Indústrias de alta e média tecnologia sentem mais a crise

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Análise do Iedi mostra que nenhum segmento industrial escapou, mas houve diferentes intensidades

Há maior dependência de outros países e dificuldade para obter financiamento. Crédito da foto: Gilson Abreu / Arquivo ANPR

As indústrias de média e alta complexidade tecnológica foram as mais afetadas pelo choque provocado pelo coronavírus na primeira metade de 2020 no País, conforme análise realizada pelo Instituto de Estudos para Desenvolvimento Industrial (Iedi), seguindo a classificação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Nenhum segmento tecnológico, do mais elevado ao mais básico, escapou do tombo, mas a diferença de magnitude é evidente, com a perda de 23,8% da indústria de média-alta tecnologia superando em muito a da produção industrial total (-10,9%).

Com a elevada incerteza desencadeada pela crise inédita, os segmentos com maior complexidade tecnológica sofreram mais com a dificuldade de financiamento e de confiança, diz o economista do Iedi, Rafael Cagnin. E a grande integração com a cadeia de suprimentos global foi um obstáculo adicional. De forma geral, o setor industrial foi o mais prejudicado pela pandemia, que provocou quedas históricas na produção, superando a recessão de 2015-2016. Agora, o Iedi afirma que o desafio é engatar uma recuperação mais robusta e disseminada para recuperar as perdas acumuladas desde 2014, dinamizar mais a economia e acompanhar a onda de inovação tecnológica mundial. Caso contrário, o risco é perder mais mercados de exportação para concorrentes, como a China, repetindo o que ocorreu depois da crise de financeira, em 2008-2009.

Segundo a classificação da OCDE, os setores da indústria de transformação são classificados de alta à média-baixa complexidade tecnológica, enquanto a indústria extrativa é toda de média-baixa tecnologia. As perdas derivadas da pandemia na primeira parte do ano nos segmentos de média-alta e média tecnologia (-14,6%) também superaram as do pior ano da crise passada, em 2016. A análise do Iedi reforça ainda que o impacto mais significativo foi sentido no segundo trimestre, com recuo de 42,8% e 25,7%, nessa ordem, se comparados ao mesmo período do ano passado. Na mesma base de comparação, a indústria geral caiu 19,4% — a maior queda da série histórica — e a de transformação teve contração de 21,8%.

Na média-alta tecnologia, o carro-chefe do retrocesso foi o setor automotivo, com as perdas de 73,5% no trimestre e de 43,6% na primeira metade do ano, refletindo a paralisação das linhas de produção durante a fase mais aguda do isolamento social. Mas, com exceção de produtos químicos, com -8,9% entre abril e junho, todas as outras atividades tiveram dois dígitos de queda na produção no período, como máquinas e equipamentos (-32,3%) e instrumentos médicos (47,5%). A indústria de média complexidade tecnológica, por sua vez, mostrou impacto mais bem distribuído entre suas atividades, entre 19,4% e 36,9%, com o ramo de metalurgia (-29,1%) destacado pelo Iedi em função do recuo ainda expressivo em junho (-25,3%).

A queda tampouco foi desprezível na alta tecnologia, ainda mais porque se sobrepõe à redução significativa entre janeiro e junho do ano passado (-6,3%). Nesse segmento, o recuo nos seis primeiros meses de 2020 foi de 9,6% e, no segundo trimestre, de 15,3%. A notícia boa é que a indústria de alta tecnologia foi a única que mostrou alguma recuperação em junho ante igual mês de 2019, com a alta de 1,0% sustentada pela indústria farmacêutica (13,1%), um dos setores beneficiados pela crise provocada pela Covid-19 e um dos poucos que cresceu no semestre (2,0%). Por outro lado, a fabricação de aeronaves tem perda de 49,7% em 2020 e a produção do complexo de eletrônico ficou 15,5% menor, em parte relacionada aos prejuízos na fabricação de equipamentos de áudio, vídeo e comunicação no Complexo Industrial de Manaus, localidade em que a Covid teve impacto mais severo nos primeiros meses da pandemia.

Os dois outros ramos que terminaram o primeiro semestre de 2020 no azul são classificados como de média-baixa tecnologia: a indústria alimentícia, de bebidas e fumo (0,5%) e a produção de coque e produtos derivados de petróleo e biocombustível (3,7%). E explicam a queda mais modesta do segmento na indústria de transformação, de 4,6%, na primeira metade do ano, mesmo com a atividade têxtil, mais intensiva em trabalho, recuando 31,4% no período. Já a indústria extrativa, muito abalada pelos desdobramentos da tragédia de Brumadinho em 2019, caiu 2,8%.

“O que se vê é um retrocesso transversal, atingindo todas as faixas de acumulado tecnológico, mas os ramos mais impactados são, principalmente, os de maior intensidade tecnológica”, diz o economista Rafael Cagnin, do Iedi.

Nessas faixas, estão a fabricação de bens de capital e de consumo duráveis, que, pelo alto valor agregado, dependem da obtenção de financiamento e de confiança por quem vai adquiri-los. “É uma crise inédita e muito particular, com desdobramentos econômicos desconhecidos ou pouco conhecidos”, afirma Cagnin.

Retomada tende a ser desigual

Se o tombo dos setores industriais foi bastante desigual durante a pandemia de Covid-19, que fechou linhas de produção e abalou a confiança dos investidores, a retomada não deve ser diferente, segundo o economista Rafael Cagnin, do Instituto de Estudos para Desenvolvimento Industrial (Iedi). Em sua avaliação, a indústria alimentícia vai se sobressair, inclusive pela safra agrícola, enquanto a fabricação de aeronaves deve seguir imersa em incertezas. “Para os setores de mais alta intensidade tecnológica, enquanto não houver vacina ou medicamento eficaz contra a Covid, a incerteza vai continuar presente.”

E a situação fica mais difícil com a sobreposição de perdas ainda não recuperadas da última recessão, entre 2014 e 2016. O receio agora, diz Cagnin, é de que a retomada lenta se repita, o que pode deixar sequelas permanentes na competitividade da indústria nacional, que luta para permanecer entre os 10 países mais industrializados do mundo. Até 2018, o Brasil era o nono, segundo os dados da Organizações das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial, mas seguido de perto pela Indonésia.

“‘De 2014 a 2020, devido às crises e à dificuldade de recuperação, o investimento para evitar que os parques ficassem obsoletos, para manter a produtividade, ficaram mais difíceis. Precisamos que a recuperação venha, mas que seja robusta e disseminada entre todas as categorias e faixas de intensidade tecnológica, porque, além de recompor o nível de produção, a indústria nacional tem que acompanhar onda de inovação tecnológica em direção à indústria 4.0. Se não, nossos concorrentes passam na frente.”

Cagnin lembra que, desde a crise financeira de 2008-2009, a concorrência das exportações chinesas sobre as brasileiras aumentou, principalmente para países da América Latina, porque Pequim tentou compensar a perda de dinamismo das economias centrais com a presença em países periféricos. De 2008 para 2012, o peso das exportações brasileiras para as regiões do Mercosul, da Associação latino-americana de Integração (Aladi), e do antigo Nafta (EUA, Canadá e México) caiu de 38,5% para 31,9%.

Essa preocupação é maior, considera, no contexto da crise atual, em que a China está se recuperando na frente de outros países. (Thaís Barcellos – Estadão Conteúdo)