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MIAT expõe trabalhos de Gisella Santi

[©MIAT]

A exposição, revela o MIAT – Museu Industrial e Artesanal do Têxtil, inclui várias peças de arte têxtil pertencentes à coleção do filho da artista, Orenzio Santi.

“Pintar com os fios”, como foi batizada, abre as portas ao público no próximo dia 6 de abril e pretende «ilustrar metaforicamente a fruição que Gisella sentia quando desenhava os seus cartões e quando, a partir destes, entrelaçava com os dedos, nas teias montadas nos teares, fibras e tramas para tecer as suas obras, num diálogo de oportunidades e escolhas que nos lembra o diálogo que temos com a vida», descreve o comunicado do MIAT.

A artista é uma das referências maiores da arte têxtil e da tapeçaria contemporânea em Portugal. Nascida em Pescopagano, Itália, em 1922, formou-se em Pintura Mural na Escola de Artes de Veneza e tinha o curso de Desenho com Modelo da Academia de Brera de Milão. Frequentou também cursos de restauro de pinturas e de têxteis.

Do restauro à criação

Chegou a Portugal na segunda metade dos anos 50. «Dediquei-me então ao restauro e, por causa do restauro, vim viver para Lisboa. Melhor dizendo, por causa do restauro e do amor…», confessou a artista numa entrevista de 1994 concedida à então diretora do Museu Nacional do Traje, Madalena Braz Teixeira.

Entre 1957 e 1974 dirige um atelier de restauro de tapeçarias antigas em Lisboa, que em 1966 empregava 30 jovens mulheres, segundo uma publicação da Embaixada de Itália em Portugal, citada por Ana Maria Gonçalves, na sua dissertação de mestrado em Ciências da Arte e do Património Tapeçaria Contemporânea Portuguesa (1969-2002) – Antecedentes e Protagonistas do Século XX.

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É graças ao rigor do seu trabalho de restauro e à satisfação dos clientes que as encomendas começaram a chegar de forma crescente. No início, recomendadas pela Fundação Ricardo Espírito Santo e pelo Instituto José de Figueiredo. Mais tarde, principalmente através de um antiquário e comerciante de tapetes David & Popper radicado em Lisboa e pertencente à comunidade judaica de refugiados da onda de antissemitismo que alastrou na Europa durante a II Guerra Mundial, refere a descrição do MIAT, assinada por Orenzio Santi.

«Nesta época, o atelier de Gisella restaurava tapetes e tapeçarias de coleções nacionais e estrangeiras num cerzir e reconstruir de partes danificadas pelo tempo e pelo uso. O conhecimento do desenho, das diversas técnicas têxteis que a prática do restauro lhe proporcionou e a mestria nos tingimentos das lãs e sedas necessárias ao restauro foram competências fundamentais na passagem para uma produção artística têxtil. Apaixonada pelos têxteis, a sua cultura não se resumia ao conhecimento da arte da tapeçaria tradicional bidimensional de lã e seda», sublinha Orenzio Santi na nota do MIAT.

No início dos anos 70, numa exposição individual das suas pinturas, expôs a sua primeira tapeçaria utilizando a técnica de Gobelins, uma tapeçaria figurativa que representa a Basílica e o jardim da Estrela em Lisboa. «Em Portugal, a maioria dos artistas plásticos mandava executar as suas pinturas (cartões) em manufaturas, mas Gisella, que era conhecedora das técnicas da tecitura, executou ela própria os seus cartões e adquiriu teares verticais para tecer as tapeçarias, realçando uma das características das artistas têxteis da época: o facto de serem criadoras/executantes», acrescenta.

Das tapeçarias aos objetos têxteis tridimensionais

No final do período da ditadura e com o 25 de Abril, o trabalho de restauro escasseia e Gisella dedicou-se ao ensino da tapeçaria e da tecelagem. Em 1975, através do Ministério da Cultura e ao abrigo da descentralização cultural, dinamizou cursos de tecelagem no IADE e em Condeixa, onde permaneceu hospedada em casa do ceramista cabo-verdiano Leão Lopes. Mais tarde e graças a essa amizade, dinamizou um curso de tapeçaria em Cabo Verde.

Gradualmente, o atelier de restauro transformou-se num atelier-escola de tecelagem e tapeçaria e a artista, além de produzir objetos têxteis da sua autoria, abriu esse espaço a artistas que desejassem aprender esta arte e desenvolver projetos pessoais.

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Iniciou, também em 1975, a cooperativa ARA de tapeçaria com Flávia Monsaraz, que se extinguiu após dois anos.

Em 1978, fundou o Grupo 345 de Tapeçaria Portuguesa que agregou alguns dos artistas têxteis que frequentavam o seu atelier. Ingressa, nessa mesma altura, no ensino oficial como professora de tecnologia de tapeçaria na Escola Artística António Arroio.

Nesse mesmo ano, a Fundação Calouste Gulbenkian apresentou nos seus espaços expositivos a 8.ª Bienal de Tapeçarias de Lausanne, onde entre outros, estiveram representadas artistas emblemáticas das artes têxteis contemporâneas como Magdalena Abakanovicz, Jagoda Buic, Elsi Giauque, Ritzi e Peter Jacobi, Aurelia Muñoz, Olga Amaral, Lia Cook e Sheila Hicks.

«Originariamente ligada à tapeçaria tradicional, Gisella libertou-se para objetos têxteis tridimensionais utilizando materiais convencionais e não convencionais, numa exploração contínua de formas, texturas e cores. No entanto, nunca deixou de executar, de quando em quando, uma obra em Gobelins, quase como num desejo de se recentrar no rigor que esta técnica tradicional exige», resume o comunicado do MIAT.