Estilista Geová Rodrigues cria camisetas e quadros que refletem sua quarentena na Carolina do Norte, nos EUA

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Nos primeiros meses de quarentena, Geová Rodrigues brinca que estava vivendo como o artista holandês Vincent Van Gogh. Acordava cedo, montava em sua bicicletinha e desbravava a fazenda em que está hospedado na Carolina do Norte, no Sudeste dos Estados Unidos, em busca de inspiração. “Usava até o chapéu”, diverte-se o potiguar, de 56 anos, no outro lado da linha. “Desenhava num bloco as flores que encontrava pelo caminho, esbarrava com os corvos. De certo modo, me distanciei da moda. Quis dar um tempo de máquina de costura, tecido e agulha. Essa pausa foi fundamental para eu repensar meu trabalho como designer.”

Em junho, Rodrigues, dono da marca Geová Atelier NY, retomou “timidamente” o ofício ao criar uma série de camisetas estampadas com os animais com os quais tem convivido. Num trabalho manual interessante, bodes, cabras e galinhas aparecem nos looks. “Percebi que meus traços mudaram. Antes, os desenhos eram abstratos, agora estão mais puros. Talvez seja influência da simplicidade do lugar”, diz o estilista. “Mas preciso confessar que ainda não senti falta de criar um vestido. Estou longe do meu espaço, dos clientes e de Nova York.”

O designer viu a Big Apple, onde mora desde 1993, pela última vez no dia 22 de março, ao atender o chamado de um amigo para se isolar no campo. “Éramos apenas três pessoas no avião, além da tripulação. Parecia que eu estava num filme de ficção científica, daqueles que toda a população é dizimada. Rodo o mundo há anos, mas nunca vi uma cena como aquela. Não estou triste, mas muito abalado com o que está acontecendo. Estou afastado do meu local de trabalho há cinco meses.”

Em setembro, Rodrigues pretende retornar a Manhattan, sem garantias de que ficará por lá. “Não estou totalmente seguro para voltar por causa do coronavírus. Estou morando no paraíso. Fiz minha própria horta, na qual plantei feijão, milho e tomate. Tenho o que preciso para sobrevier.”

Ao longo da conversa, o estilista, um dos precursores do upcycling na indústria fashion, resgatou passagens importantes de sua carreira. “Comecei a pintar ainda nos anos 1980, em São Paulo, por acaso. De repente, a moda acabou surgindo no meu caminho. Estreei nas passarelas em outubro de 1998, depois de uma experiência como stylist. No início, meus tecidos eram sobras que encontrava nos lixos de marcas poderosas, como Calvin Klein e Donna Karan. Helmut Lang parou de jogar os descartes nas caçambas ao descobrir que eu as revirava atrás de matéria-prima para as minhas peças, que foram publicadas até na ‘Harper’s Bazaar’ dos Estados Unidos, no corpo de Gisele Bündchen”, recorda o potiguar, que já recebeu em sua loja, no East Village, as atrizes Chloë Sevigny e Rachel Weisz. “Acredita que a Rachel disse que eu lembrava seu marido? Fui pesquisar e descobri que se tratava do Daniel Craig, o James Bond!”, diverte-se.

Rodrigues, que costuma contar por aí que é duas vezes americano — do sul e do norte (“Tenho cidadania no país de Madonna e Beyoncé”) —, afirma que o Brasil é uma presença pulsante em sua obra. “Não fico me preocupando com o regresso à minha terra natal, Barcelona, no Rio Grande do Norte (“Nasci internacional”). Sabe a casa da mãe, que está sempre com as portas abertas para receber o filho? É essa sensação que existe dentro de mim. Posso estar fora há três décadas, mas sei exatamente onde é meu lar. Se necessário, voltarei muito feliz”.