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O que 2020 nos ensinou sobre as muitas faces da beleza – 16/12/2020

Como foi a sua relação com a beleza em 2020? Se descobriu no espelho? Uma nova você, sem todos os artifícios que normalmente somos levadas a usar e a acreditar que amamos? E olha que são muitos os rituais femininos aos quais adoramos nos entregar dia após dia.

Depilação com cera (Já tentou, boy? Faz uma vez só, pra ver como é. Pode ser na perna, no sovaco ou em algum recôndito mais obscuro e que julgue muito peludo). Cabelo e unhas feitos toda semana. Esfoliação corporal. Toda aquela preparação antes de sair de casa -arrumar o cabelo, escolher o look pra combinar com a bolsa, o longo e sagrado ritual de skincare e a maquiagem completa. Afinal, você não quer ser chamada de relaxada, né?

Daí tinha todo aquele arsenal de vida feminina: bolsa grande o suficiente pra caber nécessaire, itens de higiene bucal, escova de cabelo, bolsinha de remédios, estojo de costura (sim, já conheci pessoas que andam com um kit de costura na bolsa), agenda, lencinho umedecido, chaves, carteira. Bem mais que os garotos, certo? Ah, mas as mulheres são sempre mais preparadas. Além disso, precisam estar… “Larga de mimimi, Fabi!”

Mas é que também tem o lance da vaidade feminina, sabe? Nascemos assim, vaidosas. Numa retrospectiva, voltando à peruagem (sem ofensas): não é que este ano não teve salão, manicure e nem montação? Aí, a reclusão deu lugar a lindas histórias de aceitação, não é mesmo?

Cabelos brancos percebidos com pavor e depois acolhidos com certo carinho. Litros de base, quilos de sombra, quilômetros de cílios postiços deixados de lado e a redescoberta da própria pele, da própria cara. Um belo momento proporcionado por um período feio da história. Ah, as contradições e lições da vida.

A penteadeira foi pausada, porque, afinal, já não íamos mais a parte alguma… ou íamos? Será mesmo que todos tiveram as mesmas oportunidades de redescobrir o próprio rosto, meditar, curtir a casinha, mudar a decoração, entrar em crise, sair da crise, aprender a fazer pão?

Bem, talvez do lado de cá da ponte tenha sido assim. Mas, como sabemos, nosso país tem muitas faces e realidades avassaladoramente distantes.

Durante a pandemia, milhares de mulheres precisaram deixar suas casas para continuar trabalhando ou ir em busca de um novo trabalho. Segundo matéria do El País Brasil, sete milhões de mulheres deixaram o mercado de trabalho só no segundo semestre de 2020. A mesma matéria aponta que 50% das mulheres assumiram a responsabilidade de cuidar de alguém durante a pandemia.

Com as creches e escolas fechadas, muitas precisaram encontrar soluções sobre onde deixar os filhos. Contando com a rede de apoio de família e vizinhos, quando isso é possível, ou recorrendo a “mães crecheiras”, que, muitas vezes, acolhem mais de 25 crianças em suas casas, de acordo com a mesma matéria.

Essas mulheres, que muitas vezes usam o período da madrugada pra conseguir dar conta de todas as tarefas sob a própria responsabilidade, certamente têm uma relação muito diferente com a beleza.

Essa mágica descoberta da própria beleza e essência no espelho requer tempo, contemplação e algum espaço na cabeça pra deixar esses pensamentos fluírem. Provavelmente, achar tempo pra si é uma das últimas opções para algumas mulheres.

Talvez, o único momento contemplativo dessa mulher tenha sido quando ela se olhou no reflexo do vidro do trem, usando uma máscara, e percebeu a cara de cansaço e exaustão, pensando em como seria bom dormir um pouco ou só ficar quietinha, sem ter que fazer nada por um dia inteiro.

Quem já teve oportunidade sabe como é importante dar uma “morridinha” de vez em quando. Mas até pra morrer com decência é preciso ser privilegiada.

Então, pensando nesse momento da beleza em 2020, acho que tá mais que na hora de a gente parar de romantizar e falar como se todo mundo vivesse no mesmo castelo de vidro e estivesse enfrentando as mesmas dores, desafios e descobertas.

Não, não tô desmerecendo dores. Só tô querendo trazer pra mesa da beleza as muitas realidades que existem. Dois mil e vinte escancarou ainda mais as desigualdades, e é urgente que pensemos no coletivo, que a gente saia um pouco da bolha do privilégio e dê uma olhada ao redor.

Mais do que nunca, percebemos que quem vive com muito não precisa de tanto assim. Quem vive com pouco, por outro lado, precisa demais desse pouco e, pra isso, arrisca a própria vida e a vida de quem mais ama.