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Jorge Helder: Chico e Bethânia disputam baixista – 12/07/2022 – Ilustrada – Blog Ceará Máquinas



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Um contrabaixista equivale a um volante no campo de futebol. Figura discreta, suas notas soam imperceptíveis aos ouvidos moucos. O volante não costuma mesmo ser o artilheiro do time, por mais que chegue ao ataque, feito baixista escorregando até o cavalete, tirando toda a música possível do instrumento.

Para “fazer um gol de bicicleta, dar de goleada”, Helder imprimiu seu timbre “de boa definição” em “Que tal um Samba?”, single que intitula a nova turnê de Chico. “A levada latina era uma ideia dele, e todo trabalho que eu faço tem arranjadores”, Helder comenta. “O timbre é o mais importante, eu que escolho e, a partir dele, as pessoas reconhecem o meu trabalho.”

Helder é um homem simples e tímido. Seu espectro mirrado, em contraste com o 1,80 metro do baixo acústico, se tornou ubíquo em shows de medalhões da MPB, como Ney Matogrosso, Gal Costa e Nana Caymmi. Ele acredita ter a preferência dos artistas por ser disciplinado. Para um ensaio, chega sempre 15 minutos antes da hora marcada e garante não fazer bagunça –só depois do trabalho.

A primeira música com Chico surgiu nas gravações de “Carioca”, em 2006. “O Jorge Helder me deu uma música impossível de fazer a letra”, disse Chico, num documentário sobre o disco. “Bolero Blues” está longe de ser uma composição fácil. A partitura do choro-canção é cheia de quiálteras, figuras que aceleram o andamento da melodia e provocam tropeços de notas e sílabas.

“Acho que nunca mais vou fazer uma canção desse tipo, quero simplificar as ideias”, ele afirma. “Ser simples é muito difícil.” Apesar do currículo, o baixista lançou apenas um disco autoral em 40 anos de carreira –contra mais de 350 gravados com outros compositores. A demora, ele conta, se deu pela dificuldade de juntar a quantia necessária para fazer um álbum. Lançado em 2020, “Samba Doce” reúne músicas de diferentes fases de sua carreira, incluindo outras parcerias com Chico.

É justo em “Bolero Blues” que o cantor empresta sua voz. “Rubato”, do álbum “Chico”, de 2011, é interpretada por Renato Braz. A canção lembra os coretos das praças do interior, evocando a infância do baixista. Já “Casualmente”, de “Caravanas”, lançado há cinco anos, ganha as vozes do grupo Boca Livre, o que só acentua o espírito latino da faixa.

“Samba Doce” se ambienta no samba-jazz, gênero em voga no Brasil dos anos 1960. Na época, conjuntos como Zimbo Trio e Milton Banana Trio embalaram o ímpeto de modernização do país. Nesse sentido, formações típicas do jazz se tornaram populares, dando novo sentido a instrumentos como o baixo acústico. Não por acaso, “Passo o Ponto”, “Outubro 86” e “Inocente Blues”, com voz e letra de Rosa Passos, têm arranjos ao sabor das big bands americanas.

“Vagaroso”, única música sem o baixo de Helder, tem refinado naipe de cordas, e “Dorivá”, interpretada por Dori Caymmi, homenageia Dorival, com percussão embebida no mistério dos mares da Bahia. Para este segundo semestre, Helder prepara o segundo disco autoral, com todas as faixas instrumentais.

Filho de um funcionário público e uma professora de bordado, Helder descobriu a música graças à tia paterna, dona de uma escola de música. Aos nove anos, já tocava violão e, logo depois, passou ao bandolim. O encontro com o baixo ocorreu na adolescência, meio por acaso. Como todos os meninos do colégio queriam tocar guitarra, o baixo elétrico sobrou para o garoto franzino.

Há 40 anos, Helder se mudou para Brasília, onde ingressou na Escola de Música e passou a tocar baixo acústico. Afinal, em tempos de ditadura, só era permitido praticar música erudita na escola. No tempo livre, passou a acompanhar artistas, como Zélia Duncan e Cássia Eller, vendo de perto o agito do rock nacional. Em 1986, Helder se mudou para o Rio de Janeiro, depois de receber um convite para integrar a banda de Sandra de Sá.

Viajando com a cantora, viveu uma odisseia em Maceió. Foi o único sóbrio entre os músicos que, bêbados de cachaça azuladinha, encalharam numa jangada em alto-mar. O pianista ficou tão doido, que pulou na água, forçando uma operação de resgate improvisada pela banda. Atrasados, os músicos nem passaram o som. Assim que a cortina abriu, o baterista desmaiou, sendo substituído pelo percussionista, sem nenhuma experiência com o instrumento.

Desde então, Helder prefere não passear quando viaja em turnês. Nos anos 1990, foi até o Japão com Caetano Veloso, para quem o baixista “é um dos pontos altos da nossa música popular”. Helder gravou discos marcantes do compositor, como “Livro”, de 1994, e “A Foreign Sound”, de 2004.

Entre os medalhões da MPB, ele coleciona apelidos. Caetano o chama de doce Jorge e Chico, de são Jorge. Já Maria Bethânia deu ao músico seu epítome definitivo. Desde a turnê “Cartas de Amor”, de 2013, ela o apresenta como “o baixo mais disputado do Brasil”.

Os trabalhos com Bethânia começaram no início dos anos 1990. Em 2015, Helder se tornou diretor musical da cantora, tendo produzido o álbum “Noturno”, lançado no ano passado. “Ela confia em mim, mas não fujo da exigência dela”, admite. “Tudo o que ela me pede eu tento fazer. Só que às vezes eu não consigo e o couro come.”

Helder vive em Botafogo, na zona sul do Rio de Janeiro, com sua mulher e os dois filhos. Em casa, passa horas a fio praticando as suítes de Johann Sebastian Bach. Gosta de cozinhar, ouvindo música –Claude Debussy, Maurice Ravel, às vezes um pouco de jazz. Mas se incomoda com o excesso de lançamentos por dia nas plataformas digitais. “É muita criatividade.”

Fonte www1.folha.uol.com.br

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