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Mãe narra os 126 dias na UTI de bebê que nasceu de apenas 23 semanas – Comportamento

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Os números permeiam a vida de Henrique desde quando na 23ª semana de gestação, ele nasceu, pesando 680g e com 28cm. Foram 126 dias de UTI, mais cinco de internação no quarto, uma luta imensa para ganhar peso e sobreviver a todas as intercorrências que um prematuro pode sofrer. No vídeo acima, são seis minutos que resumem o passo a passo de um bebê que se desenvolveu aqui fora, o que deveria ter acontecido dentro do útero da mãe, Taygra.

Fotógrafa, Taygra Nayara Martins Prates, de 26 anos, já é mãe de Maria Clara, a menininha que também protagoniza uma imagem de emocionar, quando finalmente conheceu o irmão, em casa, já de alta. Com uma diferença de seis anos para o caçula, Henrique foi um bebê planejado pelos pais, e pela fé da mãe, a vida dele também estava entre os planos de Deus.

Registro da primeira vez que mãe pode pegar na mãozinha de Henrique, com três dias de vida. (Foto: Arquivo Pessoal)

A gestação corria bem até a 13ª semana, no dia 18 de janeiro, quando a mãe teve o primeiro sangramento, foi ao hospital, mas os exames mostraram que estava tudo normal. Ela saiu medicada como se fosse um descolamento de placenta, e dois dias depois, teve outro sangramento. No novo ultrassom, foi detectada placenta prévia e recomendado repouso. “Mesmo assim continuavam os sangramentos, comecei meu pré-natal com outra médica onde fazia acompanhamento toda semana, que me passou novos medicamentos que fez com que cessasse o sangramento”.

No dia 4 de março, Taygra sentiu dores leves e viu sair um pequeno sangramento, como na manhã seguinte teria consulta, aguardou. No consultório, a médica viu que a bolsa estava menor, fez um exame de toque e percebeu que o bebê já estava quase saindo.

“Seria um aborto, eu tinha acabado de completar de 21 semanas. Ela correu pra fazer uma cerclagem, uma cirurgia que costura o colo do útero para poder segurar o bebê. Fizemos isso e fiquei de repouso em casa. Depois de uma semana e meia acordei com a cama molhada e muito sangramento”, relata.

Segundo a mãe, a orientação médica era de retirar os pontos da cerclagem, porque a gestante corria risco de infecção. “Eu pedi pelo amor de Deus para darmos um jeito, afinal eu estava de 22 semanas. Consegui segurar exatamente uma semana”, conta.

No dia 23 de março, começaram as contrações e muito sangramento, tirados os pontos, 20 minutos depois o bebê nasceu. “Não pude vê-lo, nem pegá-lo. Ele nasceu e já entubaram, ficou no centro cirúrgico, pois não tinha vaga em nenhuma UTI aqui em Campo Grande”, lembra. Na manhã seguinte, o hospital onde o bebê nasceu, El Kadri, conseguiu uma vaga na UTI neonatal.

Quando Taygra pode pegar Henrique pela primeira vez no colo. (Foto: Arquivo Pessoal)
Quando Taygra pode pegar Henrique pela primeira vez no colo. (Foto: Arquivo Pessoal)

A mãe só viu o bebê e entendeu a gravidade no dia seguinte ao nascimento. “Fiquei em estado de choque quando a doutora me falou da gravidade que ele tinha, que era considerado um feto ainda, com a pele gelatinosa e as pálpebras ainda coladas. Era um prematuro extremo com infecção generalizada. Era muito, muito grave”, descreve.

Todos os dias, a mãe gravava vídeos e tirava fotos de Henrique, de início com o propósito de enviar para os familiares, mas depois a profissão falou alto e ela pensou como seria reunir tudo num só material e assim futuramente mostrar para o filho.

“Eu tinha certeza que ele ia sair, tinha muita fé mesmo, no meu coração eu tinha certeza absoluta que ele ia sair e eu ia mostrar um dia como ele foi guerreiro”.

A mãe passava o dia no hospital e sempre que ia embora, gravava na cabeça todos os números dos aparelhos de respiração. “Quando eu voltava, se estava aumentado, eu já sabia que tinha acontecido alguma coisa e ia falar com os médicos”, recorda.

Ver o crescimento do filho fora da barriga parecia surreal à mãe, que desejava senti-lo se desenvolver dentro de si e não em uma encubadora. “As pálpebras dele nasceram coladas e falaram que quando ele fizesse 26 semanas, ia abrir. E foi assim, no dia exato das 26 semanas, descolou e eu vi o olhinho dele. Foi descolando aos pouquinhos, pelos cantinhos”, narra.

Dia em que Henrique teve alta, 1° de agosto. (Foto: Arquivo Pessoal)
Dia em que Henrique teve alta, 1° de agosto. (Foto: Arquivo Pessoal)

Pegá-lo no colo pela primeira vez aconteceu somente quando Henrique chegou nos 52 dias de vida, isso porque a indicação era de 700g na balança, mas o bebê que nasceu com 680g, chegou a perder peso e quando ganhou, a norma era de “toque mínimo”, porque ele estava em estado grave.

“Eu fiquei ‘nossa’… É um sentimento que não tem explicação. Quando eu pude pegá-lo, tremia toda, fiquei muito nervosa. Era uma sensação incrível”.

A narrativa da mãe marca os dias de vitórias, mas foram muitos altos e baixos. Ao todo, foram 126 dias de UTI e um histórico de anemia, sepse, insuficiência renal, displasia broncopulmonar, doença metabólica óssea, seis transfusões sanguíneas, uma cirurgia nos olhos, e por aí vai. “Ele quase precisou de uma diálise, quase precisou de drenagem no pulmão, quase precisou ir para casa com oxigênio. Foi entubado e desentubado diversas vezes, teve dias de vida estipulados pelos médicos”, enumera a fotógrafa.

Ao mesmo tempo em que a família vivia o choque, já que mãe nenhuma imagina que irá ter filho prematuro, os pais do bebê sentiam as energias positivas e orações que eram feitas por todos os amigos e parentes.

Em agradecimento aos cuidados, mãe fez ensaio com profissionais, entre eles o fisioterapeuta Patrick Jean. (Foto: Pequeno Querubim)
Em agradecimento aos cuidados, mãe fez ensaio com profissionais, entre eles o fisioterapeuta Patrick Jean. (Foto: Pequeno Querubim)

“Quando saí do hospital com ele, parecia que eu estava me libertando, porque meu sonho era ter saído junto com meu filho, e apesar de sempre acreditar nisso, eu tinha medo, eu sentina insegurança. Sair com ele no colo, vendo a luz do dia, foi uma sensação que não tem explicação, uma felicidade imensa”, descreve.

Em casa, Maria Clara encontrou o irmãozinho pela primeira vez e chorou de alegria. “Foi uma emoção multiplicada, porque eu estava ali vendo os dois juntos. Só de lembrar, eu já choro”.

O vídeo vem sendo compartilhado nas redes sociais com o título de “Pequeno milagre”. “Eu chamo ele assim por tudo o que ele passou, as chances dele ter saído de lá do hospital vivo e sem sequelas eram mínimas. Por isso ele é o meu pequeno milagre”.

Henrique está em casa desde o dia 1º de agosto, depois de 131 dias no hospital.