Grife de um homem só chamou a atenção de grandes varejistas

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Seria esta uma boa hora para falar do “suficiente“?

Muito tempo atrás, em 1973, o economista E.F. Schumacher publicou “O Negócio é Ser Pequeno”, uma coleção seminal (e, para surpresa de alguns, um best-seller) de ensaios que criticavam a economia ocidental. Schumacher foi um dos primeiros a defender a sustentabilidade, a localização, a indústria de pequena escala e o “emprego humano de máquinas” para produzir uma forma mais benevolente de capitalismo, que usasse o esforço humano e a engenhosidade para o bem comum.

“O suficiente” (enoughness) é um termo cunhado por Schumacher. Houve muita crítica na época – basicamente, ele foi considerado um ludita pouco progressista –, mas hoje suas ideias parecem proféticas. Talvez tenha sido preciso haver uma pandemia para nos lembrar de que o antídoto para muita coisa pode ser sua suficiência. O pouco pode ser, de fato, bonito.

Detalhes da coleção de verão 2020 de Evan Kinori

Detalhes da coleção de verão 2020 de Evan Kinori (Jason Henry/The New York Times)

Isso parecia ser verdade em uma visita recente a um espaço arejado todo branco no bairro de Hayes Valley, em San Francisco. Aqui, Evan Kinori, de 32 anos, opera uma marca de roupas administrada e tocada por um homem só. Ele cria roupas que são fabricadas principalmente em um raio de 1,6 quilômetro de sua oficina em pequenos lotes numerados a mão, em padrões e tecidos que mudam sutilmente de uma temporada para outra e que, como observou a revista “GQ” recentemente, “vendem rápido e nunca reaparecem”.

Em apenas cinco anos, Kinori chamou a atenção de varejistas especializados nos EUA, na Europa e no Japão (Dover Street Market em Nova York, Los Angeles e Tóquio; C’H’C’M’ em Nova York; Atelier Solarshop em Antuérpia, na Bélgica), e criou um culto crescente que, embora direcionado aos trabalhadores da indústria tecnológica, atraiu também chefs e artistas gráficos da Área da Baía, roteiristas de Hollywood e pelo menos um analista do Vale do Silício de 70 anos.

Oficialmente, as roupas de Kinori – casacos, jaquetas de algodão encerado fosco, camisas de linho belga ou calças largas cujo corte tem um toque clássico, um quê de Yohji Yamamoto e algo que pode ser visto em um açougueiro de uma fotografia de August Sander – são moda masculina. No entanto, parece cada vez mais provável que o relaxamento das fronteiras arbitrárias entre os gêneros se torne um dos efeitos benéficos de todos serem forçados a trabalhar em casa vestindo moletom.

Evan Kinori em seu ateliê em São Francisco

Evan Kinori em seu ateliê em São Francisco (Jason Henry/The New York Times)

Nada disso preocupa Kinori, homem forte, de boa aparência, com o cabelo despenteado e unhas pintadas de preto que poderiam se beneficiar de uma nova camada de esmalte. E ele não está muito interessado em design no sentido rigidamente formal. Kinori não se julga alfaiate, nem mesmo estilista, mas sim um artesão, um pouco na tradição de pessoas como o grande arquiteto Joseph Esherick, que ao longo de sua carreira se importou mais em criar espaços harmoniosos e humanos do que monumentos que remetessem a ele.

As roupas de Kinori são cortadas a partir de padrões que ele mesmo elabora e costura, usando linhas francesas em máquinas de uma só agulha. São feitas com tecidos provenientes de estoques antigos ou tradicionais de fabricantes de tweed irlandeses, como Molloy & Sons, no Condado de Donegal, de produtores belgas de linho ou de fábricas de algodão para quimonos em cidades japonesas distantes. Quando trabalha, ele pensa mais no desejo de criar objetos duráveis do que nas demandas da moda industrial.

“Ele é um estilista disciplinado”, disse o dramaturgo e roteirista Jon Robin Baitz, para quem as roupas de Kinori se tornaram um uniforme diário.