Lições pandêmicas: seja dois

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O filósofo, teólogo, psicanalista, educador e contador de histórias Rubem Alves (1933-2014) dizia que todo mundo deveria ter duas profissões – a de diplomados e uma atividade manual. Leia-se pedreiro (a), carpinteiro (a), padeiro (a), costureiro (a), jardineiro (a)… Lembro que contava ter um filho médico, que também praticava a marcenaria. Quanto a Alves, nunca soube o que fazia além de ser tudo o que era. Suspeito que cozinhava, tamanho o número de metáforas gastronômicas em sua obra, repleta de odores saídos dos fogões a lenha. Ou músico, se é que tocar um instrumento possa ser comparado, em alguma medida, a erguer um muro ou lixar um móvel, sem que isso ofenda os membros da orquestra sinfônica. Um de seus livros que mais amei se chama Variações sobre a vida e a morte, cujo título e conteúdo faz referência explícita à música erudita. Está no pacote do que levarei para uma ilha deserta.

A propósito, o elogio à vida dupla – por assim dizer – está fundamentado na obra de Rubem Alves, com citações aos muitos pensadores com os quais tinha invejável intimidade. Com base no filósofo alemão Ludwig Wittgenstein – do qual só não falava mais do que de Nietzsche, seu predileto – repetia uma comparação supimpa, dessas que iluminam a treva. A linguagem – único instrumento que os humanos têm para sobreviver, já que não nascemos dotados de memória biológica – não só dá nome às coisas como avisa que são gostosas ou perigosas ou sagradas ou inúteis… Para tanto, a linguagem se utiliza de duas fontes: a caixa de ferramentas e a caixa de brinquedos.

Ao falar – nossa maior potência e diferencial no
reino animal – recorremos aos vocábulos práticos da caixa de ferramentas,
aquele que servem para parafusar e martelar as ideias, tanto quanto às expressões
significativas, lúdicas e amorosas da caixa de brinquedos. Uma caixa e outra se
prestam a resolver duas das maiores ansiedades da espécie humana – o desejo e a
ausência, categorias que juntas dão origem ao que chamamos de cultura. Viver é
preencher espaços vazios com palavras que façam sentido. Essa máxima vale para
as “sofrências” de Marília Mendonça tanto quanto para as poesias de Matilde
Campilho.

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Suspeito que ao defender que deveríamos ter dois ofícios, Alves queria dizer que nenhuma atividade seria rica o bastante para esgotar todos os alicates e martelos verbais que juntamos vida afora. Tampouco para dar cabo aos piões, bonecas e cordas de pular que juntamos na imaginação, como forma de dar sabor ao cotidiano. A linguagem, em suma, é insaciável, prolixa e exigente – uma diva do Scala de Milão, uma amante argentina, como se dizia. Pede que vivamos de mais de uma maneira, ora de jaleco, ora de macacão.

Em tempos de pandemia, dei de lembrar da recomendação de Alves. O “ficar em casa” – nas suas inúmeras variações para o tema – acabou por nos aproximar das atividades manuais. Ou braçais, só de raiva, para citar uma expressão que mexe com o juízo de um país de passado escravocrata como o nosso. Não é preciso passar horas e mais horas nas redes sociais para conferir o selfie made de deus-e-todo-mundo. Alguém conta que mandou as teias de aranha pelos ares e botou a mão na máquina de costura. Descobriu-se feliz. Outro alguém colocou os pés no jardim da casa, tiririca salve-se quem puder, ressuscitou o Menino do Dedo Verde. Ambos viram que é bom pra diabo meter os pés pelas mãos e prometem não abandonar os prazeres dessa caixa de brinquedos, nem que amanhã descubram que jujubas coloridas – três doses em jejum – imunizam contra o coronavírus, liberando a massa para bater ponto na firma.

O elogio aos poderes curativos do trabalho braçal, aliás, pipoca na literatura e no cinema, não é de hoje. Sabe aquela figura que largou tudo para viver no mato? León Tolstói é o caso: abriu mão do posto de mestre da prosa universal para tomar sereno numa comunidade tradicional, ainda que, reza a lenda, mesmo ao adotar uma rotina de camponês não tenha perdido o apreço incontrolável pelo rabo das saias.

Essa conversa sobre refugiados dos códigos
burgueses me faz lembrar o destino espetacular dos dois personagens principais
de um romance que marcou a década de 1980 – A
insustentável leveza do ser
, de Milan Kundera: o médico Tomas e a garçonete
Tereza. Em meio a um emaranhado de tergiversações sobre a liberdade e coisa e
tal, o casal termina seus dias – de forma poética, ainda que trágica – numa
festa de aldeia, despidos de qualquer artifício, corados de tanta felicidade,
embriagados por vinho barato. Pois é. Não sei você caro leitor, mais um dos
dias mais legais da minha vida foi um casamento de polaco na minúscula Piên. Se
tudo acabasse ali, teria acabado bem.

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Gosto de dizer que Rubem Alves é o intelectual brincante que já salvou minha vida. Entendam como quiser. Sua extensa produção foi uma leitura redentora dos verdes anos – em meio à ressaca da abertura política pós 21 anos de regime militar, quando ouvíamos Oswaldo Montenegro e, na melhor das hipóteses, nos emocionávamos com livros testemunhais feito Feliz ano velho, de Marcelo Rubens Paiva; e Com licença, eu vou à luta, de Eliane Maciel. Ou entendíamos, sem saber, conceitos como desejo e ausência ao ler o espetacular Morangos mofados, de Caio Fernando Abreu – o livro de uma geração que cresceu juntando cacos, ou se transformando no Psicopata americano, de Bret Easton Ellis. Desculpem o francês, mas foi f*.

Mais de uma década atrás, quando tive a oportunidade de fazer uma primeira entrevista com Alves, planejei lhe dizer, ao final: “Se me permite, gostaria de contar que o senhor…” Música maestro. Não tive coragem – seria um solene mico, sem falar que esse tipo de arroubo avacalha o juramento profissional. Segui como admirador, numa frequência menor, mas sem perdê-lo de vista. Além de Variações…, seus livros Filosofia do corpo (emprestado e jamais devolvido – sem perdão), Enigma da religião e Filosofia da ciência permanecem uma referência – são uma caixa de ferramentas e outra de brinquedos que ajudam a desempacar tanto as emoções quanto a razão, nos muitos momentos em que ambas entram em curto circuito. Grato, Rubão.

Por ironia, duas vezes fui, digamos, xingado, em nome do autor que tanto bem me fez. Em ambos os casos, com a mesma frase: “Você devia ler Rubem Alves”. Não foram ditas cordialmente, mas em reprovação seguida de recomendação antipática, como só os curitibanos sabem ser. Algo como, “se você lesse Rubem Alves pensaria e agiria diferente”. Preferi não explicar que tinha degustado o cara por uma encarnação inteira, que éramos próximos, no quanto isso é possível entre autor e leitor. Que vivemos um processo civilizatório interior – se é que isso existe.

Tenho para mim que Rubem Alves viveu um ritual de desnudamento. Foi se livrando de tantas cascas – inclusive a de sua farta erudição – até se tornar o que gostava de ser: um mestre nas fábulas e nas parábolas, um pastor de vilarejo ocupado da homilia de domingo. Um Tolstói, sem os rabos de saia. Acho que há similaridades entre Alves e Santo Antônio de Lisboa – meu santinho –, um sábio de primeira ordem dado a tirar mágicas da caixa de brinquedo. E pouco importa que um era católico, o outro protestante. O protestante Alves tinha fascínio pela liturgia do catolicismo – repleta de velas, fitas, gestos, responsórios e promessas feitas de joelho; e lamentava que Lutero tivesse cumulado o protestantismo de tanta austeridade. Dúvida? Pois raro um de seus escritos em que não propague essa deliciosa heresia.

Seu elogio à dualidade permanece. Católicos e
protestantes teriam lucrado se tivessem feito uma zona celestial com as caixas
de ferramentas e as caixas de brinquedos. Permitir-se dois papeis é uma receita
e tanto de sabedoria. Talvez seja a grande lição da pandemia. Perca o foco –
fique abilolado, desdobre-se, ande em círculos até sentir vertigem, mude de
ofício. “Quem quiser ganhar sua vida, vai perdê-la”. A propósito, a frase é de
Jesus, personagem que o guru Alves curtia citar em meio a sapos que habitavam o
fundo dos poços, cigarras, patos selvagens em revoada, Merleau-Ponty, García
Márquez. Amava pensar. E pensava brincando. Eis o homem.