Diário de Petrópolis

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Edição:
segunda-feira, 09 de novembro de 2020

Edição: segunda-feira, 09 de novembro de 2020


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Ronaldo Fiani
COLUNISTA

 

A Recuperação da Indústria Petropolitana

O Diário de Petrópolis trouxe a notícia da recuperação da indústria de Petrópolis e Teresópolis no sábado dia 31. A notícia dá conta de que a produção foi maior do que a média do Estado do Rio durante o terceiro trimestre, com crescimento todos os meses, tendo a utilização da capacidade instalada, ou seja, o nível de utilização das fábricas que se encontram instaladas alcançado 68%, acima da média histórica de 61,4%, e maior do que o nível de utilização no mês de agosto de 63%.

O aumento do nível de utilização da capacidade instalada é um fator positivo, pois as empresas não empregam, e menos ainda investem se há muita capacidade ociosa, ou seja, capacidade instalada para produzir que não é utilizada: por que investir se a capacidade não está sendo utilizada, e isso gera prejuízos?

O volume de emprego cresceu pelo segundo mês consecutivo com este quadro mais favorável. A margem de lucro operacional, que é o quociente entre o lucro operacional (ou seja, o lucro considerando apenas a produção, sem descontar os custos financeiros e os impostos) e as receitas líquidas (o que sobra da receita após abater todos os descontos comerciais, impostos sobre as vendas e devoluções de mercadorias reembolsadas) também aumentou, o que significa que as operações das empresas aumentaram a sua lucratividade.

Maior lucratividade operacional significa mais lucros para pagar empréstimos e financiamentos, o que favorece a obtenção de créditos para investimentos. Isso é positivo, mas a mesma notícia mostra que o indicador de acesso ao crédito ainda é muito baixo, no nível de 38,2 pontos, apesar de um crescimento de 8,4 pontos. Este acesso reduzido a crédito ainda é efeito do colapso das atividades econômicas produzido pela pandemia, que leva os bancos e outros agentes financeiros a reduzir sua oferta de crédito para diminuir o risco de inadimplência.

Se não verificarmos no nosso estado e na nossa cidade uma segunda onda da pandemia como a que está ocorrendo na Europa e na Índia, esta tendência deve se manter, com uma recuperação da indústria. É natural que nesta situação a prioridade seja a recuperação das atividades econômicas, com a retomada do emprego, da produção e do investimento. Também é razoável esperar que o crédito para a indústria se recupere, junto a com a retomada da economia.

Por conseguinte, não é de forma alguma insensato esperar que a economia volte ao normal no primeiro semestre do ano que vem, especialmente com a chegada prevista das vacinas. Neste sentido, o plano de recuperação econômica da cidade anunciado pela Prefeitura em agosto é uma iniciativa necessária. Mas um planejador público deve sempre olhar à frente, indicando rumos a seguir para o desenvolvimento do país, de uma região, ou mesmo de uma cidade. Portanto, a questão que se coloca é: depois da pandemia, o que será da nossa indústria? Quais rumos ela deve tomar? Essa pergunta foi respondida nos anos 1990 com o conceito de “Petrópolis tecnópolis”, uma resposta criativa à destruição da indústria têxtil que era a base do emprego e da renda na cidade, e que hoje ainda apresenta empresas como a Andritz, a Ikinha e a Werner.

Hoje temos o polo tecnológico da cidade, universidades instaladas juntamente com o Laboratório Nacional de Computação Científica, mas há pouca reflexão sistemática de longo prazo sobre a indústria de Petrópolis. Com efeito, no Plano Plurianual 2018-2021 da cidade lemos, na única referência à indústria de Petrópolis, que “é fundamental prestigiar e fomentar a expansão das atividades que compõem as vocações da cidade, as que mais geram empregos e renda, estimuladoras de cadeias produtivas, como as indústrias de moda, cervejeira, moveleira, os polos hoteleiro, turístico e gastronômico, e o crescente atrativo às empresas de tecnologia, inovação e comunicações”.

Exceto por uma referência vaga às vocações da cidade, os segmentos industriais que merecem estímulo segundo o plano seriam aqueles mais geram empregos e renda, estimulando a cadeia produtiva, ou seja, a cadeia de fornecedores para esses produtos. Isto não está errado: o emprego é um critério muito importante. Mas não pode ser o único, pelo simples fato de que as empresas industriais não atuam no vácuo: elas competem com outras empresas em outros lugares, o que demanda uma estratégia de longo prazo. Por exemplo: uma determinada indústria de Petrópolis pode começar a sofrer concorrência de empresas do Grande Rio ou de outras regiões do Estado, ou mesmo de outros Estados e outros países. Sem uma estratégia de inovação para esta hipotética indústria petropolitana, ela pode acabar falindo, ainda que gere muitos empregos.

É preciso então elaborar uma estratégia de inovação e desenvolvimento das indústrias de Petrópolis, juntamente com as empresas, que mapeie as principais tendências e os principais competidores, antecipando o futuro e garantindo um lugar para as nossas empresas nele.

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