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Prosa Poética, no programa Tarde Ponto Com, por Mary Arantes: ‘Mais que bonecas’ – Rádio Itatiaia

Foto: Arquivo Pessoal






A história da boneca está ligada à história dos homens, como uma réplica de si mesmo. A boneca é um objeto carregado de significado. Em contato com ela, experimentamos a alteridade: encontro com o outro e consigo mesmo. As bonecas existem desde quando eram utilizadas para fins ritualísticos na África.

O homem elevou os diferentes tipos de bonecos à símbolo cultural a acompanhá-lo em suas múltiplas experiências, fazendo desse objeto, desde oferendas religiosas, ritos, rituais, vodus, objetos de culto, figura de magia, ídolo, amuleto ou talismã, lembrança mortuária, feitiços de amor e de maldade, até chegar ao uso infantil como brinquedo. 

Bonecas indígenas, bonecas de barro, de cerâmica, de pano, plástico, de porcelana, biscuit, metais, madeira, com e sem articulação, bonecas orientais, bonecas negras, fantoches. Bonecas típicas de cada etnia abarrotam as lojas de souvenirs nas estações de metrô, rodoviárias e lojinhas de artesanato de todo o mundo.

A boneca de pano é uma forma rudimentar de boneca, são feitas manualmente com sobras de tecido. Minhas bonecas sempre foram feitas de pano, por Dona Laura, que também era a poteira da cidade. Dona Isabel, famosa por suas cerâmicas no Vale do Jequitinhonha, na infância fazia bonecas de sabugo de milho, para brincar.

Depois começou a fazê-las de barro. Ceramistas, como Zezinha, de Turmalina, fazem bonecas à sua imagem e semelhança, o que chamamos de autorretrato. Acredita-se que as bonecas sejam impregnadas de vida por quem as criou.

As bonecas são também consideradas, símbolo de resistência e serviam para acalentar os filhos durante as viagens de navios que realizavam o transporte de escravos entre África e Brasil. Foi assim que a boneca negra Abayomi foi criada, sem costura ou cola, apenas nós e amarrações, já que reza a lenda que elas eram feitas de pequenos pedaços de tecidos, retirados das saias das mães.

Abayomi significa meu presente, aquele/a que me traz alegria. O nome serve para meninos e meninas, indistintamente. As oficinas de Abayomi estimulam o fortalecimento de autoestima e reconhecimento da identidade afro-brasileira dos negros e descendentes.

As bonecas de papel, com a opção de troca de roupas, vinham em revistas de papel mais encorpado com o contorno pontilhado, salientando o lugar do corte. Foram criadas na Alemanha, eram minhas prediletas, já que o sonho de uma boneca de verdade estava longe de ser alcançado.

A polêmica Barbie, loira, sexy, de olhos azuis e com corpo modelado, sintetizou o sonho americano de consumo, status e beleza. As Matrioskas são bonecas russas ocas que comportam dentro de si outras bonecas. O nome matrioska significa matrone ou Maria. O fato de que uma boneca fique dentro da outra, faz com que ela seja vista como símbolo da fertilidade, de amor e de maternidade. 

Vasalisa é um conto russo, que conta a história de uma menina – Vasalisa – que perdeu sua mãe e dela ganhou uma boneca que a auxiliou a lidar com sua madrasta e irmãs postiças e também com a bruxa Baba Yaga. Vasalisa é nesse conto, símbolo da nossa intuição, representa o espírito interior das mulheres, a nos lembrar da nossa própria força. Superficialmente, trata-se apenas de uma boneca. Mas uma boneca nunca é só uma boneca.