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Ela compra roupas usadas de pessoas comuns e as transforma em peças estilosas – Pequenas Empresas Grandes Negócios

Alice Salermo, fundadora da Teres (Foto: Divulgação)

Alice Salermo, 28, nasceu em Milão, no norte da Itália, região conhecida por ser um dos polos mundiais da moda. A alta costura, no entanto, nunca a cativou e ela resolveu se formar em administração. “Sempre achei a indústria tóxica, com ideias patriarcais muito fortes. Apesar de seguir as tendências, eu nunca sequer passei perto do business”, afirma.

Há cerca de cinco anos, Alice veio para o Brasil em busca de um duplo diploma em administração internacional e começou a ter contato com o nicho de roupas sustentáveis. “Eu descobri que a moda pode ser um instrumento maravilhoso, mas sem ser negativa para o ambiente e para as pessoas.”

Ela estudou sobre o tema nos últimos três anos e percebeu que poderia empreender, sim, no setor, mas de forma bem diferente do que é feito em sua terra natal. A oportunidade chegou de uma forma abrupta, no último mês de abril. “Eu trabalhava em uma empresa digital de moda, e as vendas caíram drasticamente. Fui desligada na pandemia e não estava com vontade de entrar em outro emprego.”

De olho nas discussões crescentes sobre desapego e moda circular, desencadeadas pelo período, Alice avaliou que era o momento ideal para criar a empresa. Assim, no mês mais crítico do isolamento social, nasceu a Teres. O nome da marca é uma homenagem à avó de Alice, Teresina, que a ensinou a reaproveitar roupas com defeitos, em vez de jogá-las no lixo.

Peças produzidas pela Teres (Foto: Divulgação)

Peças produzidas pela Teres (Foto: Divulgação)

A prática de transformar peças velhas em novas, conhecida como upcycling, foi a adotada pela Teres. A empreendedora, então, usou a pequena economia que tinha para estruturar o produto mínimo viável (MVP). Ela começou o piloto com pessoas que já conhecia. “Eu queria provar duas coisas: a primeira é que as pessoas têm mais coisas no armário do que realmente usam; e que há interesse de comprar esse tipo de moda.”

O dinheiro que tinha deu para que Alice fizesse a primeira rodada de reformas em peças usadas e investisse no desenvolvimento do logotipo. Ela mesma assumiu o desenvolvimento do site, porque já não tinha mais verba para investir. Desde maio, a Teres já conseguiu coletar 250 peças de desapego e produzir 100 novas roupas que estão à venda no e-commerce.

Atualmente, Alice é responsável pelo design, com técnicas que aprendeu em cursos online, e conta com uma costureira, que a ajuda na produção das peças. Sempre que há um aumento de demanda, principalmente em trabalhos mais burocráticos, ela recorre a profissionais freelancers e conta que seu objetivo é empregar e empoderar mulheres.

Peças produzidas pela Teres (Foto: Divulgação)

Peças produzidas pela Teres (Foto: Divulgação)

Por enquanto, ela só recebe roupas de São Paulo, por conta da logística. O interessado deve separar as peças, mesmo que estejam rasgadas ou manchadas, e preencher um formulário. Em até três dias, um motoboy recolhe os itens. Cada peça entregue reverte R$ 10 em créditos para que o consumidor utilize no próprio e-commerce da Teres. “Para os primeiros consumidores, a validade do cupom é ilimitada. A partir de janeiro, a ideia é que valha por um ano”, adianta.

O objetivo de Alice é expandir os trabalhos da Teres para outras cidades, mas não necessariamente com o envio de roupas pelos Correios. Ela estuda a possibilidade de empregar costureiras locais para atender a demanda, e não descarta franquear a empresa.

Além do apelo sustentável, Alice defende que a Teres é uma marca feminista, com uma moda acessível e modelos de todos os tamanhos, etnias e origens. “Quando eu escolhi as primeiras quatro modelos para fazer minha coleção, eu tinha uma regra muito clara:  tinha que ter branca, negra, trans, de vários tamanhos. Ao longo da vida eu sempre fui afetada por esse modelo de beleza padrão que não existe, e quero fazer diferente.”