Maria Gambina FC, o Brasil dos anos 70 estampado na moda nacional

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GALERIA DE FOTOS: João Bettencourt Bacelar e Ugo Camara (créditos)

Corte e costura, futebol e moda abraçados por intermédio da música. Camisas, casacos, meias, roupa nacional inspirada no futebol brasileiro dos anos 70. Ou, para sermos mais rigorosos, nos equipamentos de clubes brasileiros dos anos 70.

Maria Gambina, estilista portuense que dispensa apresentações, é a criadora desta coleção inovadora, capaz de agradar aos mais exigentes amantes da bola e do pós-tropicalismo baiano.

Uma camisa branca com listas à Flamengo, a estrela solitária do Botafogo, o vermelho e azul do Fortaleza, o logotipo do Cruzeiro. A moda nacional abre os horizontes e abraça uma época marcante da cultura brasileira, por obra e graça de Maria Gambina e dos Novos Baianos, uma das suas bandas favoritas.

«A coleção não é inspirada diretamente no futebol. É inspirada num grupo musical dos anos 70 chamado Novos Baianos. Eram brasileiros, da fase do pós-tropicalismo. Sempre adorei música e tenho coleções anteriores já inspiradas em músicas e discos», diz Maria Gambina ao Maisfutebol no seu ateliê na Foz do Douro.

«Eles chamavam-se Novos Baianos porque nasceram numa altura em que o Gilberto Gil e o Caetano Veloso, outros baianos, estavam exilados em Londres. A banda concorreu ao Festival da Canção do Brasil, mas não tinha nome. Num ensaio, um dos jurados teve uma tirada curiosa: ‘mandem entrar aí esses novos baianos’. Eles gostaram e adotaram a designação.»

Esses Novos Baianos eram loucos por música e por futebol. Viviam em comunidade num sítio [quinta] isolado e passavam os dias entre peladinhas e ensaios no estúdio de gravação. Maria Gambina viu o documentário e apaixonou-se pela atmosfera de cultura e partilha total.

«Eu vi o documentário Novos Baianos Futebol Clube apenas por prazer, mas ao vê-lo acabei por ter ideias para esta coleção. Eu nunca procuro a inspiração, ela é que vai surgindo. O documentário relata o dia a dia dos Novos Baianos. Eles viviam isolados, numa casa, uma quinta, ao ar livre, todos juntos. E esse documentário é um encontro entre o futebol e a música, porque eles passavam os dias a jogar futebol e a tocar, a compor.»

VÍDEO: o documentário que inspirou Maria Gambina

No documentário, os músicos andavam sempre com as camisolas dos seus clubes. O conhecido Morais Moreira, recém-falecido, não abandonava por um segundo as cores rubro-negras do seu Mengão.

«Sim, andava sempre com aquelas camisolas com riscas e de sunga (risos). Achei muita piada a esse universo, a toda a estética do documentário. Desenvolvi a coleção dentro desse universo e o futebol surge porque eles andavam sempre vestidos com camisolas de clubes brasileiros.»

O resto, diz Maria, foi pesquisa e aplicação da teoria estética às roupas contemporâneas. Roupas para usar no dia a dia e que encaixam no Streetwear que sempre foi a imagem de marca da estilista.

«Sempre gostei do universo do desporto, a minha roupa é streetwear e sempre teve referências a esse mundo. Sou muito gráfica, adoro esses acabamentos. Mesmo em peças de alta costura vou buscar pormenores ao mundo do desporto. Neste caso tentei não ser óbvia e desconstruí os equipamentos originais.»

O trabalho técnico de Maria Gambina fez toda a diferença, mas é evidente e forte a presença das cores vibrantes e símbolos facilmente identificáveis com o futebol brasileiro dos 70’s. As golas e as mangas dão um definitivo toque futebolístico. Uma obra-prima saída da tesoura e do laboratório de Maria.

«Em vez de mandar estampar riscas, apliquei-as por cima das peças. É só um exemplo. Andei à volta disso. Foi um jogo de pensamento. Como é que a partir de detalhes característicos de equipamentos de futebol conseguiria fazer roupa contemporânea? Também peguei em símbolos de futebol da época e apliquei-os nas peças. Cruzeiro, Fortaleza, Botafogo, Fluminense… tenho muita música brasileira dessa época, dos anos 70. É redutor dizer que é uma coleção inspirada em futebol, mas esses mundos tocam-se e tocam a minha coleção.»

Maria Gambina não é particularmente apaixonada por futebol, embora tenha vivido e feito desporto ao longo da vida. Fez ballet na infância e no décimo ano escolheu mesmo a área de Desporto.

«Depois detestei Biologia e vi que aquilo de artístico não tinha nada (risos).»

Perdeu-se uma professora de Educação Física, ganhou-se uma estilista premiada internacionalmente e dona de um trabalho de irrepreensível coerência. Basta entrar na loja na Foz e mergulhar naquelas peças de streetwear com tanto futebol em tantos pormenores. Os Novos Baianos Futebol Clube moram na Invicta.