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O melhor amigo do homem também já foi cobertor de lã

Oito anos atrás, Tessa Campbell ouviu uma história genuína sobre um cachorro peludo. Em 2012, Wayne W. Williams, um ancião das tribos tulalip, estava doando material para o Centro Cultural Hibulb, localizado na reserva tribal, no estado de Washington. Ele disse a Campbell, curadora sênior do museu, que sua doação incluía um cobertor feito com lã de cachorro.

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Os tecelões que o examinaram não estavam convencidos e suspeitavam que fosse lã de cabra-montês. Mas o exame sob um microscópio eletrônico na Universidade de Victoria, na Colúmbia Britânica, em 2019, confirmou o que Williams, que morreu em 2017, tinha dito: o cobertor, datado de cerca de 1850, continha lã de cachorro, dando credibilidade às histórias de tradição oral dos povos indígenas salish da costa sobre um cão especial que foi mantido por muito tempo e criado por causa de sua lã.

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Um estudo publicado no mês passado no “Journal of Anthropological Archaeology” acrescenta provas da indústria que produziu essa lã de cachorro, bem como suas antigas raízes. A análise de Iain McKechnie, zooarqueólogo do Instituto Hakai, e duas coautoras que examinaram dados coletados ao longo de 55 anos de mais de 16 mil espécimes da família dos cães em todo o noroeste do Pacífico, sugere que a grande maioria dos ossos de canídeos de 210 sítios arqueológicos da costa do Pacífico, do Oregon ao Alasca, não era de lobos selvagens, coiotes ou raposas. Era, em vez disso, de cachorros domesticados, incluindo cães peludos de pequeno porte que foram mantidos por conta da sua lã.

Embora as culturas indígenas do noroeste do Pacífico sejam muitas vezes associadas à tradicional pesca de salmão, baleia, arenque e mariscos, sua criação de animais em terra é menos conhecida. O estudo destaca a criação subvalorizada de animais – especialmente cães – com a finalidade de fornecer lã.

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Uma das coautoras de McKechnie, Susan Crockford, estuda ossos caninos em sítios arqueológicos há muitos anos. A partir dos anos 90, ela observou que os restos mortais de cães domesticados do noroeste do Pacífico eram de duas categorias com tamanhos distintos – grandes e pequenos. Mas distinguir cães de caça de seus primos selvagens pode ser difícil, e a maioria dos espécimes de estudos anteriores de zooarqueologia do noroeste da Costa do Pacífico não tinha identificação das espécies, de acordo com Madonna Moss, outra coautora da Universidade do Oregon.

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Pele de um cachorro, coletada em 1859

(Foto: )

Ao rever vários estudos anteriores, a equipe descobriu que a Colúmbia Britânica era um importante local de pré-contato para cães domésticos. E, na costa sul da Colúmbia Britânica, os cães menores que teriam pelo lanoso superavam os cães de caça maiores e “pareciam uma parte persistente e de longo prazo da vida da comunidade indígena nos últimos cinco mil anos”, explicou McKechnie.

Esses cães de pelo lanoso, com altura que chegava ao joelho, não eram penteados como os cachorros de hoje em dia, mas tosquiados como ovelhas.

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De fato, relatos de diário de um posto de comércio de peles da Hudson’s Bay Company de Fort Langley, na Colúmbia Britânica, no início do século XIX, descreviam canoas da tribo cowichan que estavam cheias de “cães mais parecidos com cordeiros Cheviot tosquiados de sua lã”.

Os povos cowichan do leste da Ilha de Vancouver são reconhecidos até hoje por seus produtos têxteis. Lydia Hwitsum, ex-chefe cowichan eleita, contou que aprendeu tecelagem tradicional com sua mãe, que lhe explicou que a lã canina foi historicamente incorporada à fabricação de fios “para tornar as fibras ainda mais fortes”.

Com a colonização, porém, vieram os têxteis importados. A demanda pela lã desses pequenos cães brancos caiu, seu número diminuiu e acredita-se que a raça não exista mais. O conhecimento detalhado da indústria da lã de cães se perdeu há muito tempo. Mas um conjunto crescente de provas científicas sugere que seu uso já foi comum.

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Caroline Solazzo, pesquisadora do Instituto de Conservação do Museu Smithsonian, testou 11 cobertores antigos dos salish da costa à procura de sinais de lã de cães. Ela os encontrou em sete dos espécimes. E dos 47 cobertores microscopicamente analisados por Elaine Humphrey na Universidade de Victoria, apenas três não continham lã de cachorro.

Depois de “dez anos de trabalho árduo” por meio de dados obtidos de pilhas misturadas de ossos de cão, McKechnie afirmou que sua equipe encontrou provas de relacionamentos profundos entre as comunidades indígenas costeiras e os cães domésticos, destacando sua indústria da moda de cinco mil anos que dependia das raças lanosas do melhor amigo do homem.

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Carly Ameen, bioarqueóloga e especialista em cães da Universidade de Exeter, na Inglaterra, que não esteve envolvida no estudo de McKechnie, comentou que essas novas identificações de ossos antigos são “difíceis de validar objetivamente”. Disse, no entanto, que o estudo é um excelente caso para explorar a grande quantidade de dados sobre cachorros já disponível.

“Se vamos descobrir provas mais diretas desses cães lanosos e de outros ‘tipos’ de cães nas Américas, não será tanto mediante a escavação de novos restos mortais, mas por meio da investigação detalhada de coleções bem registradas e conservadas como esta”, afirmou ela.

De volta à reserva dos tulalip, a descoberta do cobertor de Campbell revigorou toda a comunidade para despertar a antiga tecelagem têxtil dos salish da costa. E quanto ao conto incomum de cães criados para fornecer lã, isso é um fio que ainda está se desenrolando.