Mulheres da periferia de Fortaleza lançam coleção de roupas em exposição virtual | Ceará

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Cinquenta mulheres do Grande Bom Jardim, em Fortaleza, preparam o lançamento virtual de uma coleção de roupas virtualmente que ocorre nesta semana. A linha “Não é proibido voar” é resultado do projeto Ateliê Florescer, oficina formativa em moda ligada ao projeto comunitário Movimento Saúde Mental (MSM), e conta com 50 peças produzidas integralmente pelas participantes. A previsão é de que todas as peças estejam nas redes sociais ligadas ao movimento a partir do dia 10 de outubro.

A ação formativa aconteceu em agosto e setembro deste ano e recebeu apoio da Secretaria Municipal de Cultura de Fortaleza (Secultfor), através do VIII Edital das Artes. Ao todo, dez oficinas relacionadas à moda foram oferecidas para a comunidade: empreendedorismo, modelagem; marketing, bordado, figurino, vitrinismo, direitos humanos, educação ambiental, rodas terapêuticas e criatividade em moda. A última foi ministrada pelo estilista cearense David Lee.

Para garantir o distanciamento, as turmas foram limitadas a, no máximo, dez participantes, e aconteceram de maneira simultânea. Participaram da ação mulheres de até 65 anos, moradoras da área do Grande Bom Jardim, e que estivessem em situação de vulnerabilidade econômica. As contempladas contam com a ajuda de filhos e sobrinhos, modelos provisórios, para expor as peças.

Artista circense e costureira, Sebastiana Freitas, 43, chegou ao curso “para melhorar o que já estava bom”. Ela, que prefere usar o nome artístico Tiana, participou de oito dos dez cursos oferecidos. “Só não fiz mais por falta de tempo.” A moradora relembra que a temática da coleção, escolhida nas oficinas, tem como característica falar sobre outros aspectos da comunidade.

“O Bom Jardim é visto como perigoso, violento. Queremos mostrar as coisas boas, também”, ressalta Sebastiana. “Toda a nossa linha fala sobre sonho. A gente ousou sonhar. No nosso Bom Jardim existem coisas maravilhosas. A gente traz isso nas nossas peças. Colocamos desenho de pipas, de pião, essas brincadeiras de rua”, conta.

O isolamento social também foi inspiração. “Está todo mundo dentro de casa e a gente sonha que está na rua. Quando a gente sonha, a gente voa como uma pipa. Nem que seja só na mente”, brinca a costureira.

Mulheres do bairro tentam desvincular imagem de violência que algumas pessoas associam ao Bom Jardim — Foto: Divulgação

Durante o processo terapêutico, acompanhado por uma psicóloga do grupo, os pedaços de pano disponibilizados na oficina deixam de ser somente matéria-prima e viram metáforas, relembra Tiana.

“Nossa psicóloga pegava os retalhos que a gente trabalhava e usava para falar sobre mudança. Ela dizia que aqueles pedaços de pano mostravam o que podia mudar na gente. Tanto trabalhamos com os retalhos, como com desenhos. Tudo englobado com a costura”, relembra Tiana, que vê a dinâmica como necessária para o sucesso da coleção. “A gente precisa estar bem para receber o novo”, diz.

O fazer da linha e as conversas com outras mulheres também foram catárticos, admite a costureira-artista. “Eu fui acolhida. Mesmo com o distanciamento, me acolheram com palavras e com olhares. Eu acreditava que estava fechada para o mundo mas ali, eu vi que não. Poderia achar que já sabia, que o que aprendi já era suficiente. Mas vi que aquilo dali era o novo, que eu podia ganhar mais espaço”, completa a artista.

Por enquanto, a coleção está na linha de produção, com o recorte e a montagem das peças. “Estamos empolgadas”, ressalta Tiana. “Assim, nosso grupo cada um deu uma ideia, foi tudo pensando em conjunto e estamos aqui fazendo. Tentamos um rascunho, depois outro e estamos na torcida para ver o produto final”, afirma a participante.

O Movimento Saúde Mental atua há 24 anos na área do Grande Bom Jardim e em bairros da Regional V da Capital áreas em vulnerabilidade, conta Isabel Viana, arte-terapeuta e coordenadora do Ateliê Florescer. O autocuidado sempre esteve entre os principais encaminhamentos do projeto.

“Também trabalhos autoconhecimento e autonomia. No âmbito da moda, nós temos o Ateliê Florescer, mas também existe uma escola de gastronomia. Oferecemos cursos de educação profissional com momentos de vivência terapêutica. Ninguém empreende nada estando deprimido, em uma posição vulnerável”, pontua Isabel.

A coleção “Não é proibido voar”, na visão de Isabel, coloca em evidência dois aspectos da região: o pertencimento e os talentos das mulheres. “O Bom Jardim é um bairro vivo, é um bairro de arte. Esses espaços mostram isso, que é possível mostrar novos caminhos profissionais. Nem todas que participaram eram costureiras. Elas ficaram livres para escolher o que quiseram. Quando expomos esse trabalho nas redes, marcando quem fez, mostramos o que elas fizeram. É uma vitrine, também”, diz.

A ideia é que o ensaio fotográfico com os familiares, que entraram na dinâmica como modelos das peças, também compreenda as experiências do bairro. “Escolhemos locais conhecidos pela comunidade. São locais compartilhados para que essa afetividade entre nas fotos, também”, garante a coordenadora.