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Paris acolhe primeira retrospectiva de Gabrielle Chanel – 01/10/2020

O Palais Galliera, um dos dois museus da moda de Paris, reabre suas portas nesta quinta-feira (1°), após quase dois anos fechado, com uma exposição sobre a obra de Gabrielle Chanel. A retrospectiva, a primeira do gênero na capital francesa, deixa de lado a vida tumultuada da estilista para se concentrar no trabalho daquela que contribuiu para liberar a silhueta feminina.

O Palais Galliera, um dos dois museus da moda de Paris, reabre suas portas nesta quinta-feira (1°), após quase dois anos fechado, com uma exposição sobre a obra de Gabrielle Chanel. A retrospectiva, a primeira do gênero na capital francesa, deixa de lado a vida tumultuada da estilista para se concentrar no trabalho daquela que contribuiu para liberar a silhueta feminina.

Gabrielle Chanel, ou Coco para os íntimos, é uma das personalidades mais famosas da história da moda. A menina pobre criada em um orfanato, que até sua morte inventava um relato diferente cada vez que era questionada sobre sua infância, teve uma vida de grandes amores, amizades célebres e até uma acusação póstuma de ter agido como espiã durante a Segunda Guerra Mundial. Uma trajetória palpitante que inspirou livros, filmes e faz parte até hoje da mitologia do mundo das passarelas, além de alimentar o storytelling da marca que se tornou uma das gigantes de luxo internacional.

No entanto, por incrível que pareça, Paris nunca tinha acolhido uma retrospectiva da estilista que encarnou para o mundo todo a imagem – às vezes caricatural – da parisiense. O museu do Palais de Tokyo chegou a fazer uma exposição sobre o perfume Chanel n°5 em 2013 e inúmeras instituições homenagearam o trabalho de Karl Lagerfeld, que dirigiu o estilo da maison durante 36 anos, até sua morte em 2019. A capital francesa estava devendo uma homenagem para aquela que ficou conhecida por ter “liberado as mulheres”, abolindo os espartilhos, adotando malhas no vestuário até então engessado, e adaptando peças do armário masculino para o guarda-roupas feminino, criando uma moda gender fluid quando ninguém nem pensava nisso.  

A exposição intitulada “Manifesto de Moda”, que fica em cartaz até março de 2021, foi pensada para preencher esta lacuna. Segundo Bruno Pavlovsky, presidente das Chanel, o objetivo do evento é valorizar “não a mulher, e sim a criadora visionária”.  

Mais de 350 peças expostas

Mais de 350 peças, vindas dos arquivos do Palais Galliera, mas também de museus internacionais, coleções privadas e da própria maison Chanel compõem o percurso, que traça as diferentes fases da história da costureira, desde a criação de sua marca em 1910, ainda como fabricante de chapéus, mas já na rue Cambon ? endereço histórico da empresa ?, até sua morte, em 1971.

Nas salas do museu, o visitante acompanha a evolução do estilo de Coco, entre trajes diurnos, roupas de festas e, é claro, la petite robe noire, o vestido preto que virou uma de suas assinaturas. O terninho em tweed, outra peça indispensável do DNA Chanel, também ganha destaque, com inúmeros modelos expostos, entre eles conjuntos usados por Marlène Dietrich ou pela princesa Paola da Bélgica, que dão a pitada de “celebridade” que toda exposição merece.

A visita conta ainda com croquis, fotografias e trechos de filmes com os quais ela colaborou, vestindo algumas estrelas. Os curadores também deram ênfase à paixão de Gabrielle Chanel pelas bijuterias – algo raro na alta-costura da época – com uma sala inteira do museu.

Master Class Chanel

A exposição, que visa o grande público e não apenas os fãs de moda, tenta ser o mais pedagógica possível. Ao ponto de propor uma sala que recapitula os “códigos Chanel”: os sapatos bicolor, cujo truque era o uso da cor bege para alongar as pernas, mas com bicos pretos para diminuir o tamanho dos pés; os colares de pérolas que frequentemente adornavam seus looks, ou ainda a bolsa 2.55, com costuras que reproduzem o efeito acolchoado no couro e que é imitada até hoje por inúmeras marcas.

Todos esses elementos são reciclados de forma contínua por Virginie Viard, que dirige o estilo da maison desde a morte de Karl. Aliás, até parece que a mostra, que não cita o estilista alemão, seja uma espécie de “master class Chanel” para aqueles que não conhecem bem a história da grife antes da passagem de Lagerfeld e os desfiles espetaculares que marcaram seus 36 anos na rue Cambon.

Além disso, “Manifesto de Moda” também marca a reabertura do Palais Galliera, que ficou fechado durante cerca de dois anos para uma reforma gigantesca, que dobrou o espaço de exposições. A obra, patrocinada pela maison Chanel, transformou o antigo porão do palacete em confortáveis galerias, que foram batizadas, justamente, de “Gabrielle Chanel”.

Em tempos de orçamentos públicos cada vez mais escassos para projetos culturais, a reforma do Palais Galliera mostra mais uma vez o poder de fogo das marcas de luxo, mais presentes do que nunca no mundo das artes, para o desespero de alguns puristas, que nem sempre veem com bons a influência do setor privado nos museus.