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Hobby vira negócio para 16 mil no Estado este ano

A palavra trabalho vem do latim “tripalium”, um instrumento de tortura. Ela não faz muito sentido para quem tem uma ocupação da qual gosta. Afinal, como disse o filósofo Confúcio, “escolha um trabalho que ama e nunca terá que trabalhar um dia sequer na vida”.

No Estado, 16 mil pessoas transformaram um hobby em negócio este ano. Das 55.838 novas empresas que nasceram no Espírito Santo de janeiro a setembro, de acordo o Sebrae, 30% foram baseadas na afinidade do empreendedor.

Muitas vezes, no modo automático, o ser humano trabalha naquilo que tem oportunidade. Com a pandemia, vários profissionais levaram um empurrão para fora da zona de conforto. Demitidos, tiveram de se redescobrir.

Para alguns, foi a chance de se reconectar com aquilo que gostam de fazer. Para outros, a pandemia impulsionou o sonho do próprio negócio e criou a chance de deixar o emprego para se dedicar a ele.

Evelyn Barcelos costurou a bandana usada pela Katniss: empreendedora apostou nos acessórios para animais (Foto: Fábio Nunes/ AT )

Esse foi o caso da bióloga Evelyn Moreira Barcelos, 31. Ela trabalhava em um pet shop e pediu demissão para apostar no seu lado empreendedora. Tudo começou quando ela ainda era empregada.

Depois do expediente, chegava em casa e fazia acessórios para os cinco cães e dois gatos que tem em casa, dela e da mãe. Uma rede social dela se transformou em uma vitrine e surgiram as encomendas.

“No final do ano passado pedi demissão. Eu já tinha máquina de costura e comecei a fazer os produtos em maior escala”, detalhou.

Ela começou com acessórios e revelou que desde o início sempre pensava em como melhorar a qualidade de vida dos pets e tutores e foi agregando itens.

Entre eles estão brinquedos de corda, caminhas, colchonetes, jogo americano, tapete interativo e roupinhas. Ela vai lançar coleiras e guias. “Eu mesma faço tudo à mão”. Este ano veio a grande virada e ela passou a vender para pet shops os produtos que faz.

O consultor de empresas Glaucio Siqueira explicou que há mais chance de ganhar dinheiro fazendo o que gosta, devido à satisfação e motivação. “Mas antes de começar, é preciso avaliar: o consumidor precisa daquilo que eu gosto de fazer? Se sim, está disposto a pagar? Além disso é necessário traçar um plano de negócios”.

Família tem de estar inserida no projeto, diz especialista

Empreender, principalmente no meio de uma pandemia, não é tarefa fácil. A especialista em pessoas e carreiras Gisélia Freitas calcula que a maioria dos negócios que surgiu a partir de hobbys estão sendo desenvolvidos dentro de casa, por mulheres.

Gisélia Freitas (Foto: Leone Iglesias / AT - 8/6/2017)

Gisélia Freitas (Foto: Leone Iglesias / AT – 8/6/2017)

“Isso está criando conflitos. Às vezes o marido sabota, reclama do uso do espaço, da sujeira que a atividade provoca. Tem que ter uma parceria. A família tem que estar inserida no projeto”. Ela destacou que antes de dar início à atividade, é preciso conversar com a família.

O empreendedorismo por necessidade vem crescendo, conforme o consultor de carreiras Elias Gomes.

“Muitos estão empreendendo porque precisam, mesmo sem preparo ou perfil. O que faz com que a chance de resultados positivos sejam menores. Outros estavam com medo e foram empreender com medo mesmo e podem descobrir competências e habilidades para obter o resultado necessário”.

O consultor de empresas Glaucio Siqueira lembrou que para quem gosta do que faz é mais fácil aguardar o tempo para que o resultado aconteça.

Incentivo desde cedo

Desenhos que dão lucro

A estudante Isabella Torezani, de 13 anos, gosta de desenhar. Ela conta que aprendeu sozinha, que treina e busca referências na internet.

A estudante Isabella Torezani, de 13 anos, gosta de desenhar (Foto: Fábio Nunes/AT)

A estudante Isabella Torezani, de 13 anos, gosta de desenhar (Foto: Fábio Nunes/AT)

“Comecei com os desenhos manuais tradicionais e fui comprando materiais e testando coisas novas”. Hoje, além dos manuais, ela também faz desenhos digitais.

Incentivada pela mãe, ela decidiu fazer desenhos sob encomenda, dando vazão ao seu lado empreendedora.

“Eu gosto muito de desenhar, me relaxa bastante. E sempre quis ganhar dinheiro com algo que gosto de fazer”, revelou.

Saiba mais

Empreendedorismo

  • O empreendedor é aquele que sabe identificar oportunidades no mercado, seja para criar um negócio ou melhorar aqueles que já existem, por meio de ideias criativas e inovadoras. De acordo com o Sebrae, há 10 comportamentos de um empreendedor de sucesso. São eles:
  • Busca de Oportunidades e iniciativa; persistência; correr riscos calculados; exigência de qualidade e eficiência; comprometimento; busca de informações; estabelecimento de metas; planejamento e monitoramento sistemáticos; persuasão e rede de contatos e independência e autoconfiança.

Plano de negócios

  • Antes de colocar um negócio em prática é preciso fazer um plano de negócios. É por meio dele que se estuda o mercado, a viabilidade econômica e financeira e o prazo de retorno do empreendimento.

Principais dificuldades

  • São vários os desafios enfrentados por um empreendedor. Entre eles estão a gestão de pessoas e gestão financeira.
  • De acordo com o Sebrae, não conhecer a concorrência e os diferenciais de seus produtos ou serviços são alguns dos erros mais comuns em empresas que trazem poucos resultados.

Gosto pelo que se faz

  • Gostar do que faz é uma injeção de motivação, que torna a atividade mais leve e prazerosa. Contudo, não é o suficiente para garantir um negócio de sucesso.
  • É necessário planejamento, estudo, dedicação para transformar uma ideia em um negócio de sucesso.
  • Além disso, é preciso resiliência, pois é necessário, em média, três anos para que o negócio chegue ao primeiro nível de estabilidade e cinco para que ele comece a dar lucro.
  • Contudo, especialistas apontam que, quando se gosta do que se faz, a chance de ter um melhor retorno financeiro é maior.

Fonte: Sebrae, Glaucio Siqueira e Gisélia Freitas.

Pesquisa de mercado em vez de afinidade

Saber identificar oportunidades é fundamental para quem deseja empreender. Nesse processo, a pesquisa de mercado cumpre um papel importante, ela ajuda a reduzir as chances de o negócio dar errado, independente de a atividade escolhida ser algo que o emprendedor goste ou não conheça muito bem.

A gerente de acesso ao crédito do Sebrae/ES, Alline Zanoni, explicou que muitas pessoas identificam uma oportunidade de negócio com o qual nunca trabalharam. “A orientação é buscar o máximo de informações antes para não ter surpresas desagradáveis depois de fazer o investimento”.

Ela explicou que uma pesquisa de mercado pode ser feita pelo próprio empreendedor ou por uma empresa especializada. Detalhou ainda que caso o investimento no negócio seja alto, a segunda opção é a mais indicada.

A especialista em pessoas e carreiras Gisélia Freitas lembrou que não adianta entrar em uma atividade que não há demanda. “Se o mercado demanda, ótimo. Muitas vezes o plano B, vira o plano A”.

Lucas e Priscila começaram vendendo cosméticos e criaram marca própria, que hoje tem parceria com famosas (Foto: Dayana Souza/ AT)

Lucas e Priscila começaram vendendo cosméticos e criaram marca própria, que hoje tem parceria com famosas (Foto: Dayana Souza/ AT)

O casal de empresários Lucas Gomes Moreira, 32, e Priscila Porto, 28, deu o pontapé para criar o próprio negócio a partir da identificação de uma oportunidade.

Vaidosa, ela chamava a atenção de outras mulheres com a maquiagem que usava e com isso começou a vender os produtos. Formada em RH, Priscila fez um curso de maquiagem para aprender a maquiar a si própria. “Tudo que uso, as pessoas perguntam”, destacou.

Morando em Foz do Iguaçu com o marido, ela vinha para Vitória trazendo cosméticos para vender e estava se saindo bem.

Vendo isso, o marido logo se atentou. “Sempre tive vontade de ter o nosso próprio negócio e vi que era uma área que demandava muito. Então sugeri que abríssemos uma loja de cosméticos, ela topou. Hoje temos uma loja em Jardim Camburi, Vitória, e outra na Praia da Costa, em Vila Velha”.

Mas o sonho não parou por aí. Eles resolveram criar a própria marca, que hoje tem parceria com famosas. Mas o começo não foi fácil. “A gente começou com entregas. Eu fazia entregas. Já sofri um acidente e mesmo assim a gente não parou. Fomos para o showroom e depois para a primeira loja”, lembrou Lucas.

Mais chances de sucesso

O consultor de carreira Elias Gomes detalhou a diferença entre pesquisa de mercado e plano de negócios.

De acordo com ele, pesquisa de mercado é para avaliar se um produto ou serviço tem ou não aceitação, como é a concorrência no mercado e identificar se há viabilidade do negócio.

Já o plano de negócios visa uma organização de como se dará o empreendimento. Ele pode ou não incluir a pesquisa de mercado. Trata de receitas, despesas, recursos e perfil do mercado.

“O pensar no negócio faz com que o empreendedor se atente aos detalhes e evite erros. Minimiza o risco de fracasso”.

Outros fatores que também contribuem para o sucesso do negócio é o empreendedor estudar para desenvolver as habilidades que não possui, buscando sempre se aperfeiçoar.

Além disso, empresários alertam que é muito importante saber escolher o sócio. Buscar características complementares e entender bem a personalidade do outro pode contribuir para que o processo seja mais fácil.

Entenda

Pesquisa de mercado

  • Ela ajuda o empreendedor a entender se o negócio que ele pretende criar é viável ou não.
  • Contribui para conhecer o perfil do cliente, perceber as estratégias da concorrência e ver seus pontos fortes e fragilidades, analisar os fornecedores, dimensionar o mercado e definir o público alvo, segundo o Sebrae.

Plano de negócios

  • É algo mais abrangente. É um documento que inclui a pesquisa de mercado e traz informações sobre a natureza do negócio, as estratégias de crescimento, os custos e as despesas, o investimento inicial, as projeções de receita e o lucro.
  • Tanto a pesquisa de mercado quanto o planto de negócios são peças importantes para quem busca o sucesso no segmento.

Análise

“Grande vilão de quem abre negócio é a falta de conhecimento”

“É importante compreender as verdadeiras alavancas de sucesso de um negócio. Parte diz respeito à relevância do negócio, mas boa parte é voltada para características e competências do empreendedor, e, neste sentido, algumas podem ainda não estar desenvolvidas. Nada impede que ele busque uma estratégia para desenvolver, e o grande vilão pode estar na falta de conhecimento.

Desconhecer ou reconhecer suas próprias competências e características do mercado tem-se configurado como uma das principais causas de fracasso. É fundamental que o empreendedor identifique e se trabalhe em suas fragilidades e, para isso, é importante ter claro o que o mercado espera tecnicamente e comportamentalmente dele.

Outro ponto fundamental é se blindar contra o pessimismo de algumas pessoas próximas. Para elas, dar errado sempre será o caminho mais óbvio, por mais promissora que sejam as evidências do seu negócio.

É preciso também ter paciência. Perseverar no negócio, promovendo as mudanças e realinhamentos de rota também farão diferença para chegar lá. O imediatismo muitas vezes poderá se contrapor ao tempo de maturidade para que qualquer negócio se firme e aí, excelentes oportunidades poderão se perder”.

Martha Zouain, psicóloga e Diretora da Psico Store