Grupo arrecada mais de 11 mil caixas de leite para produzir mantas térmicas a moradores de rua em SP | Santos e Região

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Um grupo de voluntários de Santos, no litoral de São Paulo, decidiu aproveitar a quarentena imposta pelo novo coronavírus para iniciar uma ação que está ajudando dezenas de pessoas em situação de rua a enfrentar o frio no inverno. O trabalho consiste em arrecadar caixas de leite, transformá-las em mantas térmicas e, depois, doá-las.

A ideia surgiu a partir de um trabalho de pesquisa, que levou o engenheiro João Adelino Duarte Vieira, de 51 anos, a conhecer a funcionalidade da caixa de leite como isolante térmico. Isso porque as caixas contam com seis camadas de materiais, sendo quatro de polietileno (plástico), uma de alumínio e uma de papel cartão. A junção dessas camadas permite refletir o calor e manter as pessoas aquecidas.

“Quando começamos a fazer o trabalho de ação na rua, nos deparamos com as necessidades das pessoas quem passam muito frio, e percebemos que as mantas térmicas poderiam ajudá-las. Começamos a entender o processo, conseguir as máquinas necessárias, cortar as caixas e fazer as costuras”, explica Vieira, que faz parte do grupo Amigos do São Vicente de Paulo/Nação do Bem.

Grupo de voluntários tem como objetivo ajudar moradores de rua — Foto: Divulgação/Denise Dominguez

A advogada Fabiana Paiva de Ribeira, de 43 anos, é voluntária do grupo e conta que, no começo do ano, foi elaborado um projeto totalmente diferente, que teve de ser adiado devido à pandemia do novo coronavírus. O ‘Café do Bem’ previa a entrega de lanches e de um ‘ouvido amigo’ para conversar e desabafar. Mas, o modelo se tornou perigoso, e o grupo decidiu mudar de estratégia.

“Com a pandemia do novo coronavírus, essa ideia se tornou complicada, por causa do contato com as pessoas. Então, surgiu durante a quarentena o projeto ‘Ações na Rua’, como uma ação emergencial, com o objetivo de distribuir lanches, agasalhos, cobertores e mantas térmicas a pessoas em situação de rua”, explica a voluntária.

O Nação do Bem já conseguiu arrecadar mais de 11 mil caixas de leite na Baixada Santista e produzir cerca de 500 mantas térmicas. A primeira foi doada a um morador de rua que dorme próximo à sede do grupo, no bairro Macuco, com o objetivo de ajudá-lo e ainda obter um feedback sobre o funcionamento da manta.

De acordo com Vieira, o beneficiado o procurou dois dias depois para dizer o que achou da novidade. “Fui explicando para ele como usava, que a parte do alumínio tinha que ficar para cima. Pedi para usar à noite e depois me procurar. Ele disse que sempre dependia de um agasalho para dormir em cima do papelão, mas que, com a manta, não precisa mais de cobertor”.

Costureiras ficam responsáveis por passar as caixas nas máquinas — Foto: Divulgação/Denise Dominguez

Para fazer uma manta térmica com as dimensões de 1,70m x 65cm, são necessárias 18 caixas de leite em boas condições. Se estiverem cortadas de maneira errada ou faltando alguns pedaços, podem ser usadas até 27 caixas em cada equipamento. Dessa forma, o material restante pode ser usado para costurar, no máximo, 170 mantas.

“Não esperávamos uma repercussão tão grande quando começamos o projeto. As pessoas estão interessadas em conhecer, e isso ajuda na divulgação. Até o último dia 10 [de julho], já havíamos produzido 77 mantas e distribuído parte delas a entidades assistenciais da Baixada Santista, que repassam [as doações] para os moradores de rua”.

O projeto chamou tanta atenção que está servindo de inspiração para grupos de outros lugares do Brasil. Vieira conta que já foi contatado por pessoas de Varginha (MG), São Paulo e Santa Catarina, que desejavam saber como as mantas eram feitas para poderem reproduzir. “A sementinha está sendo distribuída”, garante o engenheiro.

Para a edição de 2020, o grupo deixou de arrecadar caixas de leite e têm se dedicado a produzir as mantas e ajudar os projetos de outras regiões. Em caso de dúvidas, o Nação do Bem disponibilizou um novo telefone de contato, através do número (13) 99670-4798.

Grupo pede para que doadores entreguem as caixas de leite já limpas — Foto: Reprodução

As caixas de leite percorrem um longo caminho da casa dos doares até os moradores de rua. Para isso, o grupo conta com mais de 20 voluntários, que são responsáveis pela retirada do material (10 pessoas), higienização, triagem e abertura das caixas (5 pessoas), corte e aparas (5 pessoas) e costura, que agora aumentou de uma para três, o que agiliza a produção.

“Antes, a costureira estava fazendo cerca de dez mantas em cinco dias. Como ela é voluntária, não consegue trabalhar integralmente. A costura em si não demora, o que demora é todo o processo de coleta, limpeza e corte. Por conta da pandemia, todos os voluntários estão fazendo suas partes em casa, o que acaba atrasando ainda mais”, explica Vieira.

Agora, com as novas voluntárias, o objetivo é manter a produção acelerada até o ano que vem, para que as mantas estejam prontas para serem distribuídas no próximo inverno. Para Vieira, esse é um trabalho muito importante, que faz com que os moradores de rua se sintam queridos. “Tenho a sensação de ser útil na vida de uma pessoa. Para que ela tenha esperança, precisa se sentir bem. Queremos despertar a vontade deles mudarem de vida”.

Para Fabiana, fazer parte do projeto causa uma sensação de gratidão. “Saber que uma coisa tão simples como uma caixa de leite, que iria para o lixo, pode ser usada em benefício de alguém é muito bom. Quando fazemos um trabalho assim, imaginamos que vamos doar, ajudar, mas a sensação no fim da entrega é de que recebemos muito mais do que doamos. O sentimento de satisfação compensa todo o trabalho duro”.

Mantas térmicas são produzidas com, pelo menos, 18 caixas de leite — Foto: Divulgação/Denise Dominguez