“Mulheres Empreendedoras” promovem negócios em Viana | Sociedade | Jornal de Angola

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Fula Martins

Aos 58 anos, Conceição Branco sente-se realizada por constar do grupo de 44 mulheres que em meados do mês de Setembro concluiu a formação em corte e costura, empreendedorismo e agricultura, no âmbito do projecto “Mulheres Empreendedoras”.

Desde Julho de 2018, mais de 130 mulheres residentes no distrito da Estalagem, em Viana, receberam formação em corte e costura, empreendedorismo e agricultura.
Fotografia: Edições Novembro

Com o conhecimento adquirido, tia Conceição, conforme é carinhosamente tratada pelas colegas, acredita vir a torna-se uma empresária de sucesso no futuro e melhorar a condição de vida da sua família. “Não importa a idade, basta apenas ter força de vontade, crença e fé que se consegue atingir grandes patamares na vida”, realçou.

Conceição Branco, sem conseguir conter a emoção, agradeceu a Organização Não-Governamental Ajuda para o Desenvolvimento de Povo para Povo (ADPP), a Paróquia da Boa Nova e todos que contribuíram para a realização do curso, e pediu às mulheres a nunca desistirem dos seus sonhos, ainda que encontrem barreiras pelo caminho.

“Não podemos só esperar o esforço do Governo ou acções de caridade, devemos ter iniciativas para ajudar na reconstrução do país”, disse Concei-
ção Branco, salientando que para frente é o caminho. A mesma alegria foi visível no rosto de Auria Pedro, 22 anos. A jovem que vê na formação o impulso que faltava para iniciar o próprio negócio, manifestou interesse em ensinar o que aprendeu a outras jovens e explicou que em nenhum momento pensou em desistir, não obstante as dificuldades durante o curso.

A desistência também nunca esteve no pensamento de Celestina Sebastião, 43 anos, que, entre outros passos, tenciona abrir um atelier de costura. A longa experiência em decoração, segundo disse, serve-lhe de incentivo para seguir em frente. “Apelo a ADPP para que não deixe de realizar eventos dessa natureza. Muitas de nós nunca tiveram formação em artes e ofício e será uma mais valia para o nosso futuro profissional”, disse Celestina Sebastião. 

Bruna Madureira, também recém-formada, alinha no mesmo discurso e vai mais além. Considera que o projecto “Mulheres Empreendedoras” pode contribuir para que muitas mulheres abandonem práticas negativas como o consumo excessivo de bebidas alcoólicas e a prostituição. A par disto, referiu que pode também ajudar no combate ao elevado índice de desemprego, de pobreza e relançar a actividade profissional no distrito da Estalagem, particularmente, e no município de Viana, de forma geral.

“Infelizmente, Viana carece de pequenas e micro-empresas para absorver a maioria da juventude que está de-sempregada”, afirmou Bruna Madureira, adiantado que vai trabalhar para criar o próprio negócio e, quiçá, ajudar outras pessoas na luta pela conquista do seu sustento.

Transmissão dos conteúdos alvo de elogios

As finalistas do recém-terminado ciclo de formativo foram unânimes em afirmar os que formadores tiveram excelente desempenho na transmissão dos conteúdos dos cursos. Isabel Paulo Neto reforça esta ideia. Residente no Seis Cajueiros, soube da formação pela publicidade afixada no bairro onde vive. De imediato contactou o centro e fez a inscrição.

“Fui com algumas dúvidas, mas no fim da primeira semana tive certeza das vantagens. Penso que a capacidade dos formadores na transmissão do programa foi valiosa”, disse Isabel Paulo Neto, que no final recebeu o certificado profissional com o título de costureira. Com Joana Salussinga não foi diferente.

Confessou que o primeiro

mês foi difícil de digerir, pois há duas décadas que não sabia o que é estar sentada numa sala de aula. Admitiu que pensou em desistir, mas, felizmente, a motivação dos formadores permitiu superar o desafio. “Não tinha noção das coisas. Com o decorrer do tempo fui-me aperfeiçoando e conclui a formação com êxito. Gostei de fazer o curso de decoração”, disse orgulhosa.

Reforço da economia doméstica

O representante da ADPP, Victor Sérgio Joaquim, elogiou a parceria com a Igreja Católica na cedência do espaço e disse que “Mu-lheres Empreendedoras” decorre da necessidade de apoiar o segmento feminino residente no distrito da Estalagem a melhorar a economia doméstica. “Essa parceria vai continuar e esperamos que seja por muito tempo para benefício da comunidade”, disse Victor Sérgio Joaquim, tendo sublinhando o financiamento atribuído pelas empresas associadas no Bloco 15, através da ExxonMobil.

Victor Sérgio Joaquim apelou às mulheres a dirigirem-se ao centro, informou que as inscrições são gratuitas e a formação tem duração de um ano.
“Nos primeiros seis meses ensinamos o corte e costura, depois as alunas passam para o período de incubação onde mostram na prática tudo que adquiriram ao longo do período de formação”, disse.

Apesar da pandemia da Covid-19, que afecta o país e o mundo, Victor Sérgio Joaquim avaliou como positivo o último ciclo de formação. Encorajou as finalistas a manter o espírito a persistência e nunca desistirem do real propósito da formação.  “Depois de concluído o curso, é fundamental não mudar só por mudar. Reflectir quando necessário, concentrar-se naquilo que fizeram e, obviamente, investir para serem empreendedoras e não candongueiras”, aconselhou.

Cerca de 200 mulheres inscritas

Em funcionamento no bairro Seis, num espaço cedido pela Paróquia da Boa Nova, desde o início do projecto, em Julho de 2018, cerca de 200 mulheres frequentaram o centro tutelado pela ADPP, das quais 137 concluíram a formação, enquanto um total de 47 cumpre o presente ciclo de formação. Cláudio Vilinga, coordenador nacional da ADPP no projecto, destacou que 83 finalistas criaram negócios em diferentes ramos de formação e outras 40 dão passos no corte e costura.

“São mulheres que constituíram espaços de negócios nas suas próprias casas. Das 44 alunas que terminaram o último curso, 20 já dispõem de máquinas de costura e realizam trabalhos em casa”, disse. Cláudio Vilinga assegurou que tem sido feito o acompanhamento pós-formação e sempre que solicitados prestam o apoio necessário. Lembrou que a última formação teve início em Agosto do ano passado e comportou duas fases.

“Na primeira fase, as senhoras absorveram conhecimentos, enquanto na segunda aplicaram o que aprenderam, visando a constituição de negócios”, detalhou. Embora tenha anotado registo de dificuldades durante o processo de aprendizagem, sobretudo entre alunas com idades acima dos 50 anos, muitas das quais não sabem ler e escrever, Cláudio Vilinga afirmou que a pretensão é estender cada vez mais o projecto às mulheres carenciadas, incluindo domésticas, viúvas e todas que realmente necessitam.