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Meio ambiente em crise

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Divulgao

Autor de romances, Jonathan Safran Foer retorna no fico na nova obra (destaque), que alerta para a responsabilidade de todos na preservao


O escritor americano Jonathan Safran Foer tem uma mensagem muito simples para a humanidade: se quisermos salvar o planeta, precisamos parar de comer carne – ou, como ele coloca em Nós Somos o Clima, diminuir drasticamente seu consumo. Autor dos romances Tudo se Ilumina e Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, adaptados para o cinema, e de Aqui Estou, ele volta à não ficção 10 anos depois de Comer Animais, que virou documentário, para tentar nos convencer de que o tempo está acabando, que não podemos só esperar pelo governo e que, se todos fizermos algum esforço, o futuro do planeta será menos catastrófico.

No livro, Foer, de 44 anos, que fala sobre a Amazônia, nos bombardeia com fatos, estatísticas e cenários trágicos enquanto investiga nossa incapacidade de nos colocarmos como responsáveis ou vítimas. A crise ambiental, aparentemente, não nos diz respeito. Ela vai acontecer lá longe, quando não estivermos mais aqui. Foer também costura fatos de sua vida com acontecimentos históricos em uma narrativa bem construída para nos engajar na luta.

Ele deu entrevista por Zoom ao Estadão.

AE- O que precisa acontecer para que as pessoas acreditem que a mudança climática é uma realidade e que, quanto antes fizermos algo, individualmente, melhores serão as chances do planeta?

Safran Foer – Não sei se um dia vamos acreditar. A boa notícia é que temos informações agora. Outra é que quase todo mundo acredita em informação. Porém, não se trata apenas de saber. O problema é a distância que este saber tem de percorrer até se tornar uma crença – o caminho da cabeça para o coração. Isso é realmente difícil, e não porque as pessoas são ignorantes ou más. É difícil porque é difícil. Descobri isso por experiência própria. Sei sobre a mudança climática há anos. Por anos, participei de passeatas, fiz apresentações, doei dinheiro, disse a coisa certa em jantares e não fiz muito além disso. Não sei se vamos mudar como nos sentimos, mas podemos mudar como nos comportamos.

Sua conclusão é muito simples e não parece difícil ser colocada em prática. E por que as pessoas não se convencem?

Pela mesma razão que eu acho difícil. É difícil porque estamos indo contra nosso histórico de alimentação, contra nossa cultura – e o Brasil é uma cultura baseada na carne. Para quase todo mundo, a carne tem cheiro e gosto muito bons. Fazemos muitas associações positivas com a carne. É um grande erro subestimar quanto é difícil mudar.

A literatura tem sido capaz de antecipar um futuro trágico para a humanidade e o planeta, algo distópico. Escritores, artistas e personalidades podem ajudar?

Precisamos de diferentes vozes e de diferentes narrativas. Há formas diferentes de contar essa história. Ciência é uma dessas formas. Jornalismo, outra. Conversas em família durante o jantar, outra. Arte visual. Quando você vai à livraria, eles não estão tentando vender apenas um romance, mas 5 mil romances porque cada um deles funciona de uma forma diferente para cada pessoa. Somos tocados de forma diferente por diferentes tipos de mensagens. A crise ambiental não vai ser resolvida por um pequeno grupo de ambientalistas, mas por todo mundo. E, para isso, todo mundo, ou pelo menos um grande número de pessoas, deverá ser tocado e inspirado a mudar e a participar. Para isso, precisaremos de diferentes narrativas.

Quais podem ser as consequências para a questão ambiental de um mundo cada vez mais conservador e negacionista?

Talvez esse cenário com Donald Trump seja o mais fundo que precisamos ir antes de começar a avançar. E, possivelmente, precisávamos disso para ativar algo em nós. Se acho que o meio ambiente está melhor ou pior por causa de Trump? Talvez esteja melhor. Se Hillary tivesse ganhado, e eu queria e fiz campanha para isso, ainda não estaríamos no caminho de salvar o planeta e não teríamos jovens protestando nas ruas. Pelo menos agora temos os jovens nas ruas e talvez a ignorância de Trump ative a nossa inteligência e sua apatia ative a nossa energia. Temos de ter esperança disso.

Você dedica um breve capítulo ao Brasil. Como vê o País?

O Brasil e os Estados Unidos têm muito em comum, exceto pelo fato de que o Brasil é o futuro. Mas estamos emperrados com líderes ignorantes e conspiratórios que não respeitam a verdade e a ciência.

E qual papel um país como o Brasil, onde fica a Amazônia, deveria desempenhar nessa luta?

O Brasil deve proteger a Amazônia, mas é injusto colocar isso de um jeito tão simples porque estão vendendo o que estamos comprando. Mais de 90% do desmatamento da Amazônia é para a agropecuária. Eu posso dizer para vocês: parem de fazer isso. Mas vocês podem nos dizer: parem de comer isso, parem de comprar aquilo. É bom pensar num sistema político que proteja recursos naturais, mas vocês não têm isso nem nós temos. Então, o assunto deve ser levado ao consumidor. Se fizermos um boicote mundial de carne, ou se dissermos que só vamos comer uma vez por semana, o resultado disso é que as pessoas vão comer o mínimo que elas puderem, e eles vão ver o que isso significa. Esse é o jeito mais eficaz que temos no momento de salvar a Amazônia. Claro que seria muito, muito mais fácil se houvesse leis protegendo a Amazônia, mas este não parece ser o caso.





Escrito por:

Estado Contedo