eu vou, lá está ele atrás. E enquanto fico na frente do computador, ele está sempre no meu colo, bem quietinho, mas às vezes me pede atenção. Já Hannah fica deitada, ao lado, no chão”, conta.

Vânia faz questão de dizer que conversa muito com seus dois cachorros. “Só quem tem pets em casa é capaz de compreender isso, e posso garantir, eles entendem tudo o que falo. Quando estou triste é eles que me consolam”.

Os dois cachorrinhos também adoram passear com Alex Pimentel, companheiro de Vânia. “Enquanto estou trabalhando eles saem. E quando voltam o Alex faz todos os procedimentos de higienização de Joaquim e Hannah. Na verdade, isso sempre foi rotina aqui em casa, a quarentena só intensificou os cuidados”, conclui.

Mariana Varejão com seus dois companheiros, Lolita e Guapo,
Mariana Varejão com seus dois companheiros, Lolita e Guapo, . Crédito: Divulgação

MELHORES COMPANHEIROS

Não é de hoje que a designer de interiores, Mariana Varejão, faz home office. Há muito tempo ela trabalha dentro de casa. Por isso, para ela nada mudou durante o isolamento por conta da Covid-19.

E nessa labuta de todos os dias, ela conta com dois grandes companheiros, a Lolita e o Guapo, ambos vira-latas. “A Lolita, de dois anos, chegou em casa primeiro. Um dia eu e meu marido, Gustavo Coutinho, estávamos passeando com ela e um cão de porte grande nos seguiu por mais de dois quilômetros. Em determinado momento apareceram alguns cachorros querendo atacar a Lolita, e não é que ele nos protegeu? Claro, o trouxemos para casa”, conta.

E foi assim que o Guapo entrou para a família. “Ele deve ter um ano e meio, disse o veterinário, e acho que já veio ensinado, parece um lorde inglês de tão educado”.

Os dois são os grandes companheiros de Mariana. “Eu fico lá trabalhando e eles deitados quietinhos. Mas basta eu me espreguiçar para levantarem as orelhas e virem em minha direção pedindo carinho. Parece até que sabem que é a hora do intervalo, daí querem passear ou brincar. E eu dou esse tempo para mim e para eles. E quando volto para frente do computador estou bem mais serena”.

Para Mariana, trabalhar ao lado dos dois é muito bom. “Quando estou em um dia mais estressado, eles me transmitem tranquilidade. Chegam sempre com aquele olhar tipo ‘estou aqui’ e qualquer sentimento ruim vai embora”, explica.

E Mariana dá uma dica para quem começou a fazer home office agora, na quarentena. “Isso certamente será tendência daqui para frente, mas trabalhar em casa é diferente. O importante é a pessoa saber quais metas precisa cumprir, e o prazo que tem para finalizá-las, mas se tiver que dar uma parada para realizar qualquer tarefa da casa ou simplesmente curtir seus ‘filhos de quatro patas’, nada de sentir culpa. Não há nenhum problema nisso. Aliás, Lolita e Guapo são os meus melhores motivos para dar uma pausa no trabalho”, conclui.

Os dois só não ficam ao lado de Mariana quando o marido está cozinhando. “Daí eu perco a vez, afinal eles querem mais é pegar os pedaços de comida que o Gustavo teima em dar a eles. Fazer o quê?”, completa.

A psicanalista Paula Lampé :“Quando menos espero eles passam na frente do laptop”
A psicanalista Paula Lampé :“Quando menos espero eles passam na frente do laptop”. Crédito: Divulgação

HORA DE PARAR

Para a psicanalista Paula Lampé Figueira a presença dos pets no home office estabelece um corte importante – e muito necessário – nesse processo. “Quando estamos trabalhando em casa nos cobramos muito, perdemos um pouco do limite, achando que temos que ficar 24 horas ligados. E os pets nos ‘obrigam’ a dar uma parada, relaxar um pouco, quando exigem atenção”, explica.

Ela mesma, dona de três gatos – Charles, 10 anos, Meg, 7 anos, e Lindomar, 5 anos, todos adotados – sente isso. “Três meses antes da quarentena eu já estava fazendo home office, atendendo virtualmente alguns brasileiros fora do Brasil. Com as restrições de isolamento, trouxe todo o meu consultório para dentro de casa. Mas eu fecho a porta na hora da sessão. Só que de vez em quando eles se escondem no local e eu não percebo e quando menos espero estão passando em frente da tela do laptop. Se exibindo”, diz, rindo.

Ela conta que como tem alguns pacientes entre 8 e 10 anos, quando isso acontece, o assunto gato acaba entrando na narrativa da sessão. “É engraçado, mas eu atraio muitas pessoas que gostam ou têm animais de estimação, especialmente felinos. Então, quando estou atendendo uma criança e um dos meus bichanos nos surpreende, ela se diverte e se também tem um bicho em casa, logo traz para eu ver”, ressalta.

“Uma coisa é certa, os animais só fazem bem durante esse processo de home office, a gente aprende muito com eles, isso sem falar da alegria que nos proporcionam”, conclui.

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