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O Detective (1932-1936) de Mário Domingues – Blog Ceará Máquinas



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Uma aldeia de fulas da Guiné, recriada no Parque Eduardo VII, em 1932 – mais do que um caso de jardim zoológico de humanos – , deu uma lição de civilização. Os muitos milhares de visitantes brancos ficaram embasbacados, argumentou-se, porque “os fulas estão dando aos brancos, com a sua cordura, lições de civilização…”

O Detective

Diogo RAMADA CURTO

Uma aldeia de fulas da Guiné, recriada no Parque Eduardo VII, em 1932 – mais do que um caso de jardim zoológico de humanos – , deu uma lição de civilização. Os muitos milhares de visitantes brancos ficaram embasbacados, argumentou-se, porque “os fulas estão dando aos brancos, com a sua cordura, lições de civilização…”

Em 1932, o escritor e jornalista Mário Domingues considerava que ia longe o aperto que a polícia, comandada por Ferreira de Amaral, em Lisboa, tinha dado ao consumo da morfina, cocaína, ópio e outros alcaloides. Em certos cafés e dancings voltara-se a consumir “às escâncaras e com uma intensidade talvez superior à antiga”. Lá longe, sabia-se que a Inspecção dos Serviços Económicos de Macau fizera uma apreensão de mais um milhão e quinhentas mil pílulas de cocaína. O Frankfurter Zeitung publicara, também, uma enorme reportagem sobre o mesmo comércio ilícito. Shangai, Hong-Kong e Macau eram os principais entrepostos do tráfico. Neste quadro, impunha-se o retorno à repressão nos cafés, casinos e casas suspeitas, bem como a criação de uma clínica para os intoxicados.

Nas páginas do semanário intitulado Detective (Janeiro 1932 – Outubro 1936, 106 números), dirigido pelo são-tomense, educado no colégio francês de Lisboa, Mário Domingues, tais denúncias surgiam a par de outras reveladoras de um interesse pela boémia e vida noturna de Lisboa. Entre a espreitadela voyeurista ao mundo da noite e o juízo que a condenava, Domingues revelou que os seus conhecimentos eram os de um frequentador desses meandros. Ao ambiente de cabarets, dancings e pensões, surgia associada a prostituição, cujos responsáveis eram considerados “nojentos negociantes de carne branca”.

Entre a variedade de temas tratados no jornal por ele criado e onde tanto escreveu, as suas reportagens e inquéritos ocuparam lugar de destaque. A loucura e os hospitais de loucos apresentavam-se como um dos temas de eleição. O mesmo sucedia com os estabelecimentos prisionais. Ele próprio deixou-se prender, para contar a história dos calabouços de Lisboa e da fauna que os frequentava.

A condição de vida das classes laboriosas, mas sobretudo dos pobres, que não tinham casa, constituiu outro dos filões explorados em várias reportagens. Nelas, Mário Domingues fez-se fotografar ao lado de vadios, na Mitra, em tabernas e albergues. Noutros casos, vestiu a pele de trabalhadores subalternos, como sucedeu com o caso dos ardinas. Entrou, sempre como anónimo, na vida dos mercados de Lisboa, para indagar acerca dos furtos ali cometidos. Impressionantes são os seus inquéritos acerca da miséria dos bairros de lata, junto ao Cemitério do Alto de S. João ou perto do Hospital do Rego.

Envolveu-se, igualmente, num grande inquérito à indústria em Portugal. O projecto era claro, ao lado das campanhas de saneamento moral, que punham a nu crimes e injustiças, era necessário levantar as fontes das actividades comerciais e industriais. Na promoção deste nacionalismo económico, denunciou os desvios aos interesses do Estado português, nas suas colónias, nomeadamente em Angola.

Entre crimes, criminosos, gangsters, burlões, salteadores e outras figuras de delinquentes, estavam os que enriqueceram por burlas e falsificações. Assim se compreende a denúncia do roceiro Henrique Monteiro de Mendonça que se apossara da roça Santa Teresa, em S. Tomé – uma propriedade “engenhosamente palmada” à viúva do são-tomense Manuel do Sacramento Meneses. Sobre a Companhia Nacional de Navegação e o modo ilícito de conduzir alguns negócios – com contas erradas, que lesavam tanto os accionistas, como o Estado – , multiplicaram-se as notícias. O furto de uns milhares de contos à Mundial por Eduardo Plácido foi tido como um autêntico conto do vigário – um tema, aliás, sobre o qual Fernando Pessoa já tinha escrito. Denunciaram-se, também, agiotas como Jorge Pimentel. Contudo, um dos casos que mais ocupou Mário Domingues foi o do advogado João de Castro Osório, cuja adesão ao fascismo era pública e notória desde o início da década de 1920. Envolvido em vários escândalos com os seus clientes, o Detective apresentou-o como um autêntico caçador de heranças. Assim acontecera com os bens da Morgada da Apariça e, de forma mais geral, com a personalidade criminosa do mesmo figurão.

A lista de notícias, entrevistas e figurões que encheram as páginas do Detective requer uma análise sistemática do mesmo semanário, num período que coincidiu com a instalação do Estado Novo e passou pela Constituição de 1933. Oriundo do anarquismo e colaborador do jornal A Batalha, Mário Domingues representou bem uma das vozes da dissensão ao autoritarismo crescente. Trata-se de uma hipótese discutível pelo simples facto de se reconhecer que, afinal, a dissidência era possível nos inícios do salazarismo, ainda por cima protagonizada por um negro são-tomense.

Será que Domingues – sob a capa de um interesse pela polícia, pelas instituições carcerárias e de beneficência ou pelas políticas de controlo social – o que procurava era traçar o retrato realista dos mais desfavorecidos? Sobretudo, as suas entrevistas, que o levaram a entrar nas prisões, a trabalhar em profissões consideradas baixas ou a comportar-se como um pobre, funcionaram – no vocabulário actual tão em voga – como uma forma de dar voz aos que normalmente não a tinham? Os seus retratos e, sobretudo, os seus ataques aos membros de uma elite que prevaricava e tinha de ser castigada poderão ser considerados como uma crítica a um regime político ou, apenas, como modo de denunciar os que se acolhiam à sombra do mesmo?

São perguntas a que só uma investigação mais sistemática poderá responder, a qual terá, igualmente, de se ocupar de muitas outras notícias dadas pelo Detective. Por exemplo, por que razão se multiplicaram os artigos sobre espionagem internacional, bem como sobre o trabalho empreendido pela polícia de investigação? Ao construir pontes com os agentes policiais, procuraria Domingues estabelecer com eles uma aliança que lhe permitisse continuar a indagar sobre as condições de vida dos mais pobres e subalternos?

Quanto às notícias sobre os judeus e as perseguições de que começavam a ser alvo na Alemanha nazi, como interpretá-las? Seriam elas uma simples defesa antirracista, por parte de quem sentia na pele modos de discriminação idênticos? Ou uma tentativa para modelar o regime de Salazar, apartando-o do racismo nazi? Será que os mesmos efeitos pedagógicos estiveram presentes nas notícias que Domingues escreveu acerca de Hitler, Trostky, Staline e muitos outros?

Claro que há muitos outros aspectos que uma história sistemática do Detective terá de ter em conta. A prolixidade de Mário Domingues, que ocupava, cada semana, várias páginas do jornal, levou-o a recorrer por vezes a pseudónimos, outras vezes a inventar papéis e identidades para si próprio. Foi o que sucedeu quando se fez retratar – numa montagem fotográfica – como bailarino e artista num vôo de trapézio.Haverá também que considerar o elenco dos seus colaboradores. Alguns deles, seguiram-lhe as pisadas, inquirindo sobre as condições da cadeia do Porto. Outros envolveram-se em inquéritos ao desporto, nomeadamente ao box.

Entre centenas de colaborações, há um artigo que merece uma leitura atenta, pois convida a uma reflexão sobre o que é o lugar de fala, associado a grupos subalternos ou alvo de discriminação. Mesmo que não tenha sido assinado por Mário Domingues, foi com certeza por ele aprovado, uma vez que o seu significado correspondia a muitos dos seus artigos sobre questões coloniais, escritos, na década de 1920, para o jornal A Batalha. Trata-se de uma notícia sobre a Exposição Industrial Portuguesa de1932, que teve lugar em Lisboa, no Parque Eduardo VII. Leonardo Sintra, autor do artigo, considerou-a, sem

sombra de dúvida, a manifestação mais brilhante da vitalidade industrial da nação portuguesa. O nacionalismo económico foi, assim, posto em destaque. O edifício principal era uma réplica do que fora construído para Exposição do Rio de Janeiro, em 1922.

Sob a capa de uma série de elogios, o autor formulou algumas críticas contundentes. Primeiro, a qualidade dos produtos industriais portugueses ali expostos – massas alimentícias, minérios metropolitanos e coloniais, produtos de joalharia e ourivesaria de enorme bom gosto, materiais de construção fabricados em Angola – demonstrava que “Portugal, desprezando o que tem em sua casa, se tem arruinado cegamente com o que de mau importa do estrangeiro”. A mensagem favorável a um nacionalismo económico era clara.

Segundo, o objecto de maior atracção no Parque Eduardo VII não foram as maravilhas expostas, reveladoras dos progressos da indústria portuguesa. O que mais atraiu os visitantes e fez com que desembarcassem em Lisboa inúmeros forasteiros foi “o desejo de devassar indiscretamente a vida misteriosa dos africanos na sua terra natal”. É que a Agência Geral das Colónias transplantara para ali “uma pequena aldeia de pretos fulas”. O afluxo por ela causado foi tão impressionante que, num domingo, a Exposição recebeu cerca de 40.000 visitantes. Para o autor do artigo, uma tal aglomeração de curiosos impedia que se conseguisse ver “a aldeia com a sua feição normal, tal como seria na própria Guiné”.

Se, à primeira vista, o que estava em causa nessa aldeia dita indígena era mais um caso de jardim zoológico de humanos – fundado num sentido racista de superioridade dos visitantes em relação aos habitantes da aldeia africana que estava em curso desde a segunda metade do século XIX – , a crítica formulada por Leonardo Sintra ia no sentido inverso. Os termos do artigo estabeleceram uma autêntica reversibilidade: “os pretos parecem pouco assombrados com a civilização dos brancos. Acontece com estes precisamente o que deveria acontecer com aqueles. Os pretos não se assombram, os brancos é que embasbacam. Os pretos vão fazendo, tanto quanto lhes permite a multidão indiscreta, a sua vida habitual”.

A aldeia seguia, então, o seu ritmo. Respeitava as hierarquias encimadas pelo príncipe e pelos sobas, bem como o trabalho dos operários que, com perícia, bordavam, faziam de ourives ou de sapateiro. Um deles, muçulmano, sentado à porta da sua palhota, era capaz de manejar a agulha com a mão esquerda e bordava, como não seria capaz de fazer uma máquina de costura. As mulheres que passavam ficavam espantadas. Neste sentido, argumentava-se: “os fulas estão dando aos brancos, com a sua cordura, lições de civilização…”

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Fonte www.wort.lu

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