Pular para o conteúdo

Precious Lee: “Nenhuma carreira é mais importante que a nossa saúde mental” – Vogue

  • por

Vestido e saia, ambos Karoline Vitto (Foto: Luigi & Iango)

Até um dia antes da nossa conversa, a biografia da modelo norte-americana Precious Lee no Instagram era “ocupada fazendo história”. Hoje é “só com o coração você consegue tocar o céu”. A verdade é que as duas descrições dizem muito sobre a trajetória da top, que após o primeiro desfile na Versace (verão 2021), em setembro de 2020, passou a ser considerada o rosto que representa os novos valores da indústria da moda.

Além da campanha da grife italiana, Precious foi destaque na alta-costura de verão da Area; está em sua terceira capa de Vogue (antes da brasileira, esteve nas páginas da italiana e da inglesa); e segue colecionando marcos.

Por dentro da edição estrelada por Precious Lee (Foto: Vogue Brasil)

Por dentro da edição estrelada por Precious Lee (Foto: Vogue Brasil)

“Agradeço por ter sido resiliente até aqui para, agora, poder ocupar espaços de altíssimo nível na moda. Isso geralmente não acontece com mulheres da minha cor ou do meu tamanho. Acredito no poder da minha imagem para mudar a percepção das pessoas e ter cada vez mais profissionais parecidas comigo ganhando o mercado”, diz. Seu primeiro grande feito foi alavancar a campanha #ImNoAngel, em 2016, da marca americana de roupas plus-size Lane Bryant, que fazia uma crítica direta aos desfiles da Victoria’s Secret.

Nascida nos anos 1980 e criada em Atlanta, nos Estados Unidos, ao lado de sua irmã mais velha, Precious tem certeza que o seu crescimento na moda é reflexo da educação otimista que recebeu dos pais.

“Ter um pai empreendedor [ele sempre foi dono de salão de beleza] e uma mãe professora me fez entender que a fórmula do sucesso era investir em educação e ter criatividade. Sempre fui muito inteligente, participativa e curiosa. Na escola, por exemplo, não tinha medo de experimentar coisas novas. Então, era líder de torcida, jogava tênis, vôlei e tudo que fosse possível. Me sentia desconfortável em alguns momentos, por ser maior que as minhas colegas, mas ao mesmo tempo tinha muito orgulho por inspirar outras crianças a se movimentarem e serem mais confiantes”, conta.

A confiança que vemos em sua caminhada na passarela, aliás, vem da adolescência, nos anos 2000, quando se percebeu capaz de contar outra narrativa sobre corpo. “Me comprometi a mostrar que ter o meu tamanho não limitava as minhas experiências, pelo contrário, era motivo de orgulho e felicidade, afinal, sempre fui saudável. Cresci em um ambiente que o meu corpo era motivo de celebração, não de vergonha.”

Precious Lee (Foto: Divulgação)

Precious Lee (Foto: Divulgação)

Há dez anos no mercado, a modelo considera sua entrada na moda tardia, e o problema não foi apenas a falta de representatividade, mas sua própria ausência de visão. Ela queria ser advogada para mudar as injustiças do mundo, principalmente entre a comunidade negra, mas, antes de se ver atuando na área, imaginava qual seria a combinação de roupa para cada dia. Por influência dos negócios da família, a beleza e a moda sempre falaram mais alto para Precious.

“Eu não conseguia visualizar uma possibilidade de carreira na indústria fashion, mas foi de tanto pensar nisso e, depois de ver a modelo Crystal Renn na passarela, que entendi quão necessária era a minha imagem. É muito poderoso dar possibilidades diferentes para meninas e mulheres parecidas comigo. É assim que vou mudar o mundo”, diz.

Top Versace e hotpants Ermanno Scervino. Corset Diomadis e botas Marc Jacobs, ambos no Pechuga Vintage. Argolas Jennifer Fisher (Foto: Luigi & Iango)

Top Versace e hotpants Ermanno Scervino. Corset Diomadis e botas Marc Jacobs, ambos no Pechuga Vintage. Argolas Jennifer Fisher (Foto: Luigi & Iango)

O fato de Precious ter se tornado uma aposta de Donatella Versace traz consigo um certo ajuste do destino. É que uma de suas primeiras fotos compartilhadas no Instagram, em outubro de 2011, foi uma imagem da designer italiana ao lado das cantoras Mariah Carey e Beyoncé, três de suas maiores inspirações.

“Eu usava as peças que os meus pais tinham da Versace para ir à escola e sempre admirei a autoridade que a casa representa na moda”, conta. Antes da label italiana, seu grande sonho, a modelo já tinha feito trabalhos para a Ivy Park (marca de Queen B), além de participar dos desfiles de Tommy Hilfiger, Savage x Fenty e Christian Siriano, etiquetas já conhecidas por priorizar a diversidade no casting. “É claro que a apresentação da Versace foi um divisor de águas na minha carreira, mas também existem várias situações que me fazem acreditar que ‘cheguei lá’, como quando passei a ser financeiramente independente. E se você me perguntar daqui alguns anos, terei muitas coisas para acrescentar na lista.” Não nos sobra dúvidas que sim.

Depois da grife italiana, a modelo não tem nenhuma marca específica que gostaria de trabalhar. Na verdade, o seu desejo é continuar desfilando em passarelas que o seu tamanho cause espanto. “Sigo em busca do inesperado. Ainda existem várias marcas que não estão nem perto de ter corpos parecidos com o meu em desfiles ou campanhas, e é com elas que eu quero estar”, explica. Apesar da visibilidade a partir de seu tamanho, de acordo com Precious, a maior dificuldade na indústria da moda é uma extensão da sociedade racista ao redor do mundo.

“Ser mulher negra é desafiador por si só. Temos que equilibrar as emoções neste momento em que a diversidade e a inclusão viraram ‘moda’, mas não exatamente realidade. Ainda que as marcas estejam usando a minha imagem para levantar bandeiras que nem sempre acreditam, para mim também é interessante usar essas brechas para aparecer e fazer a indústria mudar de verdade”, diz. Entretanto, a trajetória solitária requer cuidados com a saúde mental.

“Mesmo com a responsabilidade que peguei para mim de abrir espaço, sempre sigo o lema que o meu bem-estar vem em primeiro lugar, independente de qualquer coisa. Nenhuma carreira é mais importante que a nossa energia, por isso não abro mão da minha meditação, além de estar cada vez mais conectada com a astrologia e a força dos cristais”, finaliza. Que essa energia se propague.

Edição de moda: Pedro Sales
Maquiagem: Georgi Sandev (Forward Artists) com produtos Dior Backstage Powder-No-Powder
Cabelo: Akki Shirakawa (Art Partner) com produtos Oribe
Coordenação demoda: Tanya Ortega (NY)
Light Design: Dean Dodos
Direção executiva: 2b Management
Coordenação: Monica Borges
Dir. de casting: Urban Casting
Digital Tech: Kevin Lavallade e Kenyon Parks
Assistentes de fotografia: Daren Thomas e Ariel Sadok
Assistente de maquiagem: Dmitry Kukushkin
Assistente de cabelo: Rei Kawauchi
Assistente de stylist: Ana Paula Cervera
Assistente de produção: Olivia Haven
Nail artist: Aja Walton com produtos Essie