Não quero adormecer João e acordar Joaquina – Social

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Em 2015, João Rôlo foi convidado a mostrar as suas criações na Fashion Week de Monte Carlo e entrou no mercado internacional do luxo. Russas e árabes passaram a ser as suas melhores clientes. E muitas estrelas internacionais passaram a usar os seus vestidos, cheios de plumas, bordados, lantejoulas, pérolas e cristais, nas maiores red carpets do mundo – o Daily Mail chamou-lhe “o costureiro mais desejado pelas celebridades”. Com 56 anos e 35  de carreira, o estilista – que perdeu o pai no dia do funeral da mãe – diz que não é megalómano, nem movido pelo dinheiro ou pelo ego.

Foi o primeiro e o único estilista português a entrar para a Federação de Alta-Costura da Ásia, de que fazem parte Kenzo e Jean-Paul Gaultier. Como conseguiu?
Há cinco anos, fui convidado pelo Kenzo para entrar na Federação da Alta-Costura da Ásia, de que ele é presidente honorário, e a seguir convidaram-me para estar na Fashion Week de Monte Carlo, onde tive bastante sucesso. E quando falo em sucesso, as pessoas não têm noção. Como os desfiles foram no Museu Oceanográfico, fiz 20 peças inspiradas no mar, em branco e coral, com bordados dourados, lantejoulas, corais verdadeiros, pérolas de água doce e cristais Swarovski.

Foi aí a sua internacionalização?
Sim, entrei na bolha do Mónaco, o que é muito difícil, com uma coleção que era sofisticada, mas light. Quando o meu desfile acabou, as influencers invadiram os bastidores para verem os meus vestidos e saberem quem eu era. A partir daí, comecei a ter imensos contactos. Foi a minha entrada no verdadeiro mundo do luxo. O que me fascina é fazer espetáculo com a roupa.

As estrelas internacionais é que vão ter consigo para as vestir?
Sim, nunca paguei a nenhuma. Elas levam os vestidos para as red carpets, mas são emprestados.

Quanto pode custar um vestido desses?
Nunca menos de 5.250 euros e pode ir aos 25 mil. Alguns, de noiva, chegam aos cento e tal mil euros.

Quem os compra?
O Médio Oriente é o grande mercado. Lá, dão muita importância ao peso do vestido, ou seja, um vestido de noiva nos Emirados Árabes tem de pesar 20 quilos para cima porque significa que tem muitos bordados e cristais. Uma criação dessas é toda feita à mão e demora semanas. Fiz um vestido com 75 mil cristais, colocados um a um com uma pinça.

Qual é a vantagem de vestir Teresa Guilherme no Big Brother?
Faço-o por amizade. Dá-me visibilidade, mas à segunda-feira tenho senhoras a ligar para o ateliê a perguntar quanto custa o vestido da Teresa e eu digo que custa 3 mil e tal euros e elas dizem “aahhhh, eu só queria gastar 600…”. Em Portugal, não consigo vender um vestido por menos de 2.250 euros.

As clientes estrangeiras quando vêm a Lisboa procuram-no?
Sim, já aconteceu ligarem-me dos hotéis a perguntar se posso receber clientes russas ou árabes. Há tempos, esteve aqui uma das Filipinas, que mora em Sydney, na Austrália, e é casada com um chinês multimilionário. Gastou 48 mil euros em vestidos. Mandou-os fazer porque tudo o que tenho aqui é só para desfiles. Mostrei-lhe desenhos e ela disse, “quero este, mais este e aquele”. Um deles era para o seu aniversário, a que fui a convite dela.

Gosta de festas?
Já gostei mais. Aqui, só vou mesmo às de pessoas chegadas. Prefiro ficar em casa com a minha Tita [uma cadela chiuaua].

Quantas pessoas trabalham consigo?
Seis costureiras. Não tenho um grande volume de vendas… porque os vestidos não são baratos. Sempre tive uma estrutura mais pequena do que a imagem que passo, pelo impacto das minhas peças. Lá fora, nas grandes casas de alta-costura, se soubessem que trabalho num espaço de 135 m2, com meia dúzia de costureiras, ninguém acreditava.

Em junho, abriu a sua primeira loja no estrangeiro, na marina de Puerto Banús, Espanha. Quem são lá as suas clientes?
São sobretudo árabes, a minha loja está ao lado de marcas como a Hermès e a Dior. Em agosto do ano passado, só via as minhas clientes árabes a pôr coisas de Puerto Banús, e pensei: “O que é que esta gente que é multimilionária vai fazer para Marbelha?” Decidi lá ir e quando cheguei a Puerto Banús as pessoas na rua queriam tirar fotografias comigo.

Como é que o conhecem?
Das redes sociais. Os meus seguidores, que não são comprados, é tudo pessoas do Médio Oriente e da Rússia. Vesti algumas celebridades para o Festival de Cannes e passados cinco minutos tinha as donas de lojas de alta-costura do Mónaco a contactarem-me para me representarem.

Já teve oportunidade de mostrar as suas criações às princesas do Mónaco?
Ainda não, mas não é impossível porque já sou conhecido no Mónaco e as minhas peças estão na melhor loja de Monte Carlo. Dou-me muito bem com a Pauline, filha da princesa Stéphanie, que também é estilista. Ela pôs um like num vestido meu e começámos a falar online.

Qual é para si a mulher mais elegante do mundo, aquela que gostaria de vestir?
Há uns anos, era a Isabel Preysler e a Naty Abascal [duquesa de Feria], que hoje é minha amiga. Ainda não aconteceu vesti-la porque ela diz que tem de ser num evento muito especial. Hoje, a sheikha Mozah do Qatar é a mulher que mais me fascina, é fabulosa, o protótipo de chique.

Que celebridade portuguesa lhe falta vestir?
Não tenho… Em Portugal não há celebridades, nem influencers. Trabalho com influencers estrangeiras, que usam uma peça minha e a seguir tenho cinco mil mulheres árabes milionárias a enviarem-me mensagens. O Daily Mail publica imensas coisas sobre mim, chama-me “o costureiro mais desejado pelas celebridades”. As pessoas cá não sabem ser celebridades.

Não tem planos para abrir uma loja em Lisboa?
De todo. Portugal não é o meu mercado, com muita pena minha, e não tenho capacidade para fazer prêt-à-porter, como no início da minha carreira. Em 1985, abri a minha loja no Centro Comercial City e tive imenso sucesso porque as minhas coisas eram diferentes. Hoje, para fazer isso tinha que ter outra estrutura. Fujo das coisas megalómanas, prefiro fazer o que me realiza. Já tive pessoas que quiseram investir na minha marca, mas não é o dinheiro que me move, nem o ego. Tudo o que faço tem de ser por amor.

Foi uma criança que recebeu amor?
Muito. Sou o mais novo de três irmãos e fui sempre muito protegido, sobretudo pela minha mãe e acho que os meus pais fizeram de mim um homem bem formado. Tento não magoar os outros… Quem não gosta de mim ou não me conhece ou é má pessoa.

O que é que os seus pais faziam?
O meu pai era militar, a minha mãe era doméstica e trabalhava como modista, o que me fascinava imenso.

Em miúdo queria ser o quê?
Primeiro queria ser professor de Trabalhos Manuais e depois decorador porque sempre fui muito esteta. Numa época em que não havia acesso a nada. Morávamos no Bairro da Encarnação e tínhamos uma vizinha hospedeira que nos trazia revistas estrangeiras. Em casa, ainda muito miúdo, mudava tudo. Por duas vezes, o meu pai abriu a porta e pensou que se tinha enganado.

Foi um adolescente problemático?
Nada, sempre fui muito totó. O meu pai era militar e tínhamos uma série de regras em casa. Por exemplo, não podíamos andar de tronco nu ou ir para a mesa de pijama.

Estudou o quê?
Fui para a António Arroio fazer o curso de Equipamento de Interiores, mas era tudo muito teórico e não gostei nada daquilo. Mudei para Engenharia Têxtil e adorei. Também faço pintura moderna. O Hotel Rossio Garden, em Lisboa, tem 56 obras minhas nos quartos.

Porque deixou de fazer roupa para homem?
Adoro fazer roupa de homem, mas para isso precisava de ter uma estrutura de fábrica. Só faço os meus fatos de gala. Por acaso, ontem, assim do nada, formou-se na minha cabeça uma coleção de homem linda, com a temática de Lisboa. Vi o desfile no Palácio Foz e tudo!

Pretende avançar com a coleção?
Eu quero. E vai ser uma coisa nunca vista em Portugal, com azulejaria, tudo muito barroco. Eu sou muito barroco, acho que deve ser influência de vidas passadas…

Acredita nisso?
Piamente! Neste momento, estamos a começar uma nova Era da Terra. A nossa energia tem estado a ser manipulada. As pessoas estão desejosas de que tudo volte ao normal, mas nada vai ser como antes. Ninguém tem noção.

Continua a viajar mesmo com a pandemia?
Não porque não há para onde ir. Vou à minha loja em Espanha, de carro, porque não há voos suficientes. E terei de ir a Paris este mês, em trabalho. Mas não tenho medo nenhum da Covid.

Não?
Não. Porque este vírus não entra numa pessoa que esteja numa vibração alta. Como é que isso se consegue? Simples: fazendo meditação, tentarmos ser boas pessoas, honestos e ter uma boa alimentação. Agora já há muita gente recuperada porque a nossa vibração, a energia do amor, já é muito mais forte do que o vírus. Isto são informações de estudos científicos de estruturas internacionais, não são bruxarias nem coisas do Além. Acredito que teremos uma vida com muito mais qualidade, amor e amizades verdadeiras.

Quem são os seus verdadeiros amigos?
Tenho bastantes, embora os selecione porque deteto as boas e as más pessoas à légua. Hoje tenho um jantar em minha casa com três grandes amigas, ex-manequins, uma delas é a Marisa Nogueira, irmã do Bruno Nogueira, que conheço desde pequeno. Depois, a Fátima [Lopes], a Nanda [Fernanda Serrano], a Mariza e o Nuno Guerreiro são mais do que amigos, considero-os família.

Em 2018, perdeu os seus pais com um dia de diferença. Como viveu esse duplo desgosto?
Não conseguiria aceitar se não estivesse espiritualmente preparado. O meu pai estava bem e morreu de desgosto no dia do funeral da minha mãe. Ela tinha 88 anos e estava com um princípio de demência, foi internada e faleceu. O meu pai já tinha 89 e não quis ir ao funeral por estar um pouco constipado. Ele não queria era ir e sofreu tudo para dentro. No fim do dia, fomos lá para casa, ele dizia que tinha um aperto no peito, foi ao hospital por uma questão de segurança, mas não resistiu. Eu estava a preparar uma coleção para um desfile em Espanha e agarrei-me ao trabalho, o que me ajudou imenso.

Está financeiramente confortável?
Estou estável, até quando não sei. Esta crise é diferente de todas as outras porque não há festas e a alta-costura está a levar um abalo enorme. Neste mercado do luxo, não falta dinheiro, não há é ocasiões para roupa de festa. Se amanhã o vírus acabar, tudo se retoma.

Nunca quis constituir família?
Adoro crianças e as crianças adoram-me, mas gosto de poder devolvê-las [risos]. Educar uma criança é um ato tão racional e de tanta responsabilidade que eu não aguentaria falhar. Acho que foi isso que sempre me fez protelar. No fundo, gostava de deixar a continuação do meu ADN e tenho pena de não ter feito doação de esperma, pelo menos sabia que haveria descendência minha por aí.

A quem vai deixar a sua herança?
Não penso nisso e arrepia-me falar em testamento. Segundo uma leitura da alma que me fizeram, vou morrer velhinho. Acho que irei trabalhar mais 10 ou 15 anos, até aos 70 e depois vou ensinar, que é uma missão que me falta cumprir.

Em que gasta o dinheiro?
Não sou nada de extravagâncias, mas gasto em viagens. Detesto viajar sozinho, costumo ir com amigas ou com a minha irmã e o meu cunhado.

Tem cuidados com a imagem?
Já tive mais. Quando começamos a perceber o que é este mundo, há tanta coisa que deixa de fazer sentido… Não ligo nenhuma a marcas.

Mas esses sapatos são Gucci.
Porque gosto deles. Se vir uns sapatos de 20 euros que goste, também os compro. Gosto de peças muito bem feitas. Às vezes, quando compro alguma coisa, chego a casa e fico ali a cortar linhas e pequenas imperfeições.

Pratica algum desporto?
Fiz ginásio durante muito tempo, mas agora não porque tenho calcificações na coluna, que estou a tratar com um quiropata canadiano.  E faço infiltrações de plasma marinho, com água tirada a 3 mil metros de profundidade, para regenerar os tecidos.

Faz dieta?
Ando sempre em dietas. Era muito magro até descobrir o prazer da comida e já tive mais 24 quilos do que tenho hoje. Há dois anos, antes de ser operado à vesícula, andei a comer tostas com compota durante seis meses porque não suportava mais nada no estômago. Depois da operação, fiquei excelente e voltei a comer de tudo.

O cabelo é a sua imagem de marca.
Vivo muito do meu cabelo. Se não está como eu quero, mudo radicalmente. Adoro cuidar do corpo e da pele, mas tenho pavor da cirurgia estética. Não quero adormecer João e acordar Joaquina


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