O menor amor do mundo (ou o banquete no codorna do feio)

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Pessoal, a situação é a seguinte: o poeta percebe aquilo que pulsa ao seu redor e usa das cordas (vocais e as da sua lira-guitarra) para traduzir em palavras o que vê e sente. Com o poeta carioca Rafael Zacca não é diferente. Seu olhar vai do sublime às agruras da vida. Dos anjos imortalizados em aquarela e pastel pelo pintor alemão Paul Klee (1879-1940) a uma acalorada discussão no Codorna do Feio, o tradicional boteco no Engenho de Dentro —  numa sagaz recriação (e, por que não, apropriação) de “O Banquete”, a obra-prima de Platão. Ora o poeta contempla a Grande Barreira de Corais da Austrália e, instantes depois, reverbera o pregão de ofertas no supermercado (aquele onde o menor preço é total). A exemplo do poeta Wally Salomão (1943-2003) – não por acaso uma de suas inspirações – tudo é chave de ouro para sua poesia. E Rafael Zacca nos prova isso em “O menor amor do mundo”, seu novo livro. A coletânea, a quinta obra de poesia do autor, chega às livrarias em outubro, pela 7 Letras.

O sampler revolucionou a indústria fonográfica em fins dos anos 1980. Tudo porque ele possibilitou o uso na música dos mais diversos fragmentos sonoros, fazendo com que os arranjos trouxessem trechos de gravações de outros artistas, compondo uma colcha musical que revela (muito) sobre aqueles que fazem uso desse recurso tecnológico. No âmbito da poesia, Rafael Zacca costura à sonoridade do seu discurso retalhos de influências pretéritas ou do agora. E tal estilo é marcante na sua nova coletânea, dividida em três (p)artes.

A primeira delas é justo a que dá título à coletânea. Ela é composta por 11 poemas inspirados nos anjos criados por Paul Klee. Nos textos, o poeta ora pinta seus minianjos de forma a destacar suas características ou idiossincrasias, ora dá voz para que falem (e mostrem-se ) por eles mesmos.  A inspiração pode ser pictórica, uma vez que veio de Klee, mas o resultado estabelece diálogos com outros anjos, como os do poeta Rainer Maria Rilke (1875-1926), ou mesmo com o “Pequeno oratório do poeta para o anjo”, da poeta brasileira Neide Archanjo.

“Todos esses nomes pássaros estranhos” é a segunda parte da obra. Nela o leitor encontrará nove textos nos quais o poeta direciona sua mirada para situações que remetem à sua formação como indivíduo. Logo no primeiro poema, Zacca traz à baila o mito chinês do galo celestial, que canta três vezes ao dia, e reivindica para si tal “título”. E tal pleito não é da boca para fora. O poeta canta – e incomoda – não por ter a voz esganiçada, mas por esgarçar a (própria) voz e aquilo que canta.

Considerações sobre Eros e Thanatos — personificações do Amor e da Morte, respectivamente – dão a tônica da última parte da coletânea, “O banquete no Codorna do Feio”. A alusão a “O Banquete” platônico não é em nada aleatória. O texto clássico tem início com o encontro casual entre Falerino e Apolodoro, quando o primeiro pede para saber sobre os discursos proferidos na casa de Agatão, onde sucedeu o banquete em questão. Da mesma forma que Mario de Andrade escreveu seu Banquete, ambientando-o na São Paulo do século XX, Rafael Zacca reúne 11 personagens num botequim da Zona Norte do Rio de Janeiro, onde a chapa ferve. Através deles, Zacca homenageia figuras reais, como é o caso de Victor, inspirado no poeta e romancista Victor Heringer, seu companheiro de geração, morto em 2018. E a correlação entre sampler e poesia tem nessa parte do livro seu ápice. Nos discursos misturam-se trechos autorais a passagens bíblicas (Eclesiastes), falas teatrais (“Antígona”, de Sófocles), fragmentos de letras de música (do pagode a Beatles) e trechos de poetas como Gertrude Stein (1874-1946) e Waly Salomão, que tem recriada a frase “A memória é uma ilha de edição”, entre outros muitos exemplos.  E o resultado é mais que inventivo; surpreendente.

Em “O menor amor do mundo” Rafael Zacca percebe o tanto que há de azul no mundo — e sabe o que fazer com ele.

O autor:

Rafael Zacca (foto: Ana Luiza Rigueto)
Rafael Zacca (foto: Ana Luiza Rigueto)

Rafael Zacca é poeta e professor universitário. Doutor em filosofia pela PUC-Rio, é professor no departamento de Filosofia da mesma instituição e professor substituto no departamento de Ciência da Literatura do Instituto de Leras da UFRJ. Estreou na Literatura com “Kraft” (Cozinha Experimental, 2015) e é autor também de “Mini Marx” (7Letras, 2017),  “Mega Mao” (Caju, 2018)  e de “A estreita artéria das coisas” (Garupa, 2018) . Coordena oficinas de criação no Coart/UERJ e na 7Letras. Foi co-organizador do coletivo Oficina Experimental de Poesia, através do qual publicou o “Almanaque Rebolado” (várias editoras). Como crítico, colabora com o jornal Rascunho e assina, na revista “Pessoa”, a coluna “Como prática da liberdade”, sobre arte, educação e política.

O menor amor do mundo
Autor: Rafael Zacca
7 Letras
Poesia
107 páginas, R$ 37
ISBN 978-65-86043-88-4