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Marina Colasanti analisa a obra de Clarice Lispector, nesta tera – Cultura

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(foto: Frederico Mendes/divulgao)

“Todo mundo tinha reverncia ou medo de lidar com ela, Clarice era estranha. Pois ela me foi entregue%u201D

Marina Colasanti, escritora

A bordo de um Fusca, Affonso Romano de Sant’Anna e Marina Colasanti partiram da Zona Sul do Rio de Janeiro em direo ao Meier, na Zona Norte. No banco de trs, estava Clarice Lispector (1920-1977). O trio iria se encontrar com Nadir, cartomante que havia sido indicada por um amigo do casal de escritores.

“Quando contamos para a Clarice que nosso amigo havia dito que a cartomante era maravilhosa, ela entrou em delrio. ‘Quero ir, quero ir’. Me lembro da gente costeando a via frrea, com o trem passando”, lembra Marina. Nadir inspirou Clarice a criar Madame Carlota, a cartomante que encanta Macaba em A hora da estrela (1977).

VIRTUAL 

A Clarice autora, como tambm a Clarice amiga, esto na pauta do Letra em cena. Como ler… O projeto literrio do Minas Tnis Clube retoma suas atividades, agora em formato virtual. Nesta tera-feira (4), nas redes sociais do Centro Cultural Minas Tnis Clube e no YouTube do Minas, Marina Colasanti analisa a obra de Clarice Lispector ao lado do jornalista Jos Eduardo Gonalves. A escritora Bruna Kalil Othero far uma leitura de textos da autora de A hora da estrela.

Marina era no mais do que uma “mosca”, nas palavras dela, quando conheceu pessoalmente Clarice. “Quando fui casa dela, levada por um amigo comum, nem olhou na minha cara, porque eu no era ningum. Estava adorando a visita, pois comecei a ler Clarice no primeiro conto que ela publicou na (revista) Senhor (“A menor mulher do mundo”, de 1959). Fiquei encantadssima, eu e meu irmo (o ator Arduno Colasanti) ramos fissurados nela. (Na poca) Nem sabia que ela era a escritora de escritores, que s os escritores a conheciam. Percebi, ali, que estava diante de uma escriba maior.”

Acompanhando a distncia a carreira de Clarice, Marina se tornou muito prxima dela por causa do jornalismo. Nos anos 1960, Marina trabalhava no Jornal do Brasil. Em 1967, Clarice foi convidada para escrever para o jornal.

“Todo mundo tinha reverncia ou medo de lidar com ela, Clarice era estranha. Pois ela me foi entregue, era eu quem cuidava dos textos, dos telefonemas, quando ela tinha que adiantar uma crnica. No havia computador nem impressora, era o tempo do carbono. Ela no tinha cpia dos textos. Dizia, com aquele erre arredondado dela: ‘O carbono foge’”, relembra Marina.

Clarice teve sequelas do incndio que destruiu seu quarto, em 1966, provocado pelo cigarro que ela deixou aceso ao dormir. A mo direita, o membro mais afetado pelo fogo, perdeu parte dos movimentos, mesmo depois do enxerto que a autora fez. Da a dificuldade para pr o carbono na mquina de escrever para fazer cpia dos textos.

Clarice escrevia de maneira inusitada, afirma Marina Colasanti. “Ela se deu conta muito cedo das frases que vinham na cabea. Anotava tudo e quando tinha um monte de frases, comeava um trabalho de costura, de emendar uma frase, dar sentido ao que escrevia. Datilografava vrias vezes o mesmo livro, ia aprimorando, compreendendo o que queria dizer atravs desse processo.”

Rigorosa, Clarice Lispector tinha o costume de datilografar v
Rigorosa, Clarice Lispector tinha o costume de datilografar vrias vezes o mesmo livro (foto: Arquivo EM/D.A Press %u2013 20/12/62)

Posfcio 

Marina j dedicou vrios textos obra da amiga, inclusive o livro Com Clarice (2013), escrito com Affonso Romano. Mais recentemente, assinou o posfcio da edio comemorativa de Felicidade clandestina (1971), publicada em maro pela Rocco em celebrao ao centenrio de Clarice.       

Atualmente, a jornalista e escritora trabalha em um texto para o livro que Ndia Gotlib, bigrafa da autora de A hora da estrela, prepara com crnicas de amigos dela.

“Clarice busca o mago das coisas. No estava interessada em contar histrias, fez uma literatura praticamente sem histrias. A literatura de Clarice no se alcana atravs da razo. Affonso dizia que reconhecia uma leitora de Clarice ao longe, porque, segundo ele, os fanticos de Clarice andam a trs centmetros acima do cho”, finaliza Marina Colasanti.

LETRA EM CENA: COMO LER CLARICE LISPECTOR

Com Marina Colasanti e Jos Eduardo Gonalves. Nesta tera-feira (4), s 20h, no Instagram e no Facebook do Centro Cultural Minas Tnis Clube e no canal do Minas Tnis Clube no YouTube.