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Forest Neide teve caminhada transformada pelo esporte

A sexta-feira chegou e com ela vem o “Conte Aqui”, daquele jeito para conhecermos mais uma história transformadora. Desta vez, quem dá o papo é a Neide Santos, mãe, avó, atleta e fundadora da ONG Vida Corrida, que vem promovendo a inclusão social, a saúde, a autoestima e a qualidade de vida de moradores do Capão Redondo, bairro da Zona Sul de São Paulo. Foca no Portal KondZilla que no final desta estrada é só vitória. 

“Eu sou Marineide Santos Silva, tenho 60 anos, nasci em Porto Seguro, na Bahia. Quando tinha dois anos, meu pai saiu para trabalhar na procura de ouro. Nesse trabalho, minha mãe recebeu a notícia de que meu pai tinha pegado malária. Eu não me lembro se era a malária ou a febre amarela, mas era uma daquelas doenças que os homens que trabalham em garimpos acabam pegando. Assim, meu pai foi dado como morto, meu pai não voltou pra casa. 

Neide dos Santos ao lado de algumas meninas que participam do projeto da ONG. 

A vida corrida começa aqui pela minha vida. Saí de Porto Seguro e fui para um vilarejo que ficava em Ribeirão do Salto, município de Itarantim, Bahia. Foi onde eu vivi minha infância até os seis anos. Lá aprendi a nadar muito cedo, inclusive falo que sou atleta desde cedo, pois vivia correndo e subindo. Naquela época sem infraestrutura, afinal essas coisas que as crianças têm hoje, como bola, bicicleta, assistir série, não existiam. A gente sabia que existia uma bola que as pessoas jogavam, mas eu nem sabia dessa bola, tempos depois que eu fui saber que era redonda.

Mais adiante, minha mãe, sem condições de criar os filhos, nos entregou para famílias separadas: minha irmã mais velha, a Graça, ficou com os meus avós; o Antônio, meu irmão, foi para outra família; e eu fui entregue para uma família que me trouxe para São Paulo. Prometeram para minha mãe que iriam me levar para escola, eu não fui para escola. Eu fiquei dos 6 até os 12 anos dentro de uma oficina de costura. 

Neide no seu escritório com muitos prêmios conquistados pelo serviço na ONG.

Desde muito cedo, aprendi a costurar, lavar, passar e cozinhar. Dormia em fardos de pano pelo chão e ainda sofria abusos, todos os abusos possíveis. Sofri muito longe de todo mundo minha da família. Tinha vontade de fugir e toda vez que falava que iria, a família que me adotou contava que acontecia coisas horríveis com crianças na rua sozinhas, assim encerravam o assunto,  me perguntando se valeria a pena sair dali. 

Lembro da cantiga ‘se essa rua se essa rua fosse minha, eu mandava ladrilhar’, queria ir para rua como qualquer criança. Quando escutava um barulho de uma criança passando, subia em cima de uma mesa e ficava olhando, queria ser criança. Eu queria o que eu via pela janela, não saía, não ia para lugar nenhum. Esse é um dos motivos de transformar a rua da ONG Vida Corrida em uma rua de lazer. 

Quando tinha 11 anos, acredito que através de uma denúncia, me tiraram daquela família abusiva, daí fui viver com uma outra família em Cotia (SP).  Tempo depois, voltei para minha mãe, mas que até então não tinha convivido de verdade, porque fomos separadas muito cedo. 

Neide na sede da ONG Vida Corrida no Capão Redondo.

Mais pra frente, aos 14 anos de idade, eu já estudava e foi no meu contato com educação física que conheci modalidades esportivas. No campeonato do colegial, em 1975, comecei a competir. Fui jogar handebol, mas faltou uma menina no revezamento de 4 por 100, modalidade de corrida, e deixei o handebol para competir no atletismo. Desde então, nunca mais parei de correr, já que a corrida se tornou a minha modalidade preferida, o que me motivou a ser uma medalhista olímpica. 

Aliás, o meu professor dizia que eu era muito veloz, me incentivava a ser um atleta olímpica. Eu cheguei até o São Paulo clube, né? De onde vieram Waldemar Ferreira da Silva e João do Pulo, mas não pude treinar, porque depois que voltei para minha mãe biológica precisei ajudá-la a criar os meus irmãos. Meu foco e tempo foram dedicados à criação deles.

Neide na corrida da Track&field onde conquistou o quarto lugar. 

Uma das pessoas que mais me motivaram a ter a “Vida Corrida” foi meu marido. Nos casamos, tivemos meu filho Marcelo. Mas, em um certo dia, em que meu esposo estava chegando tarde em casa do trabalho autônomo,  foi parado pelo policial militar. Assim, foi alvejado porque, segundo um policial militar, ele não obedeceu a voz de comando e era suspeito (ele era um homem negro).

Além disso, também teve o fato de, em setembro de 2000, um dos meus filhos (tenho três), o Mark, saiu de casa e não voltou, o ciclo natural da vida não aconteceu. Eu enterrei meu filho tão desejado, vítima de um assalto, assassinado por um menor. Foi um longo processo de luto, dor e revolta de raiva. Por que comigo? Mas peguei pra mim a música dos Racionais Mc’s: ‘Eu sou mais uma Maria a chorar eu sei meu filho é só mais um número na estatística’. 

Com o passar do tempo, entendi a estrutura, passei a pensar na mãe do menino que apertou o gatilho, não foi culpa dele, como já dizia a música do Racionais. A culpa é da estrutura social que não dá acesso à cultura e outros caminhos para as nossas crianças. Hoje, posso mudar de alguma forma essa estática. Por tudo que contei até aqui e, principalmente por isso, precisei continuar minha vida, comecei ajudar pessoas na comunidade e iniciei a construção da ONG Vida Corrida

Meu outro filho, Marcelo, me pediu para que eu atendesse as crianças da comunidade, foi uma época que começou a montar a favelinha aqui perto, a favelinha do Itaoca. As mulheres que treinavam comigo pediram para eu treinar com as crianças, mas não podia fazer isso porque as mulheres já acordavam muito cedo para treinar e depois ir para o trabalho. 

Foi assim que a vida seguiu e nasceu a Vida Corrida, que hoje promove inclusão social com atividades esportivas, principalmente, para mulheres e meninas do Capão Redondo. Inspirada pelos meus dois grandes amores, meu esposo e meu filho, a ONG mudou a minha vida, me levou para lugares incríveis, mas nada se compara em ajudar minha comunidade, ter uma rua de lazer e saber que hoje posso proporcionar outros caminhos para essa mulekada”.

O corre não para e disso já sabemos! Se identificou? Manda a sua história pra gente no e-mail [email protected] e não esqueça de nos mandar suas fotos, contato e redes sociais.