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Histórias entre costuras – O Liberal

Seja por hobby ou por profissão, a costura encanta pela possibilidade de transformar retalhos em peças de roupas, que são capazes de traduzir a nossa identidade e que nos acompanham pela vida. Por trás de cada peça, existem pessoas que dedicam não apenas tempo e material, mas também colocam um pouquinho de si em cada ponto. Reunimos histórias que enaltecem o valor e o afeto envolvido entre costuras, com exemplos de força, criatividade e tradição.

Inspirada na mãe, Gabriela cursou Têxtil e Moda, na Fatec, em Americana – Foto: Arquivo Pessoal

Lélia e Gabriela: mãe e filha

Lélia Meire Jandotti, de 53 anos, costureira e mãe da Gabriela, de 27, foi a grande inspiração para a filha cursar Têxtil e Moda, na Fatec (Faculdade de Tecnologia do Estado de São Paulo), em Americana. A formatura, como não poderia ter sido diferente, foi com um conjunto confeccionado pela mãe e que preencheu a noite de elogios.

“A história da minha mãe com a costura vem desde cedo. Ela começou a trabalhar em um ateliê de alta costura, para fazer bordados, mas nas horas vagas recolhia os retalhos que sobravam das peças e começou a produzir os seus looks. Ela nunca fez curso, mas o dom é nato”, conta Gabriela.

A ideia de produzir as próprias roupas, compartilhada entre mãe e filha, tem o objetivo de expressar uma identidade própria. “Através da roupa você mostra quem é. É o lance de se sentir bem vestido com o que te faz bem, seja qual for o padrão”, resume Gabriela.

“O fato de eu ter escolhido esse caminho tem uma grande influência da minha mãe, porque foi através dela que eu entendi que sim, nós podemos usar o que queremos usar, podemos nos expressar através da roupa, podemos levantar a nossa autoestima também através disso”, conclui.

Emma: aulas de costura há mais de trinta anos

Com 11 anos, Emma já costurava para vizinhas, na região da Avenida Campos Salles – Foto: Marcelo Rocha – O Liberal

“Eu tinha uns 8 anos quando pegava retalho na fábrica do meu pai, vivia cortando e imaginando como era uma peça”, conta Emma Aparecia Cia, de 59 anos, professora de corte e costura em Americana há mais de 30.

Com 11 anos, Emma já costurava para vizinhas, na região da Avenida Campos Salles. A iniciativa de dar aulas veio com a ideia de compartilhar o conhecimento e a habilidade, então ela fez cursos, e se destacou como pioneira na região, devido ao método de ensino escolhido.

“Tenho alunas de todas as idades. Elas pegam o jeito rapidinho”, comenta. Em mais de 30 anos, foram inúmeras alunas, que fizeram incontáveis peças de roupas. “Vestidos de noiva, para filhas ou para si mesmas, roupas para batizados, formaturas, casamentos, muitas roupas diferentes”, conta.

“Eu me sinto muito realizada, peguei o gosto e ensinar se tornou essencial na minha vida. Eu penso em quem me incentivou lá atrás. As pessoas que não passam o que sabem para frente são egoístas”, diz.

Minha mãe sempre teve confecção, meu tio desenhava, minha tia era modelista”, conta o americanense – Foto: Arquivo Pessoal

Elton e a moda desconstruída

O amanhecer com barulhos de máquina de costura está entre as primeiras lembranças de Elton Gabriel de Oliveira, de 30 anos, conhecido como Ego Oliver nas redes sociais. “Desde criancinha eu lia revistas, via algumas coisas na televisão e os meus olhos brilhavam. Minha mãe sempre teve confecção, meu tio desenhava, minha tia era modelista”, conta o americanense.

A primeira grande oportunidade de Elton, em 2009, foi um concurso em São Paulo para o qual produziu uma coleção inspirada em Elke Maravilha. Depois, iniciou a criação de conteúdo nas redes sociais e participou do reality show Corrida das Blogueiras, do canal Diva Depressão, no YouTube.

“Eu decidi me jogar nesse sonho, comecei a trabalhar e ampliei o meu público. Em uma brincadeira, comecei a fazer customização. Eu pegava coisas aleatórias e fazia fantasias”, conta. O falecimento da mãe, sua grande inspiração, além de incentivadora, foi um baque que o impulsionou ainda mais à criação. “Em um período muito triste para mim, continuei me dedicando, pirei ainda mais e comecei a pegar lixo para fazer roupas”, lembra.

Tecidos de objetos descartados como sofás, cortinas, carrinhos de bebê e bolsas ganham vida nova através das mãos de Elton. Suas peças podem ser conferidas em suas redes sociais e propõem uma reavaliação da moda e da sustentabilidade. “A desconstrução também vem da minha mãe, que sempre foi uma pessoa muito aberta, nunca me limitou a nada e sempre me apoiou. Eu sou um conjunto de todos da minha família”.

Sílvio: seis décadas dentro da alfaiataria

“Iniciei a alfaiataria sozinho, mas devido à demanda, logo estava com mais de 10 funcionários”, lembra – Foto:

“Minha profissão sempre foi alfaiate. Ao terminar o ensino fundamental, meu pai me levou para aprender o ofício com 12 anos. Depois de aprendiz, fui trabalhar para outros alfaiates”, conta Sílvio de Faria que nasceu em Caconde mas veio para Americana ainda menino e inaugurou, em 1960, a alfaiataria que hoje é administrada pela filha, Aline Prado.

“Iniciei a alfaiataria sozinho, mas devido à demanda, logo estava com mais de 10 funcionários e fila de espera, em uma época em que a alta costura era feita somente por alfaiates”, lembra.

“Não existiam confecções, então no mês de setembro já pegávamos serviços apenas para o próximo ano”, lembra. Devido à alfaiataria de qualidade, Sílvio foi o escolhido para produzir os ternos usados nas cerimônias de posse de todos os prefeitos de Americana, desde 1964.

“Embora minha alfaiataria tenha sempre se adequado aos shapes do momento, a procura foi caindo devido à facilidade e agilidade da roupa pronta. Continuamos a atender um nicho específico de clientes que buscam a qualidade e valorizam a roupa com um caimento perfeito”, afirma o alfaiate. Sílvio ressalta o orgulho pela profissão. “Também fico feliz da minha filha estar dando continuidade ao que aprendeu comigo”, diz.

“Vejo uma perspectiva de mudança, os jovens estão mais preocupados com o consumo consciente, sustentável e com a responsabilidade social. Por isso acredito que a mão de obra artesanal será valorizada no futuro”, conclui.

Rosana: a força e o valor de uma costureira

Juntos, Rosana e José trabalham na confecção de máscaras de proteção, desde que iniciou a pandemia do novo coronavírus – Foto: Macelo Rocha – O Liberal

“A costura iniciou na família por conta da minha mãe, porque antigamente era uma prenda doméstica. Do mesmo jeito que você tinha que saber cozinhar, você tinha que saber costurar alguma coisinha”, conta Rosana Alexandra da Silva, de 41 anos, cuja família veio de Marília para Americana, para trabalhar nas tecelagens.

“Minha mãe se casou e conseguiu uma casa popular no Antônio Zanaga, na década de 1970, antes da fundação do bairro, ela estava grávida de mim. O bairro todo estava em construção e a minha mãe começou a pegar roupas para lavar. Tinha muita roupa rasgada, então ela começou a consertar. Minha mãe começou a costurar, ficou famosa, dona Toninha costureira, é difícil quem não conhece”, conta Rosana, que por influência da mãe também costura desde a infância. “Eu comecei a pegar gosto, porque eu fazia as coisas e as pessoas elogiavam. Eu via os problemas de confecção e já visualizava uma solução, com apenas 14 anos”, afirma.

Com a chegada da vida adulta, do casamento, dos filhos, entre altos e baixos, Rosana relata a desvalorização da profissão – um problema que muitas vezes acontece não só no mercado, mas também dentro de casa.

“Passei uma época muito triste, quando fui casada, por 20 anos, porque gosto de costurar e ele sempre falou que isso não era profissão e sim um quebra-galho”, desabafa ela, que superou a relação abusiva e hoje está casada com José Hurtado Fernandez, de 57 anos.

Juntos, eles trabalham na confecção de máscaras de proteção, desde que iniciou a pandemia do novo coronavírus (Covid-19). “Me sinto realizada porque tenho quem acredita em mim. Não só porque ele é meu esposo, mas porque ele acredita nessa profissão. Tem gente que desvaloriza a costureira, mas eu enxergo que ela tem um valor muito grande, assim como todas as profissões”.