Os eletrodomésticos nossos amigos

  • por

Os eletrodomésticos são sempre uma caixinha de surpresas. Quando os compramos temos sempre a noção de que nos vão dar imenso jeito.


Mas nem sempre isso acontece. Às vezes percebemos que aquela picadora de gelo que compramos para as caipirinhas foi afinal utilizada apenas duas vezes. Uma para experimentar e a outra apenas só para dizer que não a usámos apenas para a experimentar. Quando nos lembramos novamente dela já não sabemos onde está arrumada, já se escapuliu para um purgatório de pequenos eletrodomésticos inúteis que repousam no extremo de um armário pouco usado. É esta, no fundo, a beleza da sociedade de consumo: compra apenas pelo prazer de comprar. Ficas mais bem servido? Não. Então como ficas? Mais pobre apenas. E não te queixes pois isso já é alguma coisa. Mais pobre, mas com ênfase na palavra mais.

No fundo os eletrodomésticos – e os carros também – são como as pessoas que os inventaram, produziram, compraram. Nunca melhoram com o uso, pelo contrário. Tal como as pessoas tendem a perder, com a idade, as qualidades e a utilidade que inicialmente tinham e, inevitavelmente, a exacerbar os seus próprios defeitos. Jurei a mim mesmo ter esse grande pensamento sempre em mente, mas às vezes … esqueço-me.

Tenho ainda assim alguma saudade da enceradeira, da máquina de costura, do telefone e dos rádios. Eram magníficos e bonitos esses eletrodomésticos!
A enceradeira desapareceu sem deixar rasto muito à custa dos novos materiais que necessitam apenas de uma reles esfregona para lhes devolver o brilho. E a máquina de costura? Que monumento de resistência ao pronto-a-vestir! Muitas casas a tinham. E havia sempre uma mãe, uma tia, que faziam maravilhas com aquilo. O meu primeiro sobretudo – lindo diga-se – foi feito numa coisa daquelas. Nunca vi um homem numa máquina de costura o que era, desde logo, um sinal de coisa feita com esmero e classe. Os telefones eram pretos e, os mais antigos, tão pesados que se poderia perfeitamente fazer com eles uma aula de ginástica localizada de braços caso a conversa demorasse demasiado. E os rádios? Que bonitos e úteis objetos em AM, amplitude modulada. Notícias, música, sempre música e as radionovelas. Francisca ama Joaquim mas eles não pertencem, maldição, à mesma classe social: o marxismo dos sentimentos na dose diária que as emissões de rádio serviam nos anos 70.

A aristocracia dos eletrodomésticos está nos indispensáveis frigorífico, fogão, ferro de engomar e televisão. Aguentaram bem o tempo. Os novos já têm ligação à internet mas desempenham exatamente as mesmas funções que antes desempenhavam. São de uma nova geração que já não funciona à pancada como os miúdos de então, igualmente, funcionavam. Em particular os televisores a preto e branco e os rádios que apanhavam secos castigos para melhorar a sintonia. E melhoravam. O equivalente ao moderno, mas politicamente correto, ligar e desligar.

O aspirador continua um eletrodoméstico detestável. Tanta exploração espacial, tanta vacina, tanta modernidade e ainda não houve uma alma caridosa que os silenciasse. Por amor de Deus, façam-se programas de investigação europeia para resolver o assunto ou ponha-se a NASA a trabalhar no caso. Quanto ao meu exaustor – e apesar de me dizerem que há exaustores que funcionam – continua tão inútil como no início. Encho-o de pancada e nada: tem 20 anos e continua enervantemente coerente: funciona apenas de longe a longe. Tem a mania … e um bonito mostrador digital. Absolutamente inútil.

Gostava ainda assim de envelhecer como um daqueles enormes frigoríficos dos anos 60 (como eu!) sem compartimentos inúteis e que ainda funcionam. Gastando mais energia é certo, não gelando tão bem seguramente, precisando de borrachas que já ninguém fabrica, mas com uma tremenda dignidade, ocupando um espaço enorme sem nunca se deixarem encastrar. Detestaria transformar-me num aspirador que vocifera mais e mais com a idade ou numa metrossexual máquina de lavar roupa, requerendo novos e perfumados líquidos, que roda indefinidamente sem ir a lado nenhum. Vai depender do estado das peças e do uso que entretanto lhes der. E da qualidade do material, claro.

em Opinião