Diário de Petrópolis

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segunda-feira, 31 de agosto de 2020

Edição: segunda-feira, 31 de agosto de 2020


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Ronaldo Fiani
COLUNISTA

 

A Base do Desenvolvimento no Século XXI Será a Cidade: Petrópolis Não Pode Perder Essa Oportunidade

O conceito de desenvolvimento envolve a transformação de uma economia e de uma sociedade na direção de uma estrutura produtiva tecnologicamente mais sofisticada e de uma maior qualidade de vida para a sua população. Caso haja apenas a expansão da atividade econômica, sem alteração na tecnologia da estrutura produtiva e sem melhoria na qualidade de vida, o que temos não é desenvolvimento, mas simplesmente crescimento econômico.

Ao longo de quase toda a segunda metade do século XX acreditou-se que o desenvolvimento era responsabilidade dos Estados Nacionais, isto é, cabia ao governo central criar as condições para o desenvolvimento. Também no caso brasileiro havia um consenso de que a responsabilidade pela promoção do desenvolvimento cabia ao governo federal, tanto por intermédio de programas elaborados e implementados pela administração direta, quanto por meio de programas implementados por estatais ou bancos federais.

Nesta perspectiva, nada restava às cidades além de tentar adotar políticas para mitigar os impactos resultantes destes programas federais, por exemplo, buscando reduzir danos ambientais provocados por industrialização acelerada. A cidade era, então, uma entidade passiva face às decisões do governo central.

Na última década do século XX este quadro mudou drasticamente. Em primeiro lugar, a generalização de inovações tecnológicas como a internet e o container para transporte em navios reduziram dramaticamente os custos de transação, isto é, os custos de vender e comprar no comércio internacional. Estas inovações, juntamente com a abertura comercial que acompanhou a criação da Organização Mundial do Comércio (OMC) em 1994 alavancaram os produtos chineses, que se aproveitaram das economias de escala proporcionadas pelo seu gigantesco mercado interno (consequência de uma população de mais de 1 bilhão de habitantes) e dos salários baixíssimos para serem imbatíveis na concorrência internacional.

A partir daí, ficou claro que não seria mais possível promover o desenvolvimento tendo como base as indústrias tradicionais, baseadas em tecnologia amplamente conhecida e utilizada, como é o caso das indústrias siderúrgica e têxtil. Uma consequência disso foi o abandono da ideia de desenvolvimento por parte das lideranças políticas em vários países, inclusive no Brasil, em favor apenas do crescimento. Estes líderes encaravam a expansão de pequenos negócios, como comércio de bairro, salões de beleza, oficinas etc., como um sinal de progresso.

Ocorre que a expansão desses negócios não representa desenvolvimento, pois não tornam a estrutura produtiva mais sofisticada, e assim a produtividade se mantém baixa, gerando salários e lucros reduzidos e, consequentemente, não melhorando a qualidade de vida das pessoas. É necessário, portanto, retomar o conceito de desenvolvimento, mas desta vez tendo por base não os planos federais, ou as indústrias tradicionais. Nestas últimas não há chance de competir com os produtos chineses.

Para ter sucesso no século XXI, o desenvolvimento deverá acontecer em empresas de tecnologia de ponta, nos segmentos que a competição chinesa com a produção em larga escala não alcança. Estas empresas de ponta são atraídas por recursos privilegiados oferecidos pelas cidades, tais como universidades, institutos técnicos, laboratórios, mão de obra qualificada etc. A responsabilidade do governo federal continuará, mas apenas na oferta de infraestrutura e na gestão das condições gerais de crédito, que afetam toda a economia.

Neste começo de século, Petrópolis está em uma posição privilegiada, com suas instituições de ensino, o Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), o polo tecnológico etc., para atrair cada vez mais empresas de ponta. Basta a cidade reconhecer as novas possibilidades de desenvolvimento do século XXI.

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segunda-feira, 31 de agosto de 2020

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