Oficina de trabalho prisional na Modulada de Osório completa oito anos de inclusão social

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Artesanatos criados pelos apenados já foram expostos em eventos das cidades de Tramandaí e Porto Alegre

Em funcionamento desde agosto de 2012, a oficina de trabalho da Penitenciária Modulada Estadual de Osório (PMEO) oferece oportunidade de aprendizado e qualificação para o mercado de trabalho para pessoas que cumprem pena no regime fechado.

Ao longo desse período, mais de 90 apenados participaram dos cursos oferecidos nas oficinas. Na fábrica, são ouvidos os sons das oito máquinas de costura, adquiridas a partir de um projeto elaborado pelo setor técnico da casa prisional e disponibilizado pela Vara de Execuções Criminais de Osório e de Tramandaí. Em silêncio, os apenados costuram o recomeço de sua vida, após viverem a experiência do aprisionamento.

“Nos sete anos em que coordenei a oficina de patchwork, percebi que as pessoas inseridas no trabalho prisional não reincidiram no crime”, afirmou o apenado Cláudio (os nomes dos apenados são fictícios).

Geração de renda

A chefe do Trabalho Prisional da Secretaria da Administração Penitenciária (Seapen) e da Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe), agente penitenciária administrativa Elisandra Minozzo, frisou que as oficinas de artesanato na PMEO se destacam pela qualidade dos trabalhos e, especialmente, por mostrar, na prática, que a qualificação das pessoas durante o cumprimento da pena se reverte na geração de renda para seu sustento na saída.

Conforme Cláudio, que já conquistou o direito ao uso da tornozeleira eletrônica, a experiência que adquiriu na prisão serviu para se firmar numa profissão na rua. “Faço artesanato, confecciono máscaras, roupas de axós de religião, ofício que aprendi na Modulada de Osório e de onde tiro meu sustento”, disse.

Os artesanatos criados pelos apenados já foram expostos em eventos importantes das cidades de Tramandaí e Porto Alegre, como a Festa do Peixe e feiras natalinas.

Além do trabalho em si, dezenas de cursos, em parceria com instituições privadas, foram realizados na oficina com o propósito da qualificação e do ensino de um ofício, para facilitar a busca por emprego. As atividades de patchwork, por exemplo, que acontecem desde o ano inicial da oficina, já capacitaram mais de 90 presos.

A oficina é coordenada pela equipe técnica formada pela psicóloga Juliana Plete de Borba e pela assistente social Ana Lúcia Kurilo. O local contempla até 15 apenados, que atuam no corte e na costura de máscaras faciais e na produção de mochilas, bolsas, patchwork, artesanato em madeira, crochê e tricô. A atividade foi criada para atender demandas de trabalho da população LGBTI.

“Com apoio do setor técnico, nós tivemos oportunidade de nos qualificar profissionalmente. Sou grato por recomeçar uma vida nova, que foi motivada dentro da cadeia”, frisou Cláudio.

“Acreditamos que a oficina é um meio concreto de viabilizar as práticas do tratamento penal, uma vez que, nesse espaço, eles podem exercer o diálogo, a reflexão e ainda trabalham o autoconhecimento. Dezenas de apenados já estão atuando em ofícios na rua, a partir do aprendizado que obtiveram no artesanato”, afirmou a psicóloga Juliana.

O apenado Diego disse que, após o cumprimento da pena, está mais seguro para atuar no mercado de trabalho. “Foi numa máquina de costura na oficina que vislumbrei um futuro. Apesar de não estar ainda exercendo o ofício, me sinto qualificado profissionalmente. Uma lição da cadeia veio comigo, o aprendizado. O esforço da psicóloga e da assistente social não foi em vão”, sinalizou.

Douglas disse que a equipe técnica, com sua habilidade para implementar as políticas de inclusão social, acabou por ensiná-lo a admirar o ofício da costura. “Depois que passei pela oficina, me sinto preparado para quando surgir um trabalho na área de costura agora. A lição que trago da cadeia para mim é o aprendizado”, contou.

Direitos fundamentais

Sobre o impacto dessas iniciativas sobre a população prisional LGBTI, a coordenadora de Atenção às Mulheres e Grupos Específicos da Seapen e da Susepe, psicóloga Débora Ferreira, explica que “a atividade é uma prática que garante os direitos fundamentais e a expressão das diferenças, além de possibilitar mudanças de cultura na sociedade contra as desigualdades e ações não inclusivas”.