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Precisamos falar sobre maconha – Vogue

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Precisamos falar sobre maconha (Foto: Arquivo Vogue/ Raoni Felix)

A cannabis é uma das plantas com registro de domesticação mais antigas da humanidade, alguns estudos apontam que é utilizada há mais de 10 mil anos. Em diversas culturas ancestrais, é usada como medicina, como sacramento espiritual, como terapia e também na produção de tecidos, papel, cordas, etc. Para entender seus diferentes usos na atualidade, conversei com a farmacêutica pós graduada em cannabis medicinal, Renata Monteiro: “Muitas pessoas não têm conhecimento sobre a cannabis e criam um pré conceito, sem imaginar o quanto a planta tem a oferecer. O uso da planta é ancestral, inclusive, até o início do século 19, era vendida em farmácias no Brasil”.

A proibição da Cannabis não foi motivada por questões de saúde, mas sim a perseguição a grupos marginalizados. Nos Estados Unidos a planta foi levada inicialmente pelos imigrantes mexicanos e no Brasil chegou no século 15, por meio dos escravizados, que quando faziam refúgio com etnias indígenas, acabaram compartilhando este conhecimento que foi amplamente utilizado por diversas comunidades, explica Renata. “Na década de 30, juntamente com a capoeira e umbanda, o uso da cannabis foi proibido no Brasil, mostrando a relação da proibição com o racismo e a perseguição às culturas afro-descendentes. “

Renata conta que nos Estados Unidos houve uma uma estratégia para criminalizar a população negra, imigrante e mais tarde, o movimento jovem anti guerra (que acontecia no Vietnã), e a cannabis era usada como artifício para difamar os usuários e suas culturas. “Houve uma grande onda de notícias falsas, filmes e materiais publicitários dizendo que as pessoas que faziam o uso da substância ficavam violentas, loucas e promíscuas. Essas grandes mentiras, hoje já vêm sendo reveladas, mas ficou a marca do tabu, pois muitos não têm certeza da verdadeira história e da realidade sobre os efeitos da planta.”

Com interesses políticos e sociais somados aos interesses da indústria têxtil e farmacêutica, em 1971, na Conferência Internacional do Ópio, em Viena,  a cannabis passou a ser proibida em muitos países e até ser comparada com o ópio, realçando o desconhecimento da substância.” A proibição, então, não tem nenhum fundamento científico, não houve comprovação que a cannabis fazia mal, foi através de uma pronúncia política com interesses pessoais e industriais”, diz Renata.

O interesse da indústria têxtil se deu porque o cânhamo, uma das fibras mais antigas da humanidade, conhecida por sua qualidade e resistência, foi por séculos plantada em muitos países, inclusive no Brasil. É uma fibra que apresenta benefícios para o solo, não precisa de químicos e nem muita água, portanto é um tecido consideravelmente mais sustentável, mas por conta da proibição da planta, deixou de ser produzido e abriu espaço para o cultivo de outras fibras, como a do algodão.

Renata Monteiro, pesquisadora da história e do uso de cannabis (Foto: Divulgação)

Renata Monteiro, pesquisadora da história e do uso de cannabis (Foto: Divulgação)

A perseguição histórica à planta resultou em uma guerra às drogas que traz inúmeros impactos sociais, reforçando o racismo estrutural, a desigualdade e até a violência. ” A guerra às drogas é uma guerra ao próprio ser humano. Diz que é em prol da preservação da saúde, mas está acabando com as vidas, vidas de crianças, trabalhadores e outros inocentes, principalmente negros e negras de regiões periféricas. Isso tudo por interesses políticos e econômicos” afirma Renata.

Além das questões sociais, a legalização da cannabis pode auxiliar no tratamento de doenças como câncer, alzheimer, epilepsia, stress, depressão, autismo, etc. O primeiro registro da Cannabis medicinal foi por volta do ano 2.700 a.C no livro chinês Pen Tsao, considerada a primeira farmacopeia da História. Em 1843, o médico irlandês Willian O’Shaughnessy, após uma temporada na  Índia, publicou um artigo sobre as possibilidades de uso terapêutico da erva, remédio tradicional nas culturas orientais e começa a expandir este conhecimento.

Com a atual proibição, pacientes não têm acesso a vasta gama de medicamentos que provêm da planta. Hoje, no Brasil, é apenas possível comprar CBD (cannabidiol) importado com alto custo, mas Renata explica: “Ao contrário do que muitos pensam, a cannabis não é composta apenas por CBD, são mais de 1500 compostos diferentes que apresentam ações terapêuticas. Eles agem no efeito comitiva, esta ação não é uma característica apenas da cannabis, mas dos fitoterápicos em geral, então quando se utiliza a planta toda, tem uma melhor resposta terapêutica do que quando se utiliza apenas um composto isolado”.

“No nosso corpo temos o sistema endocanabinóide, que vem sendo estudado desde o ano 2000 e é extremamente importante no nosso organismo, pois funciona como um maestro, conduzindo os outros sistemas. Os canabinóides estão presentes no nosso corpo e são responsáveis por regular os processos fisiológico, como dor, apetite, sono, motivação, humor, etc, então, modulando este sistema, conseguimos modular algumas  doenças ou desequilíbrios do nosso organismo”, afirma Renata.

Atualmente a cannabis é legalizada apenas em alguns países, mas é um processo que vem avançando, como no México, que recentemente legalizou inclusive o uso recreativo da planta. No Brasil, a luta está a passos lentos e é marcada pela força das mães de crianças necessitadas de remédios a base de cannabis que buscam saúde e conforto para seus filhos.

A liberação do cultivo de cannabis também pode contribuir com o desenvolvimento econômico de forma mais sustentável, pois a planta recupera solos degradados, seu cultivo não requer agrotóxicos e precisa de pouca água, sendo possível se produzir alimentos, cosméticos, roupas, combustível, papel e inúmeros outros produtos. Portanto, apoiar a causa canábica é um ato que deve ir além da opinião e relação pessoal com o uso da planta. O apoio à legalização é reparação histórica, é justiça social, é conforto e saúde para enfermos e é a regeneração da terra. Apenas com informação e mobilização da sociedade, que será possível trazer o devido respeito e consideração a esta planta curativa que pode salvar tantas vidas.