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“Emily em Paris”, da Netflix, é perfeita para você se sentir bem

Série Emily em Paris. Crédito: CAROLE BETHUEL/NETFLIX

Quando a Netflix lançou a série espanhola “Valéria”, em maio deste ano, escrevi que ela apostava na fórmula de “Sex and the City” para uma geração menos deslumbrada e mais pé no chão, que toma cerveja barata e mal sabe como pagará as contas do fim do mês. Naquele momento, que nem faz tanto tempo assim, acreditava não haver lugar para o deslumbre, as roupas chiques, a alta costura e uma suposta elite da moda. Darren Star, criador de “Sex and the City”, parece não concordar muito comigo, ainda bem.

“Emily em Paris”, série criada por Star e lançada pela Netflix nesta sexta-feira (02), me fez provar que estava errado. Com 10 episódios que nunca ultrapassam os 30 minutos, a série obviamente acompanha Emily (Lily Collins) em Paris. Funcionária de uma agência de marketing, ela acaba transferida para a capital francesa quando sua empresa compra uma agência menor e “antiquada”, mas com clientes muito importantes. Chegando à França, Emily se depara com uma cidade maravilhosa, pessoas hostis em seu ambiente de trabalho e homens sexies que caem de amores por ela à primeira vista – aos 7 minutos do primeiro episódio, Emily já foi cantada pelo primeiro francês; com 15 aparece o segundo; todos os homens que cruzam seu caminho se interessam por ela.

Os primeiros episódios de “Emily em Paris” são um festival de clichês e estereótipos que por vezes até incomodam. A série usa o deslumbre e o luxo de “Sex and the City” com uma narrativa que lembra “O Diabo Veste Prada”; Sylvie (Philippine Leroy-Beaulieu), a chefe da agência, é vilanesca ao ponto de parecer ridículo. A construção dos homens franceses também é estereotipada, com todos lindos, charmosos, meio rústicos e, claro, galanteadores. Além disso, todo mundo parece ser meio promíscuo e ninguém se importa, afinal, os americanos parecem pensar na Europa como um grande vale tudo.

Com o tempo, porém, o espectador percebe que Emily também é um estereótipo, o da jovem americana deslumbrada e ignorante, que achava que não teria problema algum em ir morar em outro país sem ter noção do idioma. Não é por acaso que a narrativa constrói seus primeiros momentos felizes em uma rede social na qual por acaso se torna influenciadora. Enquanto os franceses são elegantes e culturalmente superiores, os americanos são simplórios e desconhecem qualquer coisa fora de seu universo cultural, algo que a própria Emily afirma em vários momentos.

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Série “Emily em Paris”, da Netflix. Crédito: CAROLE BETHUEL/NETFLIX

Ironicamente, esses estereótipos e clichês narrativos fazem de “Emily em Paris” uma série confortável, com uma narrativa ágil e enxuta que nunca cansa o espectador. Lily Collins é ótima, capaz de divertir e dizer muito com caras e bocas, e os personagens que cercam a protagonista também têm seus momentos – tanto os que surgem e desaparecem quanto os que se tornam fixos durante a primeira temporada, principalmente Mindy (Ashley Park).

“Emily em Paris” obviamente tem outra protagonista além de Lily Collins: Paris. A capital francesa é filmada com admiração e a série funciona quase como uma campanha publicitária para o turismo pela Cidade Luz, mostrada apenas em suas construções centenárias, seus charmosos cafés, seus restaurantes, suas praças e por aí vai. Esse aspecto também reforça outra característica importante da série, o fato de ser uma ficção sem a menor intenção de verossimilhança.

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Série “Emily em Paris”, da Netflix. Crédito: CAROLE BETHUEL/NETFLIX

A série ainda aborda, à sua maneira, os conflitos geracionais. Emily é uma millennial, quebrando paradigmas, tentando mostrar que as coisas não podem permanecer estagnadas, mas a agência em que trabalha funciona à moda antiga. Assim, cabe a ela mostrar aos colegas “boomers” como o marketing funciona hoje em dia. Na verdade, cabe a ela também mostrar a todos que o mundo perfeito é uma união funcional entre o novo e o dito ultrapassado, porque é assim que Emily é.

Tenha em mente que “Emily em Paris” é uma série “feel good” na qual os conflitos se resolvem com certa facilidade e a protagonista sempre tem a saída para tudo, ou quase tudo, visto que sua vida afetiva tem é interessantemente complicada. Sim, o texto abusa de estereótipos e clichês como recurso narrativo, mas o faz de maneira de tornar o produto confortável, que não julga escolhas de seus personagens e acaba se tornando um porto seguro para quem não busca nada além de diversão e romance.