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É possível ter um amigo verdadeiro que pensa radicalmente diferente? – 16/12/2020 – Contardo Calligaris

É sempre bom ter um amigo nas fileiras da oposição. Imagine que seu filho ou sua filha sumissem no abraço asfixiante de uma polícia política dos anos 1970. Você pergunta para o Exército, para a Aeronáutica, para a Marinha e até para a polícia. Ninguém sabe de nada. É nessa altura que o amigo fascista ou TFP (Tradição, Família e Propriedade) se revelará útil, se não indispensável. Ele saberá para quem perguntar.

Claro, não é facil ter um amigo verdadeiro na oposição —ou pelo menos, numa oposição tão extrema. Como é possível amar alguém radicalmente diferente?

Isso não implica que seja impossível. Montaigne, no ensaio sobre a amizade (“Ensaios”, 1-28), resumiu o enigma de maneira linda e decisiva: podemos pensar e agir de maneira muito diferente e mesmo oposta, podemos até odiar no outro esse oponente insuportável que se obstina a pensar “besteiras”, mas, em certos casos, misteriosamente, não por isso deixaremos de ser amigos: “Na amizade da qual falo, nossos espíritos se misturam e confundem a ponto de apagar-se e de nem sequer saber reencontrar a costura que os juntou. Se me obrigassem a dizer por que eu o amava, sinto que só poderia me expressar respondendo: Porque era ele, e porque era eu”.

Claro, não é impossível respeitar seus opositores. Ao contrário, se você não tiver amigo algum entre os que pensam diferente de você, é porque você se alimenta só dos seus ódios e nunca dos seus amores.

A posição oposta (alimentar-se só de amor, e nunca de ódio) não é necessariamente mais simpática. Imagine um mundo em que você decida quem são seus opositores ou seus aliados a partir da simpatia inefável que eles lhe inspiram. Brilhante Ustra? Sim, ele gostava de torturar pessoas, mas, por razões que nem eu sei dizer, ele era meu querido do peito. E por aí vai.

Seria um universo espantosamente “brasileiro”, um pesadelo engendrado pela visão diagnóstica de Sérgio Buarque de Holanda: o que regula a nossa vida social seriam simpatias espontâneas que organizariam o mundo entre afetos e desafetos.

Essas reflexões todas talvez sejam de alguma ajuda para os leitores que veem com apreensão se aproximar a data das grandes festas de empresa e de família. Fora o desastre sanitário que nos ameaça, podemos prever (prevenir?) a convivência forçada com ao menos uma fonte dolorosa de discórdia e mal-estar. Aquele tio que só aparece uma vez por ano para defender teses bolsonaristas extremas, aquela tia que, da última vez, quis trazer o grupo de refugiados bolivianos que ocupa o prédio ao lado do dela: as festas de fim de ano serão para muitos uma provação.

Somos capazes dos melhores sentimentos (até de sentimentos amorosos, dizem alguns) em relação a outros que pensam de outra maneira do que a gente ou que pertecem a clãs, grupos, etnias, partidos, torcidas diferentes.

Não sei se isso é um bem, ou se, ao contrário, isso não condena a viver num caldeirão no qual, por tradição culinária nacional, camarões, carne, frango e porco têm todos o mesmo gosto. Isso para não falar do queijo. Mas não é dificil enxergar uma vantagem na possibilidade de diferenças acentuadas conviverem —diferenças que, em outros países, deixariam a palavra às facas.

Há hoje, aliás, uma mudança do nosso próprio panorama interno: convive-se muito menos com as diferenças. Somos cada vez menos tolerantes. É necessario que La Boétie seja muito amigo nosso para que a gente aceite as posições políticas dele que realmente não casam com as nossas.

Agora, qual é o ponto médio certeiro? Como se calcula o lugar onde é possivel dialogar e mesmo discutir sem se odiar?

São perguntas antigas, vivíssimas nos anos 1980, quando se debatia quais eram os limites da “ação comunicativa” proposta pela sociólogo alemão Jürgen Habermas. No começo dos 1990, quem deveria resolver a guerra da Bósnia, as bombas da Otan ou a comunicação habermasiana?

De qualquer forma, toda situação em que a vontade de dialogar pareça menor do que a vontade raivosa de enfrentamento constitui um pequeno ou grande triunfo da estupidez narcisista. O modelo é o seguinte: não me interessa debater para saber se é melhor usar máscara ou não, não me interessa debater para saber se é bom para a maioria que uma vacina seja obrigatória. Nada disso me interessa, porque a única coisa que importa é que eu tenha razão.